Correio do Minho

Braga, terça-feira

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O espantalho

E se falarmos de Suicídio?

Conta o Leitor

2020-08-08 às 06h00

Escritor Escritor

Texto de Luiz Saragoça


A cerejeira do Zé Boieiro, enxertada com as melhores cerejas das redondezas, era o mimo da povoação. Tratava-a com dedicação e esmero, regava-a e estrumava-a como se fosse um manjerico de estufa. Ainda o maio estava a dar os primeiros ais e já as cerejas estavam a arruçar. Era um cerejal temporão, o primeiro a dar cerejas em toda a aldeia e arredores.
Mas, como não há bela sem senão, estes mimos temporões pagavam-se caros. Os melros, pardais e outros esvoaçantes, mal as cerejas começavam a ruborizar, caiam-lhes em cima e levavam-nas a eito. Era um fartote, um manjar dos deuses para os bicos da passarada.
- Ó Zé, não porbamos as cereijas. Tens que fazer qualquer coisa! – Azucrinava-lhe a mulher os ouvidos.
- Ó mulher e que culpa tenho eu que os melros comam as cerejas – respondeu o Boieiro com cara de poucos amigos.
O Boieiro remexia o chapéu, coçava a cabeça, como que rebolando uma ideia, que não lhe surgia, para evitar aquela calamidade.
A passarada continuava a tirar a barriga de misérias e o Zé Boieiro não podia estar de plantão à cerejeira todos os dias. Estava de mãos e pés atados para evitar aquela calamidade, até que, um dia, uma ideia passou-lhe à frente dos olhos - brilhantes e fisgados - criar um espantalho.
- Se fizer um espantalho parecido comigo, os atrevidos não virão mais comer as cerejas. – Cogitou o Boieiro, confiante.
Pôs mãos à obra:
Foi buscar umas ripas e pregou-as em forma de cruz, tal qual uma grande cruzeta.
- O arcabouço já está!
Foi procurar uma meia velha, encheu-a de trapos e fez a cabeça. Foi buscar uma camisa e uma jaqueta, já no açafate para a manta farrapeira, e umas calças onde os remendos já eram mais que o pano. Colocou, cuidadosamente, os trapos velhos na cruzeta e foi só encher de palha colmo, dando volume e consistência ao arcabouço. Umas barbas de milho, a fazer de bigode, e a cara do espantalho ficou um assombro.
Olhou para a obra-prima e sorriu encantado.
- Só falta o chapéu. – Lembrou-se entretanto.
Levou a mão à cabeça, tirou o chapéu, olhou demoradamente para ele, hesitante, e colocou-o no espantalho.
- Já fica este – tamém já estou a precisar de um chapéu novo.
Com a obra concluída sorriu e o espantalho, como que por magia ou por magia mesmo, retribui-lhe o sorriso.
- Ó m’esta estás a rir-te p´ra mim! – Indignou-se o Zé Boieiro.
- Eu não quero gracinhas para a passarada. Vê lá se guardas as cereijas senão ponho-te no lume. Estás a oubir-me?!
O espantalho mudou de feições, pondo uma cara carrancuda que até metia medo ao susto.
- Assim está melhor!
O Zé dirigiu-se à cerejeira, subiu o tronco e num ramo mais forte, bem visível, atou o espantalho com um cordel.
- Já está! Já posso dormir descansado com estes malfazejos.- Pensou para os seus botões.
De facto, quem olhasse de longe, parecia o Boieiro encarrapitado na cerejeira – nem mais nem menos.
Os pássaros, ao primeiro impacto viam aquela figura medonha, davam meia volta e pousavam noutras árvores menos apetecidas.
As cerejas cresceram e ganharam cores ruborizadas sem qualquer bicada.
O Zé Boieiro por detrás das vidraças sorria satisfeito.
Aos poucos, os pássaros foram-se aproximando cada vez mais, pé ante pé, ou melhor asa ante asa, e aquela figura continuava impávida e serena.
Os esvoaçantes cada vez tinham mais fome e o Zé não havia maneira de largar a cerejeira. Nem de noite nem de dia.
- Aqui há coisa!... - Cogitavam os espertalhões.
Às tantas, um pássaro, por sinal um pardal mais atrevido, aventurou-se a medo e pousou no ramo mais distante que conseguiu do espantalho.
A figura lá continuava impávida e serena. Nem tugia nem mugia. Olhou com mais atenção, com olhos de pardal, e reparou que era um espantalho que ali estava só para os amedrontar. Vai daí, passou o chilreio, e então é que foram elas, o bando caiu em cima da cerejeira e, bicada aqui bicada ali, as cerejas iam todas a eito.
O espantalho bem via a roubalheira mas, preso de pés e mãos àquele pau, nada podia fazer.
Os pássaros, esses desavergonhados, pousavam nos seus braços e chilreavam, como que a rir na sua cara.
- Que humilhação! Já não me respeitam e já não sirvo para nada. Por este andar vou parar ao lume. – Desabafava o espantalho para os seus adentros.
O Zé Boieiro, vendo aquela pouca vergonha, ficou possesso. Deu voltas à cabeça e outra ideia atravessou-se-lhe à frente.
- Vou fazer uma ventoinha e quero ver se algum pássaro tem o atrevimento de se aproximar das minhas cerejas.
Pôs mãos à obra e, numa tardica, fez uma ventoinha, que colocou ao lado do espantalho. As hélices, com uns chocalhos, faziam um barulho infernal, com qualquer aragem que aparecesse por aqueles lados.
O espantalho sentiu-se novamente feliz.
- Agora, só com uma leve brisa, abano os braços e vai ser um barulho tal que os desavergonhados vão fugir a sete asas – regozijou-se o espantalho.
E assim foi!
Estavam todos refestelados, atirados às cerejas, quando uma lufada de vento fez rodar as hélices junto ao espantalho, fazendo-o mexer, e o barulho foi tanto e tal que os pássaros voaram, com quantas asas tinham, assustados.
As cerejas estavam salvas, pelo menos enquanto fizesse vento.

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