Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O espelho das ilusões

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2017-07-04 às 06h00

Escritor

José Cruz


Sabemos que nos antiquários se respira um sossego cerimonial. Crianças não costumam rondar, gatos e cães também são uma raridade. Vida, mesmo, a de um peixito em aquário de bola, ou a de um periquito, emudecido pelo cativeiro em gaioleta virada ao sol. Pois assim sucedeu que entrei num antiquário - antiquária, a bem da verdade, em virtude de uma senhora se tratar.
- Sempre veio, ainda bem - diz-me.

Não me descosi, já que parecia saber ela do que falava, tanto se me dando, a mim, que ela o soubesse ou não: - Aqui me tem balbuciei, com moderado entusiasmo.
Devo referir que acabava de penetrar na loja para me abrigar de chuveiro intenso, estando convicto de não conhecer a velha senhora de parte alguma.

- Pode começar pela ponta que quiser. Passe os olhos e diga-me como pretende fazer.
Prontamente percebi que esperava que eu extraísse pecinha por pecinha, que lhe desse lustro, que espanasse o pó de armários de três metros e meio de parede… Escuso de detalhar as dimensões da butique, basta que se perceba que era obra para um mês, senão mais. Que enquanto eu me entretinha, disse, prepararia ela um chã e biscoitos, ou tiraria um bolo de laranja do forno… Enfim, havia sempre uma novidade.

Regressei nos dias imediatos, como se depreende, passando bric-à-bracs a pente fino. Como a intempérie não desse ar de abrandar, e para que eu me poupasse a molhas de engripar, lá acabou por cair a sugestão de que me instalasse no quarto dos fundos.
Imbuído de saudável racionalidade, estranhará, o leitor, que muito se conciliasse - que a velhota pedisse, que eu tivesse disponibilidade para acorrer… Mas quem nega que a vida possa adquirir contornos peculiares, para não dizer ilógicos por inteiro?

Poupo o leitor aos detalhes do súbito desaparecimento da senhora, e aceitem que jure, pelo quanto tenhamos de sagrado, que não lhe dei sumiço, esperando eu que a seu tempo tudo se aclare. Acordo, por conseguinte, um belo dia: e zás, dou de caras com um bilhete - pois que assim e assado, que tinha surgido um imprevisto, que eu que tal e que sim estava perfeitamente dentro do negócio, que o notário fulaninho-sicraninho tinha uma procuração plenipotenciária em meu nome, etc. etc. etc.

Contenha-se, o leitor, antes de me atirar à cara que tudo isto é de uma inverosimilhança colada com cuspos da pior estirpe: não passamos nós o tempo a sonhar com heranças inesperadas de tios ou tias perdidos numa lonjura qualquer, com combinações estrambólicas da fortuna? «Deixa correr» disse-me. Bem vistas as coisas, estava eu curioso mais do que ninguém.

Confesso que da primeira vez me assustei com o plim-plim arcaico da porta: um visitante, em mais de um mês que levava daquela jigajoga. Passeia-se o cavalheiro, para aqui, para acolá. Volta integral. Confere atentamente as peças das prateleiras elevadas, pelo espelhinho inclinado que permitia visualizar o conteúdo a partir do solo. Estaca, demoradamente, diante de um espelho barroco de corpo inteiro que tínhamos (não sei o que me parece esta formulação, mas não a altero) na parede lateral da loja, descaída para a direita, quem olhava para a rua.
- Não me canso de apreciá-lo - diz-me. - De cada vez que cá venho, acabo por me lembrar de um amigo. Notável! Desfocam e distorcem, as manchas no espelhado, mas o resultado global é espantoso.

Eu, sem saber que lhe responder, não tendo por mim sobrevivido o fenómeno, e achando raro não ser interrogado sobre a proprietária, uma vez dado a entender que seria uma espécie de habitué, compus o meu melhor sorriso de antiquário e deixei-o à solta. Até que pigarreia, ele, entre vitrinas.

- Sim? - acudo, com as solicitudes de quem crê poder concluir uma venda.
- Este bmw - apontando com o mínimo da mão direita, para um bólide de fórmula 1 dos anos cinquenta. - Ao espelho, pouco antes, lembrei-me do meu amigo X - permitam-me que mantenha o anonimato - e lembro-me de brincarmos com um carrinho igual a este, exactamente. Nem sei se ainda é vivo, espero que sim. Desejo que sim.

E assim se pôs a desfilar memórias vívidas, de “como se fosse hoje”. E eu, no compras, não compras… Vai que não vai, pergunta-me o preço de catálogo da preciosidade. Embatuquei, que era a primeira vez que ouvia falar de um preçário, uma felicidade sendo que existisse, já que eu não saberia como lhe atribuir valor.

Reconheço que o número que escrevinhei me pareceu escandaloso: - Será isto, digo.
- Muito bem. Passo-lhe um cheque.
- Portanto… - Engasguei de vez. Corri olhos, estupidamente, procurando um terminal que eu sabia não existir, pois que nunca o vira. Ia lá eu dar um artigo de semelhante montante contra um papel! Principiante no metier, mas pouco burro, e o homem, falinhas finas tivesse, poderia ser um patifório.

- E vou-lhe deixar o nome do meu amigo - continuou, enquanto desenroscava uma refinada Montblanc - acredito que possa passar por cá um destes dias, e muito lhe agradeço que o entregue.
- Não estou seguro de o poder reconhecer - avancei, não querendo contrariar o cliente, mas procurando acautelar qualquer inconveniente.
- Ah! Não se preocupe. Preencha uma etiqueta, coisa sumária, basta: para entregar ao senhor X, da parte do amigo Y, e a data de hoje.

Assim fiz. Etiqueta de 8x5 montada em cavalete ao lado do protótipo. Outras mais tenho, ao presente, que a história deu em repetir-se. Dois meses levo de pasmos e surpresas. Convencido estou que, nas irregularidades do espelhado, se conjuram memórias que rivalizam com a reflexão de quem defronte dele se perfila e que, por estranha contiguidade, entre mostruários, bugiganga encontra, o saudoso, em que materializar o revivido. Clientes há que partem com o que adquirem, objectos há que encontram o seu destinatário nas horas imediatas, ao fim de dias. Quanto às peças em espera, estou em crer que eu as vejo, como as verá aquele ou aquela a quem se destinam.

Espero que me perdoem de mais não revelar. Deixo o relato, no entanto, para que outros não descreiam dos inauditos que campeiam à sua volta, para que bom abrigo dêem aos mistérios que eventualmente lhes sejam confiados. Começo uma história a que não vejo fim. Sou paciente.

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