Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O Fim da picada, por Ribamar Fonseca Júnior

Da falta que as tentações nos fazem

Correio

2010-07-18 às 06h00

Escritor

Quando se participa de um desafio como o proposto pelo Correio do Minho, “Quem conta um conto acrescenta um ponto” procura-se produzir o que há de melhor para atender as perspectivas de quem vai decidir pela publicação. E imbuído desse sentimento iniciei esta crônica imaginando que tema abordar, ou melhor, de que forma abordar um tema. Então pensei escrever sobre Meio-Ambiente. Relembrei que na minha mente este tema ficou mais presente a partir da ECO-92, na cidade do Rio de Janeiro. Nesse sentido, comecei a travar um diálogo interior, questionando o que dizer nesta crônica que não fosse o trivial, ou que já não tivesse sido amplamente discutido.
Imaginei discorrer sobre a degradação do meio-ambiente, sobre o lixo e a poluição, o efeito estufa, sobre o desenvolvimento sustentável, a consciência ecológica e, principalmente, sobre a triste herança que estamos deixando para nossos filhos e netos. Pensei, também, em dissertar sobre a definição de meio ambiente como conjunto de forças e condições que cercam e influenciam os seres vivos e as coisas em geral.Todavia, me perguntava: será que é importante discorrer sobre o meio ambiente biótico, o abiótico, o natural, o artificial e o cultural?
Continuava a indagar: será que o leitor tem consciência de que o futuro do planeta está seriamente comprometido ante a ausência de maior seriedade no combate à degradação da natureza? E que o aquecimento global, a poluição de rios, o lançamento de fumaças e substâncias tóxicas na atmosfera, a devastação de florestas, os alimentos contaminados por agrotóxicos, a extinção de espécies animais e vegetais, enfim, que a destruição da vida em todos os seus aspectos é uma realidade a nos atormentar diante da inércia das autoridades constituídas em combater os abusos cometidos?.
Não, não e não. Resolvi, então,que seria mais agradável para quem fosse ler está crônica que pudesse vislumbrar que há uma luz no fim do túnel e que nem tudo está perdido. Resolvi escrever sobre como cada um de nós pode fazer a diferença, fazendo a nossa parte, e não esperando só pelas autoridades. Podemos fazer a coleta de lixo seletivo; podemos evitar o desperdício de água; podemos incentivar a industria dos recicláveis comprando produtos com essa característica; podemos, também, denunciar à justiça e a sociedade verdadeiras atrocidades que estão acontecendo e que por não serem em nossa cidade, em nossa freguesia ou em nossa rua não nos desperta nenhum interesse. Pensei em mostrar a minha indignação quando vejo excessos absurdos, como a prisão de um cidadão que tirava a casca de uma árvore, em Brasília, no Brasil, para fazer chá para sua mulher doente, enquanto os grandes devastadores das florestas sequer são importunados.
Já exausto de pensar o que expressar nestas linhas, e extenuado pela elocubração mental, caí nos braços de Morfeu. De repente, estava sonhando. Via-me num lugar que se assemelhava a uma floresta, com árvores altas e um cheiro típico de mato cortado. Era como se tivessem limpado um salão, só para que eu pudesse me locomover com facilidade. Parecia que estavam me esperando, mas quem? Tinha a sensação de que estavam me observando.Foi quando notei uma sombra por trás das árvores. Apesar do medo, caminhei em sua direção. Quando me aproximei vi que se tratava de uma mulher. Cheguei mais perto e fui logo indagando: quem é você?
Ela, mais do que depressa, fez sinal para que eu não falasse nada. Com uma roupa esvoaçante e muito transparente, deixava que suas formas se delineassem para os meus olhos. Peguei-a em meus braços e fiz com que sentisse o meu corpo pesando sobre o seu. Podia sentir seu coração batendo acelerado. Quando parecia que tudo caminhava para o clímax, senti a presença de muitos pernilongos. Muitos, mesmo. Apesar das picadas em todo o corpo, percebi que havia um lugar que me doía mais.Era justo o lugar da costela onde recebia o beliscão da minha mulher, acordando-me para o trabalho. Foi o fim da picada...

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