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Braga, sexta-feira

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O fim do Socialismo Ersatz?

Beco sem saída

Ideias

2014-12-12 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Tinha-me habituado a tal ponto ao Socialismo (e à Social democracia!) Ersatz que não pude deixar de ficar surpreendido com o discurso feito há quase 15 dias no Congresso do PS pelo líder da distrital de Aveiro, Pedro Nuno Santos, reivindicando que os socialistas têm hoje, mais que nunca, de ser socialistas.

É como se o ilustre político estivesse a dizer que é tempo de reintroduzir o produto original no mercado político já completamente farto de consumir sucedâneos ou produtos de substituição.
A ideia de Nuno Santos é que o PS faça aquilo em que acredita e que apregoa. E aquilo em que o PS mais acredita e mais apregoa, segundo ele (e segundo qualquer outro socialista, presumo!) é que devemos ter um Estado forte para melhor nos protegermos contra ameaçadores interesses privados. Um exemplo disso, por ele dado, respeita à imoralidade que reputa atualmente existir na esfera do trabalho, sob as barbas do próprio Estado, com as inaceitáveis práticas da contratação de funcionários a (falsos) recibos verdes, do uso do subsídio de desemprego para o pagamento de empregos e de empresas a redistribuírem milhões de euros pelos seus acionistas obtidos com poupanças em despedimentos coletivos.

Este repto de Nuno Santos teve eco não apenas em vários camaradas de partido como também num número de analistas e comentadores políticos que saudaram a necessidade e a oportunidade do PS se reposicionar à esquerda (uma expressão algo ambígua, porquanto quererá significar para alguns ir da direita - lugar não natural do PS - para a esquerda - seu lugar natural - e para outros deslocar-se da esquerda mais envergonhada para a esquerda mais orgulhosa do seu credo fundamental).

Mas o deputado socialista não se limitou a apelar a uma recuperação dos valores básicos que fazem parte do património ideológico do seu partido. Quis parecer também responsável e realista e propôs que o PS elabore um programa de governo, a submeter ao escrutínio dos eleitores em outubro do próximo ano, que não apresente mais custos orçamentais para além dos já existentes.
Parece convencido Nuno Santos que se pode chegar a ter um melhor país, um país mais justo - porque com menos pobreza e mais igualdade - e com maior qualidade de vida, reforçando a capacidade intervencionista do Estado e mantendo os níveis de dotação orçamental nos seus valores atuais.

Este argumento pode ser (e tem sido) contestado em diferentes aspetos e de distintos modos. Não pretendo aqui pôr em causa a sua conclusão, que exprime o ideal, que comungo, de um país mais justo no sentido referido, nem cada uma das respetivas premissas: Estado forte e Orçamento não incremental. Quero questionar sim, a possibilidade de ambas estas premissas serem conciliáveis no atual contexto socioeconómico e, por consequência, produzirem o efeito desejado de maior justiça social.

É que uma ideologia política sempre tem custos económicos. Ora como no nosso caso o país não parece manifestamente dispor, de momento, dos recursos necessários para o socialismo autêntico, então das duas uma: ou o desafio do voluntarioso deputado Nuno Santos não passa de retórica política, talvez capaz de angariar alguns votos, mas inconsequente e depois das eleições o PS regressa ao Socialismo Ersatz dos últimos 30 anos, ou vai ser mesmo ser levado a sério e o PS, em especial se ganhar as próximas legislativas, arrisca o país a novo desastre nas contas públicas.

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