Correio do Minho

Braga, terça-feira

O forasteiro e a casa na falésia

Tancos: falta saber quase tudo

Conta o Leitor

2018-07-18 às 06h00

Escritor

Autor: Ana Leonor Rebelo Godinho

A tarde trouxe o forasteiro para um lugar magnífico. Havia uma casa grande isolada no topo de uma falésia escarpada com vista para o mar e debaixo do céu azulado e cheio de gaivotas. O forasteiro não parou por um minuto para admirar todo o esplendor que o cercava, parecia impaciente em aproximar-se da tal casa. A subida já ia longa e o crepúsculo escureceu a paisagem. O forasteiro, indiferente ao facto de estar a invadir a propriedade privada, andou sempre até alcançar a porta. Bateu com força na portada e ficou à espera. A porta abriu-se, mas do outro lado não estava ninguém. Reparou numa lamparina acesa colocada no chão, pegou nela e foi em busca do dono da casa.
Lá dentro, pelo fusco-fusco da luz tremeluzente que o acompanhava, ouviu-se um velho relógio de pêndulo a ecoar pela escuridão das inúmeras alas da casa. O forasteiro ainda não sabia ao certo a sua origem, até que estacou diante de uma porta. Para lá dessa porta lacada a branco, similar a tantas outras, escondia-se o homem que ele procurava. Rodou a maçaneta dourada e entrou. O olhar atento do forasteiro não se focava na beleza e riqueza desse salão, mas sim na sombra desse homem. Os seus olhos pararam numa poltrona grande à beira de uma pequena mesa com tampo de cristal, onde repousava um copo com bourbon. Deu com o vulto do homem de frente para uma das paredes em madeira que ostentava uma série de quadros tapados com panos pretos.
- O que quer da minha pessoa? - Indagou o homem sem rodeios.
- É simples. Quero que pare com aquilo que os seus pensamentos lhe ordenam.
- A sério?! - Exclamou com um sorriso.
- Vi-o no alto daquela janela a olhar para baixo, a deixar-se seduzir pelo rugir do mar, a desejar ser um objeto envolto nas ondas e arremessado com fúria contra as rochas.
- E depois?! Sou livre para escolher o meu fim.
- Não. Não é.
- Tenho tanto e não tenho nada. Estou vazio por dentro. Logo, tenho esse direito!
- O que o leva a sentir-se assim?
- Não sei.
- Talvez essa resposta em vez de estar dentro de si, esteja já cá fora.
- Em que lugar?
- Olhe à sua volta, como pode apreciar essas obras de arte se não as pode ver como elas são?
- Tem razão. Habituei-me a tê-las assim...
- O que receia?
- Sonhos.
- Que tipo de sonhos?
- Os meus sonhos.
O forasteiro lançou-se sobre os panos e arrancou-os. Assim que a poeira assentou começou a interpretá-las. O autor das telas era o próprio homem e o conteúdo representado era parte da sua história. O homem veio de um meio humilde e venceu na vida. Virou um entrepreneur e reuniu uma fortuna invejável através de negócios ligados a empresas petrolíferas sediadas nos Emirados Árabes. Todos queriam relacionar-se com ele. Recebia convites das pessoas mais ilustres da sociedade para comparecer em festas e cerimónias onde se encontrava a casta dos homens mais poderosos e ricos do mundo. Todos queriam ser como ele e apossarem-se do carisma e dinheiro que ele atraía sem qualquer esforço. De um dia para o outro, deixou de frequentar eventos, tratar dos negócios e isolou-se nessa casa, o seu templo.
Os anos passaram. O homem era atormentado durante o sono. Sonhava com algo especial, com um jardim. Tudo começou com uma sensação. O corpo ficou paralisado, a mente estava desperta e viu-se aprisionado num limbo entre o universo do sonho e o universo da realidade. Era de tarde. Estava sentado na varanda de frente para o jardim. Observava. Via o passar do tempo imprimido na robustez violenta dos troncos das árvores. As raízes fizeram aluir o cimento e o arsenal de ramagens que se abriam tapavam por completo a luz do dia. O vento soprava, furava e agitava as folhas dessa aguarela verde e triste. Ali dentro, a solidão era tanta. O musgo galgava pedaços do chão, o mesmo que outrora sentiu as suas correrias e brincadeiras na infância. Sentia o perfume ténue do roseiral disperso por cores e que, hoje, restava extinto. Lembrava-se como se fosse ontem. Havia rosas vermelhas de textura aveludada, brancas imaculadas, amarelas com rasgos de fogo e outras em tons desmaiados de rosa delicado. Ficou em silêncio. Não estava sozinho nesse jardim. O pai estava ali. Encontrava-se sentado debaixo de uma japoneira a degustar um whisky de 15 anos, como era hábito aos domingos. Parecia que o homem reencontrou o pai no tempo presente de outro universo. Depois a sensação que teve foi a de ser esfaqueado na alma. Olhava para o pai e sabia que ele morreria em breve. Recusava-se a ter de vivenciar de novo tantos momentos de crises, angústias e sofrimentos inoculados pela doença terminal do pai. Isto era a dor da não aceitação, a frustração e impotência de não ter podido fazer nada a falar alto.
- E então vai deixá-lo morrer outra vez ou volta a sonhar para o salvar?
- E tal coisa é possível?
- Sim. Basta o crer.
- Porque se preocupa comigo, se somos dois estranhos?
- Somos estranhos, porque o senhor quis… Sonhe, pinte os seus sonhos e vai encontrar-me neles.
O forasteiro foi embora. O homem, por sua vez, ficou engasgado com as suas palavras e voltou a não ter medo de dormir e sonhar. O tempo passou e o homem sonhou e pintou. Chegou o dia em que quis decifrar o conteúdo das suas criações mais recentes. À medida que se desenrolou a vida nesse universo paralelo, ele travou uma luta incessante pelo pai. Viveu uma e outra vez dentro desse mundo, onde existia esperança, para mudar o destino dele. O homem conseguiu com que o pai soubesse atempadamente do seu estado, tomasse a medicação adequada, fizesse tratamentos e recuperasse a sua saúde. Ao conquistar a sua redenção, finalmente, reparou num pormenor repetitivo em todas as telas e que lhe passou despercebido. Tratava-se do retrato de um rapaz jovem em busca de um pai presente. Como vivia consumido pelo desgosto, loucura e egoísmo acabou por se esquecer de ser, ele próprio, um pai. E agora quem seria o forasteiro? O filho ou uma manifestação do subconsciente?

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