Correio do Minho

Braga, terça-feira

O futuro da Confiança

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2016-05-17 às 06h00

Jorge Cruz

“Se temos uma área que é absolutamente colada à UM, que está degradada e não tem qualquer aproveitamento e onde podemos instalar um conjunto de valências que vão atrair os jovens da universidade e outras situações, já estamos a diminuir a proximidade... já serão 200 metros que ultrapassamos. Se juntarmos essa solução a uma de mobilidade que ultrapasse a barreira que passa em frente ao BragaParque, estamos a cumprir um desígnio. Temos que começar por algum lado”.

A afirmação, clara e inequívoca, foi proferida por Ricardo Rio em Janeiro de 2013, num debate promovido pela JovemCoop para analisar a (então) candente questão do futuro da antiga fábrica Confiança. De então para cá, e como facilmente se constata pela simples leitura de jornais, muita coisa mudou, pelo menos na mente do agora presidente da Câmara de Braga.

Inicialmente, a ideia para a antiga saboaria Confiança, um edifício com valor patrimonial e cultural, era instalar diversas valências e, nessa perspectiva, o plano, da ordem dos quatro milhões de euros, previa uma área museológica, a sede da Associação Académica do Universidade de Minho, um auditório, um ninho de empresas e ainda espaços de restauração.

Agora, porém, colocado perante a ausência de fundos comunitários para o desenvolvimento desse desígnio, Ricardo Rio deitou imediatamente a toalha ao chão desbaratando as 84 propostas que concorreram ao concurso de ideias realizado pela autarquia e, o que é mais grave, desinteressando-se da recuperação do último exemplar das históricas indústrias bracarenses. Mas curiosamente, ou talvez não, ainda a notícia de que a Câmara de Braga não tinha conseguido fundos comunitários para requalificar a antiga saboaria Confiança estava fresca e já surgiam dois interessados na aquisição do imóvel.

Foi o próprio presidente da Câmara a admitir ter sido abordado por, pelo menos, dois potenciais compradores, “em condições que permitem ressarcir o município do valor ali despendido”, num provável negócio que constitui uma dupla surpresa - pela rapidez com que surgiram oportunas propostas de aquisição e por se tratar de mais uma bandeira eleitoral que Ricardo Rio deixa cair.
De facto, não nos podemos esquecer que o líder da coligação “Juntos por Braga” foi um dos responsáveis políticos que mais defendeu a passagem do imóvel para a esfera pública, na perspectiva da sua preservação, tendo inclusivamente estado envolvido no processo de aquisição pelo município e no concurso de ideias que se lhe seguiu.

É também por essa razão que causa estranheza esta mudança de rumo, este baixar de braços, que corresponde à quebra de um compromisso e, desse ponto de vista, obviamente também tem um significado político.
Acresce, por outro lado, que através da aquisição do edifício a Câmara não pretendia esgotar a intervenção municipal apenas na requalificação do imóvel e na preservação histórica da indústria ali sedeada. Não, a ideia não era tão minimalista, bem pelo contrário, visava também dar o pontapé de saída para a requalificação e revitalização de toda a área envolvente, o que potenciaria a aproximação entre a cidade e a zona da Universidade do Minho e, nessa perspectiva, a Confiança seria uma peça-chave do processo.

Faz, por isso, todo o sentido lembrar aqui e agora as preocupações manifestadas pelo então candidato a presidente da Câmara de Braga, parte das quais reproduzimos logo no início desta crónica. Quero acreditar que as posições públicas que Ricardo Rio assumiu na altura correspondiam de facto ao seu pensamento político e não a qualquer manobra tacticista de cariz eleitoral.

O problema é que a mudança de objectivos estratégicos que agora foi dada a conhecer tem tanto de inopinado quanto de inquietante, principalmente se se vier a confirmar que um dos potenciais compradores é uma grande superfície comercial situada nas proximidades e que pretenderia usar o imóvel para a expansão do seu negócio. Ou seja, o que está em causa é que de uma só penada se inviabilize a preservação de uma importante parte da história industrial de Braga, se dê um passo atrás na política de aproximação entre a Universidade e a cidade e se coloquem mais entraves ao desenvolvimento da política de mobilidade.

É que não nos podemos esquecer que ao facilitar a criação de um novo polo de atractividade ao consumo se está a contribuir para incrementar o tráfego rodoviário numa zona já de si bastante sobrecarregada. Por outro lado, sabe-se que os efeitos colaterais de uma tal solução no já excessivamente fustigado comércio tradicional de Braga não serão despiciendos, bem pelo contrário, poderão provocar novas e graves crises nesse delicado tecido empresarial.

Não quero acreditar que alguém responsável e de boa-fé alinhe, por actos ou por omissão, numa solução tão escabrosa como aquela que as mais recentes palavras do presidente da Câmara parecem fazer adivinhar. Pelo contrário, é minha convicção que o bom senso vai imperar e, consequentemente, que será encontrada uma solução que permita de facto, não apenas recuperar o imóvel e preservar a sua história, mas também dar passos decisivos para a aproximação entre a universidade e a cidade.

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