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Braga, sexta-feira

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O incidente de Braga

Beco sem saída

Ideias

2015-04-17 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Há uns anos, quando preparava um curso sobre filosofia da mente, encontrei um interessante dado científico: o “tunicado” - assim denominado por estar envolto numa espécie de túnica composta de uma substância celulósica, a tunicina - é o ser vivo com o sistema nervoso mais elementar que existe; tão elementar que lhe permite apenas fazer duas coisas: tornar-se séssil, ou seja, conseguir, mediante penoso esforço, prender-se a uma rocha ou a outro substrato sólido e, uma vez conseguindo isso, engolir e digerir o seu próprio cérebro, ficando desse modo obsoleto, transformando-se num mineral e, a prazo, num fóssil.

Um colega com quem mais tarde partilhei esse curioso facto observou que ele pode servir de metáfora para descrever a carreira de muitos servidores do Estado: lutarem arduamente por alcançar uma posição elevada segura num organismo público e, depois de o conseguirem, devorarem a sua inteligência, fazendo-se acéfalos, apáticos e abúlicos.

Isso talvez explique o modo como as autoridades académicas da Universidade do Minho lidaram com o insólito caso que se passou, não há muito tempo, no seu Instituto Confúcio (ICUM). Com efeito, no último Verão, a Dra. Xu Lin, a diretora geral do Hanban (designação coloquial do Gabinete Nacional Chinês para o Ensino do Chinês como Língua Estrangeira), chegada a Braga na tarde do primeiro dia da 20ª Conferência da Associação Europeia de Estudos Chineses, após ter inspecionado toda a documentação fornecida aos participantes no evento, detetou nos livros com o programa e os resumos uma referência à Fundação Chiang Ching-Kuo para o Intercâmbio Académico Internacional, de Taiwan, e, em reação, mandou arrancar as páginas de todos os exemplares que a contivessem, assim como contactar todos aqueles que já tivessem recebido os ditos livros para que os devolvessem e se pudesse proceder a idêntica extração da amaldiçoada página. Não tendo sido completamente bem-sucedida nos seus intentos, a Dra. Xu Lin instigou, posteriormente, funcionários do ICUM a empacotarem todo o material impresso de apoio à Conferência para o fazer desaparecer.

Este caso, que não suscitou qualquer lamento, crítica ou repúdio da UM no plano institucional, foi batizado pela imprensa internacional “the Braga incident” (http://chinesestudies.eu/index.php/446-the-braga-incident-timeline-with-links-to-articles-and-comments). Não se pense, no entanto, tratar-se de um incidente isolado, mas, pelo contrário, mais um numa lista de acontecimentos idênticos que se vem alongando (http://en.wikipedia.org/wiki/Criticisms_of_Confucius_Institutes).

Ele representou, contudo, uma inaceitável ingerência na autonomia da UM, colocando em causa não somente a sua competência exclusiva para “definir livremente as suas políticas, programas e iniciativas culturais, sem outras restrições para além das que resultam da Constituição, da lei e das convenções internacionais”, como o art.º 8º dos seus Estatutos estipula, mas violando também o princípio dual “de liberdade académica nas atividades de ensino, aprendizagem e investigação científica, em clima construtivo e de livre crítica, na procura honesta e responsável do progresso do conhecimento”, propugnado no art.º 1º, al. g) vertidos no seu Código de Conduta Ética.

Merecia, por conseguinte, ter tido uma resposta condigna. O que aconteceu, porém, foi tão-somente o afastamento discreto da anterior direção, que nunca abdicou de atuar com os princípios citados, a que se seguiu a nomeação silenciosa de um novo diretor e, claro, o prosseguimento da política business as usual.

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