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O jogo do gato e do rato

Liderar Gerações Por Portugal

O jogo do gato e do rato

Escreve quem sabe

2020-01-03 às 06h00

Jorge Dinis Oliveira Jorge Dinis Oliveira

Uma das minhas últimas visitas às finanças deveu-se ao não pagamento de uma portagem relativa a um carro que não possuo, nunca possuí e nunca aluguei. Ainda assim encontrei-me na estranha situação de ter de me justificar, às finanças, por uma dívida inventada entre particulares. Em tom de brincadeira referi ao funcionário, “que bom que seria se também eu vos pudesse contratar para me cobrarem as dívidas”. Mas esta possibilidade, que do meu ponto de vista é inconstitucional, não está ao alcance das PME’s nacionais.
Que bom que seria se todas as empresas pudessem, como pode a empresa privada Via Verde, cobrar as suas dívidas através das finanças.

Todo o novo empreendedor deve saber que não há melhor investidor do que um cliente, deve aceitar a ansiedade que se instala quando estes escasseiam e desfrutar da alegria de uma nova venda ou um novo contrato.
Mas todo o novo empreendedor deve também saber que, após nova venda, existe sempre o risco de não ser pago ou de os prazos de pagamento serem alargados pelo cliente. Acontece… demasiadas vezes.
Assim, e infelizmente, cada nova relação comercial deve ser encarada com desconfiança e cada novo trabalho deve ser acompanhado de mecanismos que assegurem os pagamentos.
Estou a exagerar, um pouco, mas a minha experiência enquanto empresário nos últimos 13 anos diz-me que há um grande número de empresas e particulares que tudo farão para não pagar ou atrasar os pagamentos.
A inexistência de uma cultura nacional (…) de “pagamento no prazo acordado aos fornecedores” constitui um real estrangulamento para o desenvolvimento das empresas e, consequentemente, para o crescimento da economia portuguesa.

Só muito recentemente analisei os dados disponíveis sobre os atrasos nos pagamentos e o seu impacto na economia e a frase do parágrafo anterior, disponível no relatório sobre “A Crise Económica e Financeira e Sustentabilidade das PME” da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), suporta aquilo que empiricamente já sentia. Nem fiquei admirado quando percebi que Portugal é dos países com maior incumprimento dos pagamentos a fornecedores.
De acordo com os dados disponibilizados pela ACEGE, apesar da evolução positiva de 2011 a 2019, atualmente há menos empresas a pagar no prazo do que durante o período de intervenção da troika. Em 2011, 21,8% das empresas pagavam no prazo acordado com o fornecedor, em 2014 eram 17,4% e, atualmente, são apenas 14,2%. Estamos a uma grande distância dos 42,8% da média europeia.

Este jogo do gato e do rato, de paga e não paga, que estrangula a nossa economia e prejudica a vida dos cidadãos é responsável por 25% das falências, foi responsável pela extinção, entre 2006 e 2011, de 14.000 postos de trabalho e cria concorrência desleal entre empresas que honram os seus compromissos e aquelas que não o fazem.
Não podia estar mais de acordo com a ACEGE quando refere que o atraso no pagamento, na maioria dos casos, não está relacionada com problemas financeiros e de liquidez, mas é fruto de lideranças e culturas empresariais.
Cumpre-nos a todos honrar os nossos compromissos pela saúde das empresas, da economia e dos nossos empregos. As famílias agradecem. Um bom ano a todos.

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