Correio do Minho

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O Jornalismo só sobrevive como espaço de liberdade

Memórias e lugares

Ideias

2013-01-06 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Comemoraram-se ontem os 40 anos do Expresso. Na semana passada, assinalaram-se os 148 anos do Diário de Notícias. Nenhum deles teria sobrevivido, se, neste tempo, não fizessem a apologia de uma permanente liberdade de imprensa.

Foi em 1864 que saiu para as bancas o primeiro número do DN, dirigido então por Eduardo Coelho. Em editorial, o director dizia que aquele jornal era feito para todas as classes sociais e para todas as idades, tornando a notícia a essência de cada página e encontrando na publicidade a principal fonte de financiamento. Hoje, tudo isso parece algo banal. Na altura, tal projecto constituía uma verdadeira revolução. Até então, em Portugal, a imprensa confinava-se a títulos sustentados por partidos ou grupos políticos que se serviam dos periódicos para vingarem no espaço público. Daí, os jornais aparecem a desaparecem num ápice. Vivia-se aquilo a que se chamava a fase romântica ou de opinião da imprensa portuguesa. Com o Diário de Notícias, inaugura-se uma outra fase, a noticiosa, procurando-se aos poucos reestruturar as redações. É aqui que surge a figura do repórter e se percebe a importância de uma rede de correspondentes. Como se tem percebido, o caminho a percorrer era longo. Muito longo.

A 6 de Janeiro de 1973, nasce o Expresso. Francisco Pinto Balsemão tem uma superstição em torno do número 6, procurando iniciar os seus projectos sempre nesse dia: o Expresso, a SIC, a Caras... Em plena primavera marcelista, surge aquilo que Balsemão considera ser “o navio almirante” do seu grupo Impresa. A primeira manchete era a seguinte: “63 por cento dos portugueses nunca votaram”. Significativo este advérbio de negação, particularmente num tempo em que os media publicos apregoavam, em cada processo eleitoral, a grande afluência de eleitores às urnas. O Expresso vinha dizer que mais de metade da população nunca tinha exercido aquele dever cívico (na altura circunscrito aos homens com 21 anos que soubessem ler e escrever e às mulheres que tivessem os estudos secundários completos). Era espantoso como aquele título tinha passado no crivo da censura! Certamente os censores não perceberam a crítica que tal manchete fazia ao regime em vigor...

Passados 40 anos, o Expresso continua, em cada fim-de-semana, a tentar marcar a actualidade. Com êxito. Em editorial, Francisco Pinto Balsemão falava ontem da importância da independência editorial para a consolidação de um jornal de referência, como é aquele que criou nos anos 70. Sem essa equidistância dos poderes instituídos, a qualidade jornalística fica irremediavelmente comprometida.

A abrir o jornal, o Expresso reserva, na edição desta semana, um espaço para três artigos dos ex-directores: Marcelo Rebelo de Sousa, Henrique Monteiro e José António Saraiva. Retive de modo particular as palavras de Henrique Monteiro. Escreve ele no início do seu texto o seguinte: “vinha de outro semanário no qual tive toda a liberdade de escrever. Não tive dúvidas de que no Expresso teria a mesma. Tive mais” Mais à frente, falando da longevidade deste jornal, afirma isto: “o segredo foi a liberdade. Ter a mente aberta para as novidades, ter as páginas abertas a todos, não ter preconceitos, saber reconhecer quando errámos”. São poucos os jornalistas que hoje podem declarar viver assim nas redacções onde trabalham. É por isso que actualmente se vive uma das crises mais sérias do jornalismo.

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