Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O “Supermercado”

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2010-09-12 às 06h00

Carlos Pires

1. Acabo de despender algum tempo a percorrer o “sítio” informático HYPERLINK 'http://www.casapia.pt/' \t '_blank' www.casapia.pt. Tive curiosidade em perceber como é que a Casa Pia de Lisboa se dava a conhecer perante o público cibernauta. A informação é abundante: podemos conhecer a sua história, organograma, áreas de intervenção, etc..
“A Casa Pia de Lisboa é um Instituto Público que tem como missão a promoção dos direitos e a protecção das crianças e jovens, sobretudo dos que se encontram em perigo e em risco de exclusão e com necessidades educativas especiais, de forma a assegurar o seu desenvolvimento integral, através do acolhimento, educação, formação e inserção social e profissional”. Lê-se ainda que “o trabalho desenvolvido visa o superior interesse da criança e a construção do seu projecto de vida (…)”. Semelhante retórica causa desconforto. Não tem correspondência com a factologia que a história recente trouxe ao nosso conhecimento e que durante muito tempo permanecerá na nossa memória colectiva.
Detive-me no documento “A Carta - Um Compromisso para a Acção”, inserto no campo “Documentos Orientadores”. Apercebi-me das várias nomenclaturas que se pretende associar à Casa: “residência de acolhimento”; “unidade de emergência”; “creche” ou “escola”. No Capítulo 3, refere-se que os “Clientes” da Casa Pia são “crianças e jovens, designadamente os privados de meio familiar adequado e respectivas famílias”.
Não me apeteceu ler mais. Talvez o sítio informático que acabo de consultar seja, afinal, demasiado fiel à realidade: “frio” e institucional. Crianças como “clientes”? Até pode ser assim, numa perspectiva exclusivamente teórico-economicista, mas não pode, de forma alguma, fazer parte de documentos oficiais da Casa. Contrariamente ao sentido inferido do vocábulo “clientes”, as crianças que são colocadas sob a confiança da instituição não estão ali mediante escolha. A Casa Pia de Lisboa não é um estabelecimento comercial. Deveria ser, isso sim, um centro de afectos, no qual as crianças desfavorecidas se sentissem verdadeiramente amadas.
Talvez  esta aparente ausência de “sentimentos” na “filosofia” da casa indiciasse e/ou potenciasse a frieza com que ao longo de tantos anos repugnantes abusos foram cometidos sobre menores, de forma descarada e useira. Recentemente, li que a Casa Pia tinha um “nickname” - nome de código entre os predadores que nomeadamente através de Carlos Silvino (“Bibi”) obtinham contactos com as crianças. Era o “supermercado”. É da autoria de “Bibi” a seguinte afirmação: 'Aquilo [Casa Pia] era um estabelecimento com carne fresca. Vários embaixadores iam lá buscar miúdos'. Chocante e vergonhoso! Como foi possível que a lei do silêncio, castradora e violadora dos direitos daquelas crianças, imperasse durante tantas dezenas de anos?

2. Quem tem acompanhado as notícias televisivas respeitantes à sentença do processo judicial “Casa Pia” certamente atentou nas assertivas palavras da Presidente do Colectivo de Juízes, Ana Peres: “a Casa Pia teve responsabilidade no que se passou (…) houve ignorância e desvalorização de situações que podiam prejudicar o desenvolvimento dos seus educandos”. Contudo, o tribunal não concluiu pela “negligência” directa dos funcionários da instituição: “Por vezes, os pais também não se apercebem do que se passa em casa e os lares [da Casa Pia] não eram uma casa nem uma família”, referiu a Juíza.
Terá sido assim? O(a) caríssimo(a) leitor(a) acredita mesmo que ninguém se tenha apercebido? Durante dezenas de anos, um número indeterminado (mas assustador!) de crianças foram abusadas naquela Casa e fora dela. Foram abusadas por colegas mais velhos, funcionários, responsáveis. E por gente exterior à Casa, através do conluio e mediação de pessoas do seu interior. Nenhum educador estranhou determinado comentário dentro da sala de aula? Nenhum professor detectou mudanças de comportamento de alunos e que mereciam melhor análise e indagação? Nenhum funcionário estranhou as saídas das crianças, deslocadas em veículos por adultos à luz do dia? Nenhum funcionário ouviu barulhos e gritos durante o dia ou durante a noite? Ninguém sabia dos constantes abusos infligidos pelo “Bibi”? Ninguém alguma vez desconfiou da forma como ele segredava ou tocava nesta ou naquela criança? Nunca chegou qualquer queixa aos responsáveis e directores? Nunca? Alguém acredita?
       Tenho tentado, em vão, perceber toda esta situação através dos testemunhos de alguns ex-casapianos (acho este termo dantesco! Ninguém merece ficar assim “carimbado” por ter (sobre)vivido numa instituição!). Por que nunca fizeram nada? Percebo que não fosse fácil, sobretudo para quem se sentia parte dum “supermercado”, à mercê dos abusadores, sem esperança, sem ajuda, num sistema já todo ele conformado. O trauma silenciou-os. Foi uma pena, por eles e sobretudo pelos colegas, mais novos, que ainda na Casa permaneciam, que não tivessem denunciado os abusos há mais tempo. O silêncio só serviu para avolumar o sofrimento.
Esta foi a minha primeira crónica acerca do “Processo Casa Pia”. Poderá haver mais. Preferi não falar do processo judicial, das minhas certezas e das minhas estranhezas, dos arguidos, das culpas e das eventuais inocências. Preferi partilhar convosco aquelas que são as únicas conclusões que todos temos: por um lado, a Casa e todos os que nela trabalhavam falharam, injustificadamente; por outro lado, quero acreditar nas palavras de Catalina Pestana: “Portugal, o país e nós todos já ganhamos muito com este processo. Ninguém olha mais para uma criança que denuncia um adulto com o mesmo ar displicente com que se olhou para estas crianças'. Eis a minha esperança.  

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