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Braga, segunda-feira

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O livro, uma tecnologia dificilmente igualável

A recuperação das aprendizagens

Ideias

2017-06-09 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Quando pensamos em tecnologia, logo representamos nas nossas mentes coisas tais como carros, computadores ou telemó- veis. Em contrapartida, só com dificuldade concebemos que lápis, afia-lápis e livros pertençam a essa categoria de artefactos. E há mesmo quem veja nestes últimos exemplos de objetos de eras pré-tecnológicas. Todavia, bem ao contrário, cada um deles constitui uma tecnologia com longa história, genealogia complexa e notável alcance civilizacional.

Concentremo-nos naquela, dessas três, que é talvez a mais culturalmente impactante: o livro. Pode encontrar-se nalguns sítios da Internet instrutivos vídeos sobre ela. Um dos mais interessantes, porventura, está neste endereço: https://www.youtube.com/watch?v=YhcPX1wVp38. Aí, em tom humorístico, o livro é referido como um “dispositivo bio-ótico de conhecimento organizado” verdadeiramente revolucionário, dotado de características admiráveis e quase ímpares: trabalha sem ligação à rede, de modo que dispensa cabos, fios ou bateria para ser usado; não necessita ser recarregado, podendo funcionar por tempo ilimitado; nunca vai abaixo e assim nunca precisa ser reiniciado; é compacto, portátil e manuseável em qualquer lado; e o seu modo de uso é muito simples: basta abri-lo e começar a desfrutar das suas vantagens.

Prosseguindo no modo divertido aí se assinala também que cada uma das suas páginas - sequencialmente distribuídas e mantidas nessa ordem com a ajuda de um dispositivo chamado “lombada” - pode ser acedida com um simples deslizar do dedo e o seu conteúdo registado diretamente no nosso cérebro por varrimento ótico. A maioria dos livros, aponta-se ainda, vem equipada com a funcionalidade “índice” que permite localizar com precisão informação específica. No fim salienta-se que se encontram disponíveis vários acessórios opcionais suscetíveis de melhorar a experiência dos seus utilizadores: o marcador de páginas, que permite abri-lo no exato ponto em que foi deixado na última sessão; o lápis, uma eficaz ferramenta de programação que possibilita a introdução de notas pessoais; e o leitoril, um dispositivo mãos livres para a sua mais cómoda utilização.

Isto vem a propósito de uma tese articulada por Umberto Eco nos seguintes termos: «As variações em torno do objeto livro não lhe modificaram a função, nem a sintaxe, há mais de quinhentos anos. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não se pode fazer melhor. Não se pode fazer uma colher que seja melhor que uma colher.» (16). Ela encontra-se na obra recentemente vertida para o nosso idioma, mas originalmente publicada em 2009, Não Contem com o Fim dos Livros, que reúne uma série de conversas entre o conhecidíssimo pensador italiano e o guionista francês Jean-Claude Carrière, conduzidas pelo jornalista do Nouvel Observateur, Jean-Phillipe de Tonnac, sobre essa singular tecnologia que é o livro.

Não se pode fazer um livro que seja melhor que um livro, reivindica, pois, Umberto Eco. E isso, a meu ver, significa pelo menos três coisas: que quem se apressou a passar a certidão de óbito do livro impresso por consequência do aparecimento do livro eletrónico terá de rever essa funérea perspetiva; que quem se empenha em defender que o e-book é tecnologicamente superior ao de papel terá de justificar melhor a preferência; e, generalizando, teremos de reavaliar quais as tecnologias que submetidas a reconversão para funcionar em suportes eletrónicos (ou também neles) constituem instâncias de inequívoco progresso para nós.

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