Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O ‘chamamento’

O que nos distingue

Conta o Leitor

2013-07-10 às 06h00

Escritor

Ana Leonor Rebelo da Silva Godinho

Ovento tinha parado de ensombrar a paisagem serena e solitária da região Toscana. O silêncio foi interrompido pelos passos de dois homens que caminhavam lado a lado. Um dos vultos, negro e clerical, acompanhava outro mais contemporâneo e apetrechado com uma máquina fotográfica. Iam em direção ao convento de Monte Senario que alberga uma ordem religiosa austera, denominada “Servas de Maria”.

Mal atingiram o topo, o convento ficou a descoberto e o padre Matteo puxou por uma sineta que soou o alarme. O portão foi aberto por uma irmã e de imediato Matteo pediu-lhe que avisasse a Madre Superiora da sua presença. Ficaram ambos a aguardar no hall de entrada. Minutos depois ela chegou e o padre apresentou Filippo como um historiador interessado em desvendar as origens desta ordem. Após o seu aval, a Madre Superiora levou-o numa visita guiada enquanto lhe expunha uma série de condições e regras para a sua permanência neste lugar sagrado.

Todos os dias Filippo andava pelas imediações do convento onde havia grutas e fontes, uma capela decorada com motivos barrocos e afrescos da Virgem e passava horas enfiado na biblioteca, sempre acompanhado de perto por Matteo. Um dia viu passar ao fundo de um corredor uma série de irmãs em volta de outra.

O seu hábito era diferente. Vestia-se de branco até aos pés descalços, usava um véu translúcido a tapar a face e à cintura trazia um rosário em madrepérola. Raramente se via. Passava semanas fechada numa cela rezando pela salvação das almas e do mundo em jejum e penitência. Ao fim de um tempo viu-a de novo de passagem, como uma aparição. Ela tinha algo de especial.

Intrigado perguntou, insistentemente a Matteo, quem era a irmã. O padre levou-o para os jardins e aí confiou-lhe que aquela era a “santa sem nome”. Fora encontrada desmaiada na escadaria do convento, vestida de noiva, sem documentos e muito ferida. As irmãs cuidaram dela, pensando que não sobreviveria, mas passado um mês deu de si. Procuraram saber quem era, donde vinha e o que lhe sucedera, só que ela não emitiu qualquer som ou palavra.

No dia em que decidiram alertar as autoridades deram com ela numa cela a rezar. Ficou assim vários dias e noites, pois ninguém a conseguia demover, até que nas suas costas brotou um estigma sangrento sob a forma de um crucifixo. A Madre Superiora contatou o Vaticano que, por sua vez, mandou um padre para estudar o fenómeno.

Certa noite, porém, alertadas por uns ruídos, as irmãs depararam-se com o padre barricado na cela blasfemando e ameaçando a sua protegida com um punhal. E aí aconteceu o inexplicável. Quando este executou o golpe a lâmina quebrou no impacto com o corpo. Era um milagre. O padre caiu de joelhos pedindo-lhe perdão e em seguida atirou-se de uma janela. No fim de ouvir a história, Filippo tremia interiormente. Na verdade, ele era um ladrão e sabia agora que a “santa” era um tesouro, pois conhecia alguém a quem ela interessaria e muito.

Pacientemente esperou pelo momento oportuno, que não tardou a surgir. Uma noite chegou-se à janela do quarto onde dormia e avistou um vulto branco ao luar. Era a “santa”. Pegou nas suas coisas, roubou as chaves do carro de Matteo que dormia a sono pesado e foi ter com ela ao jardim. A “santa”, sem resistência, entrou dentro do carro que só parou junto a uma propriedade monstruosa e isolada no monte. A porta de entrada estava aberta e apareceram dois cães que os conduziram até outra porta. No seu interior estava um homem, sentado de costas numa poltrona, e uma mala no chão. Filippo manteve-se em silêncio, pegou na mala e abalou dali.

O problema é que, a cada passo que dava, a “santa” não lhe saía do pensamento. Voltou para trás e pôs-se a espiar. O homem levantou-se e veio na direção da “santa” que permanecia estática. Pegou num espelho para que ela se reconhecesse a si própria, mostrou-lhe fotografias do tempo em que - segundo ele -, eram felizes juntos e ela desatou a chorar em afirmação.

Confidenciou-lhe que logo que ela saiu a correr da igreja, abandonando-o no altar, ele foi atrás para saber o porquê. Ao alcançá-la, arrastou-a para dentro do carro onde essa justificação lhe foi dada como sendo um chamamento espiritual. Depois levou-a para um bosque, maltratou-a com fúria até ficar inconsciente e, pensando que a matara, deixou-a ali mesmo e fugiu.

A partir desse dia tornou-se ateu e pior, deu largas à imaginação do seu lado mais negro.
- Se queres salvar a minha alma fica comigo!
- Não… eu sou serva de Maria.
- Então morrerás e depois irei crucificar-te na cruz. - Dizia apontando uma arma.
- Deixe-a a em paz! - Gritou Filippo.
O homem ao vê-lo disparou, acertando-lhe de raspão. Preparava-se para matar a “santa”, mas ao arrancar-lhe o véu translúcido, olhou-a nos olhos e perdeu a visão. Filippo que olhava pelo canto de um olho ficou cego dessa vista. O homem descontrolado e louco atirou para todos os lados e acabou fatalmente atingido. Filippo acorreu junto da “santa” e pediu-lhe perdão, beijando os seus pés. Depois levou-a para o convento, onde entregou a mala com o dinheiro para a caridade, e esperou pela polícia.

Filippo foi condenado a alguns anos de prisão, embora a sentença tenha sido amenizada pela sua conduta. Na prisão tinha um comportamento exemplar e dava aos outros reclusos bons ensinamentos. Quando cumpriu a pena, a primeira coisa que fez foi voltar ao convento para ver a “santa”. Infelizmente foi informado de que esta morrera no dia seguinte ao sucedido. O estigma que carregava nas costas expelira até à última gota o seu sangue. Foi, então, vê-la ao local do seu eterno descanso situado numa das grutas do jardim.

Puseram-na dentro de um caixão de vidro e estava exatamente igual desde a última vez que a vira. Filippo abriu a fechadura do caixão para segurar em suas mãos e assim ficou durante horas, chorando em oração. Porém a sua devoção deu lugar a um sofrimento tão excruciante e a uma dor tão aguda em suas mãos que, ao olhar para elas, viu emergir um buraco que as perfurou de uma ponta à outra. Sentiu isso como um chamamento e tornou-se num servo de Maria e do mundo, até ao dia em que morreu como “santo”.

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