Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O Medo, de novo o medo?

O CODIS fala

Ideias

2015-11-20 às 06h00

Margarida Proença

Um filósofo francês, Jean Louis Vullierme, num livro muito interessante chamado “O Ocidente no divã”, usa o termo “anempatia” para analisar e interpretar o nazismo , em particular o extermínio em massa de milhões de pessoas - judeus, mas também ciganos, doentes, oponentes do regime ou profissões consideradas como “associais”. Anempatia é um “sentimento de distância absoluta em relação ao outro” e nesse sentido é “uma condição sine qua non de um extermínio”. A capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa se estivéssemos na sua situação, a capacidade para compreender sentimentos e emoções, pura e simplesmente não existe.
Os psicopatas não têm empatia; séries como Mentes Criminosas, entre outras, baseadas em casos verídicos de assassinos em série, retratam pessoas com desvios de personalidade graves, muitas vezes estruturados desde a infância, manifestando transtornos de comportamento cada vez mais agressivo, tendência para culpar os outros , egocentrismo, irresponsabilidade, ausência de sentimentos de remorso e de culpa. No entanto, psiquiatras têm vindo a chamar a atenção para esta interpretação que muitos consideram errónea, argumentando que os psicopatas, na sua maioria, não são assassinos, mas manipuladores sociais, que enganam e caluniam mas acham que nunca fazem nada de errado, inteligentes mas que não conhecem sentimentos ou emoções como solidariedade, compaixão ou arrependimento.
No entanto, não é a esta característica individual que Vullierme se refere, mas a uma “realidade elaborada e construída”, suportada por ideologias e religiões, que se foi intensificando e globalizando. O século XX, infelizmente, traz consigo casos e mais casos, desde o genocídio na Arménia no final da 1.ª Guerra Mundial, o Holocausto com mais de 5,5 milhões de mortos, as purgas estalinistas, o Kmer Vermelho no Cambodja, o genocídio de quase um milhão de pessoas no Ruanda há pouco mais de vinte anos, enfim, muitos mais, que exigiram elaboração intelectual e mobilizaram pessoas e instituições para justificar a aniquilação dos “outros”.
A atuação do chamado “Estado Islâmico” enquadra-se aqui . Esquecemo-nos muitas vezes que já controla um território maior que o Reino Unido, onde detêm poder efetivo, aplicam e recebem impostos, regulam preços e administram serviços que incluem tribunais, saúde, educação e telecomunicações. Não se trata de um grupo terrorista, mais ou menos estruturado, que depende de donativos - pelo contrário, controla cerca de 20 campos petrolíferos e três refinarias que lhe asseguram uma receita de 540 milhões de dólares por ano, de acordo com dados da revista Visão, através da colaboração de países vizinhos, mas também dos interesses dos países compradores. E para além disso, têm também gás natural, fosfatos, enxofre, cimento, e produzem trigo, algodão e cevada , para além da extorsão com base nos raptos.
Alguns especialistas, como Haykel, professor em Princeton, têm sublinhado que se trata de um produto de fatores contingentes e históricos, mas o que aparentemente está por detrás do comportamento do Estado Islâmico e deste terrorismo á escala global parece remeter para um tipo de seita da religião muçulmana, chamado Wahhabismo , praticado já desde o séc. XVIII na Arábia Saudita. Para Wahhab, os homens e mulheres deviam concentrar-se no estudo do Corão , respeitar de forma estrita as tradições, voltar de forma clara aos princípios mais antigos da religião, opondo-se a todas as inovações, tudo isso capaz de assegurar mais poder e força. Vestir roupas ou ter qualquer tipo de comportamento ocidental, incluindo votar em eleições, são absolutamente condenáveis. De acordo com esta doutrina, compete-lhes “purificar” o mundo, se necessário matando os “infiéis”. A violência enquanto instrumento de terror e medo, que se tem vindo a globalizar com base numa propaganda bem montada em redes sociais e até no You Tube, que exarceba a ideologia religiosa, que promete e que atrai nas franjas de milhares e milhares de muçulmanos que vivem nas sociedades ocidentais, mantendo culturas distintas e fechadas. Esta violência inspira terror, manipula o medo - e dá a ideia de força a quem a gere, a vontade de infligir sofrimento.
A guerra resolverá o problema? Tenho algumas dúvidas, pelo menos enquanto a propaganda se mantiver. Mas aceitarmos o medo, alterar a nossa cultura e nossos comportamentos, dá-lhes certamente a vitória.

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