Correio do Minho

Braga, sábado

O meu álbum de memórias

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Conta o Leitor

2013-09-06 às 06h00

Escritor

Luna Braga

Hoje, mais uma vez folheei, ao acaso, um álbum que possuo e guardo com a mais doce saudade. Ele é especial, completamente “digitalizado” na minha memória. Que bem me sabe, à distância de uma considerável soma de anos, apreciar, gostosamente, o sabor das páginas desse álbum que é o armazém das minhas longínquas recordações!

Corria o ano de 1970 - que saudades da minha juventude! - e, tanto eu como Márcia, minha amiga e colega de trabalho, tivéramos a sorte de podermos gozar, naquele ano, as nossas férias no mês de Fevereiro, que em Luanda era sempre o mais disputado, à semelhança do que se verificava na Metrópole ( como então se designava Portugal Continental ), relativamente ao mês de Agosto, o mais pretendido. Por esse motivo havia, por vezes, entre nós, pequenos desentendimentos. Mas nesse ano foi a nossa vez de colhermos tal benefício, de acordo com o respectivo plano elaborado em tempo oportuno.

Eu estava realmente ansiosa por essas férias, pois ia fugir à rotina de as passar, como habitualmente, em casa.
O marido de Márcia, o Senhor Santos, tinha uma irmã, Fátima, casada e residindo numa fazenda para os lados de Calulo, a sul de Luanda. Finalmente ia ter férias diferentes, fora da cidade!
Chegado o dia, lá partimos e em breve deixámos a capital para trás. Percorremos zonas de mato ou capim, como lá se dizia, mas também passámos por outras interessantes, que mais se embelezavam, à medida que o dia ia despontando, uma vez que havíamos iniciado a viagem bem cedinho.

Atravessámos curiosas aldeias de casas de adobe, cobertas de colmo, de onde saíam, assomando à porta, numa autêntica algaraviada, curiosas, as gentes que as habitavam.
Tentando acompanhar, correndo, a marcha lenta do carro, alegremente as crianças semi-nuas mostravam os seus alvos dentes, num sorriso de satisfação por verem passar um carro. Também os adultos nos saudavam, e, à medida que nos afastávamos, iam-se esbatendo essas imagens de franca saudação, de braços acenando.

O Senhor Santos ia-nos servindo de cicerone, explicando os sítios por onde passávamos, enquanto a filha, Zézinha, com cerca de quatro anos, dormia junto a mim, no banco de trás do velho Datsun que, às vezes, em Luanda, nos pregava inúmeras partidas, sendo necessário, para o pôr em marcha, dar à manivela!

Não posso deixar de evocar, sorrindo, as constantes vezes em que tínhamos de empurrar aquele carro no meio das movimentadas ruas de Luanda. Como eu morava perto da Márcia, era passageira diária da referida viatura e, assim, bastantes vezes o empurrei também, e cheguei a assistir, com muita admiração, à perícia de Márcia em mudar um pneu, em plena rotunda à hora, precisamente do almoço.

Mas voltando à viagem que nos levaria à tal fazenda de cujo nome, francamente não me recordo, e já relativamente perto do destino, sob um sol escaldante e numa zona de amplo vale, o carro avariou, começando a fumegar e lançando um forte cheiro a queimado, que provinha dos travões, segundo ouvi dizer.

Em volta do descampado e a uma certa distância, erguiam-se montes e o marido da minha amiga, para me assustar, lembrou-se de me dizer: “ Oh Dulce, e se agora aparecessem aqui os terroristas?”. Confesso que já me havia surgido essa ideia que tentei afastar e então senti um profundo receio, ficando, por momentos, apavorada. Na verdade, essa inquietação verificar-se-ia se nos encontrássemos mais a norte; aqui tudo se processava de modo pacífico.

No entanto, só me senti um pouco mais tranquila quando, passado algum tempo, que me pareceu demasiado longo, apareceu lá ao longe, descendo a estrada um camionista que nos prestou, solicitamente, ajuda, ao conduzir-nos à povoação mais próxima, onde havia uma oficina que procedeu à reparação do carro, que foi bastante demorada. Aproveitámos o tempo para comermos alguma coisa e tomarmos umas bebidas fresquinhas, pois o calor era mesmo sufocante.
Estávamos a cerca de 25 Km de Calulo, mas a fazenda ainda distava bastante.

Consertado o carro e retemperadas as nossas forças, eis-nos, de novo, a caminho, tendo chegado ao destino, já de noite. Um empregado veio, com um petromax, iluminar-nos o caminho, que terminava num grande espaço cimentado para onde davam as várias portas da habitação.
Estávamos muitíssimo cansados e só o banho que imediatamente tomámos, nos devolveu a frescura e pudemos então, calmamente, agradecer a afectuosidade com que nos receberam.
Na sala, numa grande mesa onde se estendia uma simples, mas limpa toalha bordada à mão, esperava-nos um apetitoso jantar que saboreámos enquanto íamos conversando sobre as peripécias da viagem.

Nessa noite todos dormimos um repousante sono, mas na manhã seguinte, levaram-me a conhecer toda a propriedade. Apreciei os imenso campos de café. Tudo era lindo, maravilhoso.
Percorri uma longa avenida de terra ladeada de enormes palmeiras, enquanto o chilrear dos pássaros noutras árvores ali perto, nos transmitia uma sensação de leveza e paz.

E quando regressámos deste longo passeio matinal, um substancial pequeno-almoço nos aguardava. Além da doçaria e bom pão, reluziam o queijo, o presunto e a verdadeiramente macia e apetitosa bôla de carne, porque o pessoal que explorava a fazenda era de Trás-os-Montes, precisamente de Montalegre.

Jamais esquecerei o magnífico espectáculo que de manhã se nos oferecia com o lento levantar da neblina, como se esta fosse um delicado manto que suavemente subia e ia mostrando as palhotas e os arvoredos dos morros em redor. Havia um rio de límpidas águas, que deslizava ora mais apressado, ora mais calmo, deixando transparecer as pedras no fundo do seu leito. Era como se o rio entoasse, também, no seu caprichoso correr, uma harmoniosa melodia.

Esta é a maravilhosa beleza de África que magicamente nos surpreende e cativa; é o inigualável encanto de uma terra onde o tempo corre sempre mais lentamente e o pôr-do-sol tem um esplendor único, para que o Homem tenha oportunidade de admirar e meditar nos mistérios da Natureza e do seu CRIADOR.

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