Correio do Minho

Braga, terça-feira

O meu lar...

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Conta o Leitor

2015-08-28 às 06h00

Escritor

Acordei para mais um dia agitado, barulhento e de sol!
Conseguia sentir já a brisa fresca da manhã a bater-me na cara, bem como o buzinar dos carros e os passos apressados das pessoas devido à rotina dos horários e do trabalho. Habituei-me rapidamente àquela correria desenfreada todos os dias da semana, ao impasse dos sábados e à calmaria dos domingos... Era como se tivesse uma janela privilegiada para a rua, que no fundo traduzia o meu pequeno mundo!

Havia dias em que ficava ali, a ver as horas passar e a apreciar cada rosto anónimo que caminhava... Crianças felizes ou a chorar por causa de mais uma birra, casais de namorados apaixonados, pessoas absortas em pensamentos cinzentos, desportistas com t-shirts transpiradas, velhotes em busca de uma distração ou passatempo. Noutros dias, mentia... Fingia estar motivado e partia à descoberta de um novo rumo para a minha vida, sem qualquer vontade de mudar... Ah, como gosto de me enganar! Deambulava sem destino, sem projetos ou uma solução para mim, até que me cansava e voltava de novo ao meu repouso.

Passei a odiar o inverno, porque trazia chuva, ventos ciclónicos e um frio de gelar. Os dias tornavam-se escuros, a noite parecia eterna de tão longa. Tentava adormecer cedo, por volta das dez da noite, vestido com bastantes agasalhos, tapado com cobertores pesados, desejando baixinho que o tempo passasse rápido. Depois existia também a grande festa da família... o Natal! Esta quadra natalícia sempre foi a mais esperada pela maioria das pessoas e a mais odiada por todos aqueles que estão sozinhos, carentes, vazios. As músicas na rua irritavam-me sempre, repetitivas e melancólicas, a fazer-me lembrar momentos do passado! As luzes decorativas apenas serviam para tornar a noite menos escura, nada mais. Multidões amontavam-se nas ruas em busca dos presentes perfeitos, sem sequer se preocuparem em olhar para o lado. Nesta altura do ano, recebia mais visitas de pessoas que não conhecia e que me traziam cobertores lavados, sopa quente e um pouco de pão. Confesso que sempre as esperei ansiosamente, eram uma réstia de esperança para mim, não fosse eu um cobarde...

Por vezes pensava em tomar um bom banho, barbear-me, vestir as minhas melhores calças e a última camisa que tinha nova, e sair em busca de um novo emprego. Depois pensava, quem me iria dar uma segunda oportunidade? Quem iria olhar para mim sem ser com desdém ou desconfiança? Quanto tempo aguentaria eu sem me voltar a “afundar” nos meus vícios? Sempre fui um derrotista, por isso é que era incapaz de levantar a cabeça, arrumar os meus poucos bens pessoais e procurar ajuda. A verdade é que todas as pessoas tinham desistido de mim. Não porque realmente quisessem, mas apenas porque eu as afastei! Nunca quis ser ajudado, nunca quis largar o vício que me consome e arruinou a minha vida, nunca admiti estar doente!
Cansado de estar sempre no mesmo sítio, hoje decidi procurar um novo lar, com todas as características que os vendedores de casas apregoam! Aconchegante, solarengo, quente, espaçoso, silencioso e arejado! Para meu espanto (e deceção), os meus pertences enchiam apenas uma saca de plástico... Caminhei, ou melhor, vaguei até parar perto do portão de entrada para o parque da cidade e pensei... porque não aqui? Encontrei o meu novo lar: a entrada do parque. Espalhei alguns pedaços de cartão no chão, estendi os meus dois cobertores e alojei as minhas roupas perto do muro. Nada mudou... Continuo a ser um sem abrigo e um toxicodependente que recusa tratamento.

No passado fui casado e tive sonhos... Até ao dia em que a minha mulher bateu com a porta e levou com ela o nosso único filho, farta das minhas mentiras constantes por causa do vício da cocaína. Tudo o que ganhava, gastava para consumir. Ela era a única capaz de sustentar a casa, colocar comida na mesa e garantir os estudos do Bruno. Mesmo nos dias em que lhe roubava dinheiro ou vendia as poucas joias que tínhamos, ela conseguia sorrir para o nosso filho e dizer que tudo iria melhorar. Uma verdadeira heroína, nos dias que correm, por ter conseguido ficar comigo quinze anos nestas condições! Contrariamente a mim... que até a aliança vendi.
Hoje, sem sonhos, casamento ou futuro, avisto o meu filho ao longe, um homem feito com 24 anos de idade e licenciado em gestão de empresas. Trabalha numa companhia de seguros e é bem sucedido nessa área. É espantoso ver como se tornou um rapaz bonito e atraente aos olhares do sexo oposto. Sempre que me quer ver, aparece no parque de estacionamento do hospital, onde todos os dias ajudo condutores a estacionar os automóveis, em troca de uma ou duas moedas. Não fosse o efeito da cocaína, nunca teria conseguido suportar o olhar de desilusão e tristeza do Bruno. Ele tem vergonha de mim... E como é que eu não tenho?
Esta é a minha vida! Este é o meu lar, com vista privilegiada para a cidade, com luz natural, sem teto, paredes ou janelas.

Acabei de vos contar uma breve história sobre os últimos anos da minha vida. Não tenho dúvidas de que em breve tudo isto terminará, pelo menos era isso que o meu irmão me dizia... “Um dia destes vais aparecer morto com uma overdose”. Quem sabe assim o meu novo lar passe a ter uma nova vista...

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