Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'O meu ‘Braguinha’ é campeão', por Eduardo Castro

Um convite da Comissão Europeia para quem gosta de línguas

Conta o Leitor

2010-07-06 às 06h00

Escritor

Eram seis da manhã quando me resolvi levantar. Lá fora, apesar de serem ainda as primeiras horas do dia, o calor já apertava. O Verão estava a chegar. Não sentia uma ponta de sono mas o nervoso miudinho já se começava a apoderar de mim.

Aos anos que esperava este dia. O meu ‘Braguinha’ estava a apenas 90 minutos de realizar um sonho já adiado várias vezes, o de ser campeão. O meu ‘Braguinha’ tinha hoje o seu último jogo do campeonato e para ser campeão apenas precisava da vitória. Só faltavam mesmo 90 minutos.

O meu bilhete de sócio já há muito tinha sido comprado. Já há vários dias que o Estádio Municipal estava esgotado e o senhor presidente do clube até tinha mandado montar uma bancada suplementar no topo sul para que mais apoiantes estivessem presentes. Ia ser uma tarde de glória e de vitórias.

Mal cheguei à Avenida Central, deviam ser para aí umas oito e pico, já havia muitos adeptos como eu (sem sono), bem vestidos a rigor e com vuvuzelas vermelhas e brancas para espantar o inimigo. O adversário viajava do Sul e dava pelo nome de Benfica. Já conquistou muitos títulos mas agora tinha chegado a vez do meu ‘Braguinha’, que sigo há anos e anos pelos quatro cantos do Mundo. É a minha paixão e vai ser este ano que vai ser campeão.

Mas mesmo assim o jogo não vai ser nada fácil. O nosso adversário de hoje precisa de empatar para conseguir um lugar nas competições europeias. O seu treinador andou toda a semana a dizer que era uma pena estragar o sonho dos bracarenses mas que a sua equipa vinha ao Minho para ganhar. O seu lugar também estava em risco.

A festa ia-se fazendo pelas ruas da cidade. Num ou noutro cruzamento trocavam-se frases entre claque, os benfiquistas também estavam em peso e prometiam gargantas afinadas. Nem no S. João tinha visto tanta mas tanta gente junta no centro da cidade. Ainda de manhã já voavam por algumas gargantas alguns litritos de cerveja. Mas tudo era pacífico. Os cântico de ‘Braga olé’ ecoavam por toda a avenida e já se juntavam grupos de claques para se porem a caminho do estádio.

Eu resolvi fazer o mesmo. Já estava perto da hora do almoço e não queria perder pitada de energia e de espectáculo. Pelo caminho, lá pelos lados do Bairro da Misericórdia parei na tasquinha certa para deitar a baixo duas minis e duas bifana acabadas de fazer. O caminho seguinte era descer até às portas do estádio.

Por razões de segurança resolveram abri-las mais cedo. O povo era sereno e calmamente entrou no ‘Estádio das Paixões’. Ah... e que paixão ia ser aquele dia.

Umas horitas depois já o barulho dentro do estádio era infernal. Os benfiquistas nem se ouviam, apesar de estarem em grande número. Mas o ‘Olé Braga, Olé’ reinava. Toda a gente cantava e batia palmas. Os nossos ‘guerreiros’ entraram para o aquecimento e foi o fim do Mundo... Os nervos miudinhos de manhã passaram a nervos intensos e as unhas já não tinham escapatória. O adversário entrou e levou uma monumental vaia. Os cânticos continuaram. O Eduardo acenava. O Mayong dançava ao ritmo das palmas e pouco depois todos recolheram aos balneários.
Estava quase a começar o sonho...

O árbitro apitou. O benfica foi para o ataque. Nós estávamos aflitos. Quinze minutos e... desgraça; Cardoso recebeu um centro de Di Maria e marcou. Ficamos todos brancos, incrédulos. Já se ouviam choros.

Mas reagimos bem. Passamos a dominar e remetemos o Benfica para a sua grande área. Aí... tantas mãos à cabeça, tantas oportunidades perdidas. O intervalo chegou e o maldito do resultado não se alterava.

Para a segunda parte o Domingos mostrou-se um verdadeiro ‘guerreiro’ e mandou aquecer mais avançados, abdicou da defesa e fomos ‘todos’ em ‘guerra’ aberta para conquistar o adversário. Cinquenta e cinco minutos, tudo igual; 65, continuávamos a perder; 75 minutos e já havia muita gente a chorar. Mas... outros, a gritar bem alto. As gargantas soltavam-se no estádio. E... ao minuto 80, Paulo César recebeu um passe de Hugo Viana, passa por Luisão e à saída de Quim faz-lhe um chapéu. O Estádio caiu... O delírio foi enorme.

Rapidamente levaram a bola para o meio-campo. Ainda havia 10 minutos para concretizar o sonho. Era o tudo ou nada.
O treinador adversário faz perder tempo com substituições. Manda recuar a defesa. O Domingos manda subir os dois centrais e recuar os mais baixinhos. Faltavam cinco minutos. O meu ‘Braguinha’ não conseguia marcar. Os descontos chegaram. Os nervos já voavam por todo o estádio. Todos os adeptos pediam... “só mais um, só mais um... vamos para a frente, vocês conseguem”.

E os ‘guerreiros’ foram buscar todas as energias ao 13 jogador. Voaram sobre a defesa contrária e com eles levaram a bola que acabou numa extraordinária cabeçada de Renteria e... no fundo da baliza de Quim.

Já não houve mais jogo. Todos juntos invadimos o campo. Pela primeira vez o meu ‘Braguinha’ tido sido campeão.
A festa foi de loucos. Foi indescritível. Foi simplesmente a concretização de um sonho de muitos e muitos anos.
E depois da loucura do estádio, a festa seguiu para o centro da cidade. Toda a equipa num autocarro descapotável com as letras bem grandes de ‘Somos Campeões’.

Os adeptos sempre a acompanhá-los. Os adversários acabaram por dar os parabéns e juntaram-se à festa. Despiram a sua camisola e vestiram a de habitantes da cidade.
E todos juntos fomos fazendo a festa, sem ‘guerras’ e sem confusões...
O S. João, este ano tinha sido o do Sporting de Braga campeão...

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