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O meu mundo e o de Sofia

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O meu mundo e o de Sofia

Escreve quem sabe

2021-09-13 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva Álvaro Moreira da Silva

O filósofo expõe a Sofia. O simbolismo do coelhinho retirado da cartola do ilusionista contextualiza o início da misteriosa narrativa. Numa das cartas que o filósofo lhe escreve, figura-lhe a analogia entre o coelho e o universo. Imagina os pêlos brancos do coelho, diz-lhe baixinho! Estão sentados sobre a pele do coelho aqueles indivíduos habituados à ignorância. Sim, aqueles que juntos acreditam em falsas realidades e promessas, não procuram jamais sair da sua caixinha para aprofundar o seu conhecimento nem tão pouco pretendem escutar a opinião dos outros. Estes, com a força do hábito, também já não questionam, apenas acreditam nas mesmas ideias estereotipadas, alimentadas por algumas infelizes pessoas. Por outro lado, aqueles mais audazes, que pretendam atingir o pleno saber e enfrentar os olhos do mágico, deve-rão trepar os finos pêlos do animal.

No “Mundo de Sofia”, recordam-se filósofos. Sempre que uma nova e misteriosa carta chega à casa da jovem, desbravam-se os diversos pensamentos ao longo da nossa história. Sobre Platão, por exemplo, remete-nos o autor para a alegoria. Do diálogo metafórico entre Sócrates e Glauco, enaltece a conceção dual do mundo, das ideias universais canónicas até à sua instanciação em diversos objetos. Os objetos são aquilo que os nossos sentidos alcançam. Para os prisioneiros acorrentados na escuridão da caverna, a sua realidade são as tristes sombras que deambulam refletidas na parede. As correntes não só os prendem à eterna ignorância, como também simbolizam a incapacidade de expressar uma opinião e até falta de sentido crítico. Conta a narrativa que, quando um dos prisioneiros se desprende das correntes, inicia um percurso até à entrada da caverna. Nesse momento, faz-se luz, o indivíduo vislumbra uma nova e fascinante realidade, bem mais magnificente e poderosa do que as simples sombras refletidas nas paredes. Perante o dilema de regressar ao interior da caverna para salvar os seus ex-companheiros, prisioneiros do seu total desalinhamento com a realidade, o autor remete Sofia para a «sorte» de Sócrates. Porque Sócrates ousou ser audaz e sair da caverna, foi condenado à morte. Perante este dilema, deveria o prisioneiro regressar e salvar os seus companheiros ou simplesmente deixá-los colados à pele do coelho numa interminável insipiência?

No retalho, nomeadamente na área na qual me tenho focado na minha carreira profissional, ser arquiteto de sistemas é ter a capacidade de me colocar no papel do filósofo. É ter a capacidade de agir corretamente, e, tal como o prisioneiro, aprender a desenvencilhar-me de dilemas éticos. É acumular energia e coragem suficientes para trepar o pêlo do coelho até ao topo, de forma a atingir uma plena visão do problema. É revigorar o corpo e a alma para rebentar com as correntes e procurar sair da caverna, para assim conhecer os verdadeiros princípios por detrás das sombras. É ter visão, sentido crítico e manifestar humildemente uma opinião. É regressar à caverna e alertar os meus companheiros para os reais problemas que poderão advir, antes que os mesmos criem o caos. É, finalmente, vestir-me a rigor, imaginando uma velha camisa de Wittgenstein e umas calças de Platão, para em consonância nos abstrairmos dos malignos estereótipos profundamente enraizados. Se, no final, me derem de beber o cálice de cicuta, ou quem sabe até o beijo de Judas, encontrarei na consciência a tranquilidade plena. Tal como Sócrates, enfrentarei a morte, com um enorme sorriso.

O mito da caverna, tal como foi explicado a Sofia, chamou-me novamente a atenção por se manter ainda atual. Tal como o prisioneiro almeja conscientemente obter a verdadeira sabedoria e tomar a melhor decisão perante o seu dilema ético, é extremamente importante desprendermo-nos das falsas ideias, preconceitos e medos, para também o conseguir fazer na vida. É tempo de nos unirmos, treparmos até ao topo e enfrentar os olhos do ilusionista. Fazê-lo é vislumbrar o verdadeiro truque de magia por detrás do coelho a sair da cartola. Também na nossa profissão, é ter a necessária ambição para exigir sempre mais e melhor de nós próprios.

*com JMS

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