Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O meu poeta gigante

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Conta o Leitor

2012-08-09 às 06h00

Escritor

Por Carlos Alberto Rodrigues
No velhinho despertador da famosa “Reguladora” a hora não enganava: quatro horas da manhã e nem por ter sido um dia agitado com correrias mil este corpo franzino de 9 anos não se rendia ao cansaço. Nem tão pouco a frescura que entrava no quarto naquele agosto ajudava a alterar o estado das coisas
A causa de tamanha inquietude estava relacionada com a jornada do dia seguinte: Ia ser um dia em grande!
Graças a meu avô ia conhecer uma ilustre figura que amiúde visitava a aldeia desde que passara a viver em Braga. Tratava-se de um amigo de escola e companheiro de carteira de meu avô que se fizera escritor famoso enquanto meu avô optou pela enfermagem no hospital da vila.
Andou por terras de África a tirar ensinamentos, viu um povo diferente, raças diferentes, á procura das cores, aromas e perfumes que imanam daquelas terras como em nenhum outro local do mundo e que o ajudaram a juntar palavras e mais palavras para as espalhar aos ventos nas páginas dos seus livros - dizia que o mais bonito pôr-do-sol encontrava-se lá - Regressou alguns anos depois a Braga onde se instalou como professor e escritor nas horas vagas. Mas apesar de naqueles tempos as estradas não serem o que são hoje em pouco mais de uma hora fazia a viagem de Braga até à sua aldeia sempre na mesma camioneta que começava a cair de velha. Quando se encontravam os dois matavam saudades com grandes caminhadas e acabavam na taberna do Ti Joaquim com conhaque ou aguardente a acompanhar e presuntos e enchidos para forrar os estômagos.
Contava dele que foi sempre homem de poucas falas, nada amável, por vezes de ar fechado e carrancudo como se todo o mundo lhe devesse e não pagasse, mas acessível para quem precisava de ajuda nos livros. Porém os anos, sobretudo os de África, moldaram-lhe as atitudes e lhe toldaram o pensamento mais sincero, estava mais sensível e com outro sentido de verticalidade raro de encontrar.
O contacto com os seus leitores e o ajustar de coisas que estavam menos bem, fizeram dele um admirável homem, nada rude e com sapiência. Sempre que vinha á sua aldeia perguntava por meu avô:
- Então e o António do Rita continua com as suas injecções que só sabem calejar os rabos? E sorria.
O nosso primeiro encontro acontecera na escola quando a professora me mandou ler um trecho que era de um texto de sua autoria e que me deslumbrou pela caracterização dada á natureza que narrava com pinceladas de verde Minho as cirandas de várias cores das flores e todo o seu colorido; a menção às várzeas e fragas com os seus fartos ribeiros, os caminhos e as trilhas marcadas pelos rodados dos carros de bois que subiam e desciam dos montes circundantes que abraçavam todo o casario... O texto estava a seguir a um outro do qual lembro apenas o título “De balde debalde”.
Pela paixão pela dança das palavras pedi a meu avô que me fizesse conhecer aquela figura.
Meu avô acendeu um dos seus cigarros de enrolar e sorriu ao meu pedido.
Andava eu nestes pensamentos para ver se ajudava na insónia. Por isso no meu quaro se passavam pensamentos mil, excitação e cansaço claro.
Depois de ouvir mais um ressonar de meu avô que dormia tranquilamente no quarto ao lado do meu e de mais uma volta na cama deixo-me finalmente adormecer nos braços de Morfeu.
Na manhã seguinte, com poucas horas de sono mas mesmo assim ansioso, peguei num pão fresco e numa maçã às pressas e saí sem dar cavaco a minha avó que andava às voltas do pequeno - almoço para os que ainda tinham a sorte (!) de estar a dormir. Afinal todos sabiam que naquele dia ia estar fora até à noite. Desci a ladeira que me leva até um enorme casario todo trabalhado a granito e com utensílios agrícolas a fazerem de figurinos nos jardins frondosos cheios de roseiras e de orquídeas. Mal passei o pequeno portão que dava para um pátio vi um vulto a surgir… do nada. Estava perante “ele”. Era realmente gigante. De boina de bombazine enterrada na cabeça de farto cabelo grisalho, camisa branca de linho e porque estava calor, uns calções de ganga rasgados até aos joelhos e na boca, estrategicamente colocado no canto, um cachimbo de onde saía um aroma adocicado.
- Bom dia! Deves ser o neto do meu grande amigo Rita, não é assim? Que sejas bem-vindo.
_ Bom dia! - Disse meio receoso e ainda não restabelecido do pequeno susto que foi aquela figura enorme aparecer de repente em frente a mim.
- Ora bem, segundo consta, queres tirar alguns apontamentos sobre a minha pessoa para um trabalho na escola. É verdade?
Em parte sim, era verdade, pois se um dia a professora mandasse fazer algum trabalho sobre alguma coisa de importante que nos tivesse acontecido eu já tinha material para isso…
_ Mas entra, entra que apesar de ainda mal ter saído, o sol hoje vai fustigar os corpos daqueles desgraçados que vão ter que ir trabalhar no monte ou no campo, mas nós os dois vamos aproveitar e antes de ficarmos aqui sentados á sombra, sim senhor, mas num cenário que já conhecemos, vou propor que confies em mim e vou-te levar a um sítio que sei ainda não conheces. Que idade tens? Nove? Pois bem.
Que dizes a passarmos um bom bocado á beira-mar, sentir aquele ar fresco e o cheiro a maresia? Por acaso sabes o que é sentir algo assim? Não? Pois então seja feita a minha vontade. De acordo?
É evidente que acenei com a cabeça afirmativamente.
Pediu á empregada o cesto que trazia mantimentos e bebidas para toda a jornada - pelos vistos ele já tinha tudo preparado e devia ter também prazer em conhecer-me e quiçá também ele aproveitar e fazer deste encontro um conto seu…
Arrancamos a toda a velocidade num pequeno carro de dois lugares e apesar de quase duas horas aproveitei todo o trajecto até ao litoral para olhar, olhar e voltar a olhar. Tudo era diferente.
Chegados á Póvoa de Varzim, na altura já com alguma pujança de prédios e bons caminhos, paramos e começamos a andar sempre paralelo á praia. Até que me afastei, entrei no areal: primeiro, comecei a sentir as cócegas da areia em meus pés depois a sua humidade e finalmente o “mergulhar” nas primeiras ondas que senti na minha vida. Que refresco para o corpo que estava transpirado. Como tudo á sua maneira, sendo diferente do campo tinha também tanta beleza. Foram horas a fio de conversa enquanto ouvia, os meus olhos brilhavam e os meus lábios mostravam um sorriso que não cabia no mundo.
-É melhor regressar porque podemos ter algum contratempo e não quero que teu avô e pais fiquem em cuidado. Assim foi. Pelo caminho parecia sentir ainda o ar de maresia, os barcos a descarregarem o peixe a azáfama das peixeiras, as veraneantes e a sua beleza. Ele percebendo o meu estado, nem uma palavra me dirigiu.
Senti que ambos ganhamos com aquele dia. Eu um amigo ele alguém que lhe deu a oportunidade de ao olhar para mim retornar um pouco ao tempo em que também ainda não tinha visto o mar e tinha curiosidade.
Na despedida, estendeu-me a mão. Nela um monte de papéis. Pega. Fica com eles. São rascunhos da minha próxima história, mas como neste mundo nunca sabemos o dia de amanhã, se me acontecer alguma coisa pode ser que termines tu o resto, um dia. Franzi o sobrolho e pouco contra minha vontade recebi aqueles papéis. Sempre desejei que não fosse preciso ser eu a acabar aquela história.
Mas se tivesse de ser, um dia, pelo meu bom gigante fazia-o com muito gosto.

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