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O mundo é feito de mudança

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O mundo é feito de mudança

Ideias

2019-05-31 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Já muito se escreveu sobre os resultados eleitorais, e sobre a tendência claramente crescente das abstenções. Interpretações para todos os gostos, mais ou menos chocadas ou justificativas; ainda assim, talvez faça sentido refletir um pouco mais.
A abstenção crescente, mesmo sendo minimizada eventualmente pela necessidade de limpar os cadernos eleitorais dos que morreram ou emigraram a longo prazo, transmite a ideia de um progressivo afastamento de uma perceção democrática, do envolvimento real na coisa pública, substituída pelo imediatismo das redes sociais. O que começa a parecer cada vez mais significativo é o afastamento de sistemas de votação traduzidos num conjunto de regras deliberado e adotado pela sociedade para permitir a tomada de decisões e a definição e implementação de políticas públicas, em sistemas de democracia representativa. Transição porventura para outras formas, novas, de votação em candidatos mais próximos, mais conhecidos, exercendo a sua liderança e reputação em redes sociais, influenciadores da maneira de pensar, vestir, desde a política ao lazer, substituindo as campanhas tradicionais, os debates televisivos pelo imediatismo com que se carrega num “like”. Transição porventura para variadas formas de webs of trust, onde a influência política seja proporcional à reputação adquirida em função do número de seguidores. Enfim, trata-se de outras formas de democracia, mais no sentido em que os eleitores não escolhem representantes, antes de organizam para votar diretamente em assuntos específicos, ou para certos casos delegam os seus votos a esta ou àquela pessoa.
Parece interessante, mas na verdade os estudos empíricos que têm sido feitos deste tipo de democracia, indiciam a possibilidade de justificar, ou permitir, comportamentos autoritários. Em qualquer caso, seria absolutamente necessário desenvolver mecanismos informáticos que impedissem o aparecimento de piratas, o alastramento de notícias falsas e a sua manipulação. A tecnologia, cada vez mais pervasiva e influente, seguramente nos virá a colocar frente a novos desafios – esperemos que venha a encontrar as soluções.
Que as sociedades mudam é obvio, e fica patente nos resultados eleitorais. As teses, os argumentos nas margens do discurso político tradicional vão perdendo terreno, em favor das discussões sobre o papel das minorias, do meio ambiente, dos direitos dos animais, por aí fora. A geração dos jovens de 20 anos que no meu tempo da universidade – há tantos, tantos anos! - se organizavam politicamente contra a ida para a guerra, ou a favor da liberdade de expressão, lia jornais e discutia horas a fio formas de intervenção, já não existe. E ainda bem, porque as preocupações atuais, hoje, são na verdade diferentes.
As formas capitalistas tradicionais de organização do trabalho alteraram-se; remetiam fundamentalmente para a dominância da indústria, mas atualmente os serviços dominam globalmente o output, o emprego e o valor acrescentado. Um dos sinais é exatamente a alteração que tem vindo a ocorrer o movimento sindical, cada vez mais divergente. O trabalho de partidos tradicionais como o Partido Comunista é certamente muito dificultado por esta alteração radical; a integração na chamada “geringonça” não o afeta negativamente, pelo contrário, abre-o a uma nova perceção – mas terá de se adaptar, de alterar o seu discurso, de manifestar uma nova capacidade de integrar temas marginais, disruptivos, num discurso teórico cuidado e sólido, mas envelhecido. Enquanto outros partidos que foram crescendo sem uma base consistente do ponto de vista teórico, têm paradoxalmente o problema oposto – as inconsistências do discurso político são hoje mais facilmente identificadas e penalizadas.
Mudança para quê, e para onde, acho que ninguém sabe antever de forma clara. Nem quantas dores virá a envolver. Mas é certa.

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