Correio do Minho

Braga, terça-feira

O mundo ‘cor de rosa’ mata

Dar banho às virgens

Ideias

2011-01-16 às 06h00

Carlos Pires

As notícias sobre a morte trágica do cronista social Carlos Castro, num quarto de hotel, em Nova Iorque, foram as mais lidas e procuradas da semana. Tratou-se de um crime de violência extrema, cujos detalhes chocaram quem, diariamente, acompanhou os media. Escuso-me, pois, a, neste espaço de reflexão, reproduzir alguns dos aspectos fácticos associados à dinâmica do crime. Prefiro partilhar convosco algumas das ideias que, quanto a mim, resultam como verdadeiro ensinamento desta “história”; uma história em que, parece-me, não há “inocentes” e em que é difícil identificarmos quem é a (maior) “vitima”.

Carlos Castro tinha 65 anos de idade e dedicava-se a escrever sobre aqueles que aparecem nas festas, incluindo os que estão ligados ao meio artístico telenovelístico e à moda. Gostava de dissertar sobre o escândalo. Ironicamente, viu a sua vida terminar de forma dramática, sob as tais “luzes da ribalta” que tanto o seduziram em vida. Foi caracterizado pelos amigos como obsessivo nas relações, ciumento, mas sempre um “bom coração”. 'Estava absolutamente apaixonado', disseram. Era generoso com Renato. Comprava-lhe roupa e oferecia-lhe viagens. Mais importante ainda, prometeu-lhe uma carreira no mundo da moda.

O respeito que nos merece a (dramática) morte de Carlos Castro não me impede, contudo, de afirmar que uma pessoa genuinamente boa e altruísta não faz depender a ajuda a terceiros de determinados favores de natureza afectiva e/ou sexual; muito menos quando esses terceiros têm idade para serem seus netos. A assimetria etária e geracional entre os protagonistas constituía um claro sinal de alerta, para todos, e sobretudo para quem, fruto da idade, deveria ter o conhecimento e maturidade devidos.

A área profissional em que Carlos Castro vingou profissionalmente - “cronismo social cor de rosa” - sempre me pareceu de menor interesse, porque, entendo, nenhum ensinamento relevante retiramos da sua leitura; um mero e doentio voyeurismo, que apenas serve um público que se extasia e anseia por um mundo de “aparências” e de “plástico”, que nenhuma correspondência tem com o que as pessoas retratadas verdadeiramente são e valem. E, caro(a) leitor(a), se algumas dúvidas houvesse relativamente a esse respeito, elas caíram ora por terra, “à força de murros, pontapés e pancadas na cabeça”.

Renato Seabra tem 21 anos de idade e ficou “famoso” depois de ter participado no programa da SIC e casting para futuros modelos “À procura de um sonho”. Em Cantanhede, onde residia, passou a ser considerado o “menino de oiro” da terra. A fama e o imaginário do universo da moda irromperam na vida deste rapaz. A família tinha conhecimento da potencial ajuda que Carlos Castro poderia dar à carreira de Renato e, por isso, “achou normal” a relação próxima que ambos encetaram - a primeira relação gay conhecida do jovem - e que viria a terminar de forma trágica num quarto de hotel em Nova Iorque. Um crime que sugere uma clara motivação sexual e afectiva, com grande libertação de raiva e uma patologia mental severa.
O psiquiatra Afonso Albuquerque, antigo director do Serviço de Psicoterapia Comportamental do Hospital Júlio de Matos, referiu esperar que a morte do cronista Carlos Castro sirva para alguns jovens, “dispostos a tudo para subirem nos meios de grande visibilidade social”, perceberem que “esta sub-cultura tem alçapões”.

Concordo! E, acrescento, que esse ensinamento sirva directamente aos jovens, mas também às famílias, de igual forma deslumbradas com o “mundo cor de rosa” das revistas, fruto de uma sociedade que crescentemente tem vindo a valorizar em demasia a beleza e o aspecto físico. O “ser famoso” corresponde, muitas das vezes, a situações de grande exploração psicológica e emocional dos jovens. Portugal já assistiu a casos de estrelas efémeras - feitas em programas televisivos, como o famoso Big Brother, transmitido pela TVI. Um desses participantes já se tentou suicidar e faliu psicologicamente.

É longo o caminho para um lugar ao sol e exige grande persistência, trabalho e vontade.
Infelizmente, ao invés, é a cultura do facilitismo que vinga na sociedade. Enquanto assim for, muitos outros Renatos verão as suas vidas destruídas por perseguirem um sonho da pior forma.

P.S. Morreu Vítor Alves, Capitão de Abril, 36 horas depois da morte de Carlos Castro. Não parece normal que a morte do cronista tenha merecido tão esmagadoramente maior espaço mediático do que o desaparecimento de um dos principais símbolos da Revolução do 25 de Abril de 1974 e destacado operacional da construção do processo democrático. É sintomático da escala de valores a que aderiu a maioria dos membros da sociedade portuguesa. Infelizmente.

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