Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O Navegante Solitário, de Emile Béthani

Um ano em que a Europa respirou cultura

Conta o Leitor

2010-08-23 às 06h00

Escritor

Numa madrugada fria, envolta numa escuridão aflitiva ele lá estava, envergando o seu uniforme branco e aprumado por onde se podiam vislumbrar uns cabelos loiros revoltos e uns magníficos olhos azuis.
Poucas vezes lhe ouvi a voz ou senti vislumbrar um sorriso pois era bastante tímido apesar da sua imensa beleza.
 
Avançava cortando o espaço num impressionante gesto de comando, afectuoso e cordial para com os seus subordinados. O espaço era recôndito, escondido por entre vales e montes lá no Norte do País, os que lá trabalhavam queixavam-se da dureza do trabalho que consistia em carregar cargas muito pesadas, eram gente do campo, novos e velhos, lá andavam, neste Portugal triste e desencontrado onde quem verdadeiramente trabalha se levanta muito antes da alvorada e assoma a casa já a tarde vai alta, com o corpo dolorido e sonhos desfeitos por a certeza duma vida de trabalho sem frutos.
Eram sobretudo mulheres a quem ele no alto da sua gentileza comandava; seriam uns doze homens para uma centena de mulheres. Na verdade eram mulheres firmes e de garra quem ali labutava dia após dia, sempre preocupadas com os afazeres domésticos  mas sabendo que no fim de um árduo dia de trabalho tinham de pôr comida na mesa.
A cantadeira silenciosa e as brasileirinhas bonitas e sensuais lá andavam também a trabalhar ansiosas por no fim de um dia de trabalho poderem rever o marido e os filhos pequeninos.
Era um lugar frio e agreste de muito trabalho mas que acabava de certa forma por ser um lar onde se trocavam confidências e se desfiavam sonhos.
Todas a conheciam pelo nome d´Africana, de sorriso alegre e fácil, com uma boa disposição contagiante. A sua «missão» era ajudar as irmãs de trabalho a levarem por diante mais um dia de extenuante trabalho, era uma verdadeira inspiração para todos e uma autêntica «máquina de trabalho», tal a disposição com que se dedicava aos seus afazeres.
Madrugada fora lá ia ela, entretendo as colegas de desdita e infortúnio, tão árduo era o trabalho. Sempre cantando alegremente por fora para esconder a tristeza de uma vida feita de incertezas.
Nas paredes laterais do imóvel inúmeras mulheres, nos seus casacos de lã cor-de-rosa, trabalhavam apressadamente entre um e outro dedo de conversa, eram pessoas amáveis e acostumadas àquela vida.
Ele passava consultando os relatórios que lhe eram entregues pelos seus assessores enquanto olhava distraidamente para aquela multidão de mulheres que se apressavam nos seus afazeres para não ouvirem uma reprimenda do seu superior hierárquico.
Era notório o desconforto com que se apresentava todas as manhãs ao trabalho, certamente desejaria estar noutro lugar menos desconfortável, olhava para nós com certo desdém e tristeza, por nossa vez, jamais víramos homem tão belo, todas o admirávamos quando caminhava com seu alvo uniforme.
Do alto do seu solitário posto de comando dir-se-ia tratar-se de um belo príncipe com sua alta estatura .

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.