Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

O negacionismo dos nossos dias

Idoso

O negacionismo dos nossos dias

Ideias

2020-09-13 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

O negacionismo pode ser entendido como a negação da realidade como forma de escapar a uma verdade desconfortável. Como também pode ser, sobretudo no campo científico, a rejeição de conceitos básicos, incontestáveis e apoiados por consenso científico em favor de ideias tanto radicais quanto controversas. No fundo, tenta-se negar o que a grande maioria das pessoas ou o consenso geral tem como certo ou adquirido, usando teorias mirabolantes.
Os negacionistas são aquele sujeito que vai em contramão na autoestrada, sempre a dar gás e que vocifera que os outros condutores estão todos equivocados, a circular em sentido contrário ao seu, que é o correcto.
Os negacionistas contestam que tenha existido uma estratégia bem definida de aniquilamento massivo dos judeus na Alemanha nazi, o mais que provado e comprovado Holocausto, que levou ao assassinato de mais de 5 milhões de judeus nas câmaras de gás de diversos campos de concentração naquele país e na actual Polónia, durante a Segunda Guerra Mundial.
Os negacionistas aparatosos refutam que o homem algum dia tenha chegado a pisar o solo lunar, atribuindo as imagens televisivas a montagens e artimanhas da propaganda americana. Como negam que as alterações climáticas é que estão a dar cabo do nosso habitat, com o fenómeno do aquecimento global, alterando as estações do ano, provocando inundações onde havia seca tradicionalmente e abrindo desertos em territórios outrora férteis devido à pluviosidade. Como outros negam a esfericidade da Terra, uma evidência científica de centenas de anos.
Os negacionistas do momento, são os que investem argumentos ridículos contra o que a ciência e as autoridades de saúde de Portugal (DGS) e do mundo (OMS) estabelecem como o mais adequado para lidar com a peste do século XXI. Alguns até se dizem médicos ou pessoal de saúde, desconhecendo-se se tal corresponde à verdade, pois nas redes sociais toda a mentira acaba por ser legitimada.
Estamos em presença de uma deriva absolutamente espúria e insensata, do mais supino absurdo.
Apoiados em boas técnicas de marketing, em mensagens simples, incisivas e aliciantes, como convém para vender um peixe que tresanda, põem a circular nas redes sociais – o areópago da informação, credível ou nem tanto, destes dias – propostas que vão ao arrepio do que as entidades de saúde indicam como as mais adequadas. O uso de máscara, o afastamento físico, a etiqueta respiratória, a lavagem frequente das mãos, a desinfecção dos objectos e das superfícies.
Pois os negacionistas questionam a eficácia e a pertinência do uso da máscara, usando para tal o exemplo pouco edificante da Suécia, em que o número de mortos foi imensamente superior ao de Portugal.
Põem em causa o protocolo normalmente aceite pela ciência e a medicina e muitos são contra a vacinação, como sistema preventivo à ocorrência e disseminação da doença.
Outros chegam ao desplante de considerar que a pandemia é uma invenção de organizações e países que visam fazer negócio com a pretensa enfermidade.
Que há o mais descabelado negócio em torno da pandemia, não resta a mínima dúvida, desde as máscaras aos ventiladores, passando por todos os outros materiais e equipamentos de protecção individual. Agora o que não é lícito que alguém negue é a existência de uma epidemia altamente contagiosa que começou na China em finais de 2019 e avançou para todo o mundo no começo deste ano, obrigando ao confinamento de imensos milhões de cidadãos pelo planeta fora.
O que ninguém consegue negar é que, pelos continentes além, já foram infectados, no mínimo, 28 milhões de cidadãos, tendo falecido mais de 900 mil pessoas.
Criticam outros o quase exclusivo foco dos governos e dos profissionais de saúde no combate à Covid-19, desleixando outras doenças. O que tem o seu cabimento, embora tenhamos todos consciência da especificidade desta pandemia, dado o seu carácter contagioso, que facilmente alastra em territórios e países, transmitido sempre pelo homem.
Certamente não é porque sim, que as autoridades de saúde investem prioritariamente os seus recursos no combate à nova pandemia, que tem características muito particulares e que impõe, por isso mesmo, um tipo de actuação muito singular e ajustada à epidemia.
Ninguém duvida que a vida é muito maior que a Covid, mas a Covid é o combate do momento, como seria outra peste qualquer, como foi a gripe pneumónica há um século, muitíssimo mais devastadora (mais de 50 milhões de mortos em todo o mundo e cerca de 40 mil em Portugal).
Cada coisa é uma coisa distinta e não é assisado menorizar o perigo e o risco de uma doença que é letal, embora felizmente em grau reduzido e deixa marcas nos pacientes que têm a desdita de ir parar aos hospitais e em especial aos cuidados intensivos.
Gostaria de ver a reacção dos negacionistas acometidos gravemente pela Covid, à hipotética saída dos cuidados intensivos, necessitados de reaprender a andar, a comer ou a falar. Gostaria de saber se continuariam com o mesmo discurso bombástico e contra a corrente.
Além do vírus que veio da China (sem qualquer piada trumpista), há outros vírus que circulam e se espalham por aí, com visibilidade até demasiada – o da ignorância, o da imbecilidade, o da estupidez, o da demagogia, o do populismo.
E outros porventura se poderiam acrescentar, se o espaço desse para mais.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

28 Setembro 2020

Bolsa e empregabilidade

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho