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“O novo ciclo temporal …”

Bernardo Reis: um nome para a história de Braga

“O novo ciclo temporal …”

Escreve quem sabe

2022-12-26 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

O ciclo repete-se inexoravemente e, mais uma vez, aproximamo-nos do dobrar de mais um ano civil, experimentando nova recontagem do tempo, entre promessas de mudança de vida, sempre por mais e melhor, sempre por artes mágicas ou expectativas favorecidas, entre a alimentação de uma esperança que não seja vã e um realismo que supere a gravidade das dificuldades.
Com esta dobragem dos dias, o tempo assume um novo protagonismo, acentuando o seu carácter dicotómico e maniqueísta do antes e do depois, do passado e do futuro. Sempre de forma dura e grave, ausente de sentimento ou emoção, os quais resultam da apropriação que todos nós fazemos do tempo e da nossa capacidade em transformar um passado que não coarcte um futuro melhor, em construir um futuro alicerçado na honra de um passado bem vivido.

O tempo de Natal e do raiar de “novo ano” é, assim, naturalmente, um tempo de confronto e de esperança, um tempo em que, poucas raras vezes, não repetimos “que deviamos ter mais tempo, tempo para parar e reflectir, para planear e viver mais aprofundadamente”, em que reforçamos a expectativa de que “agora é que vai ser”.
Olhando retrospectivamente para os dias passados, descobre-se ou confirma-se contradições e dificuldades tamanhas, sinais de esperança e conquista que produzirão balanços tão diferenciados quantos cada um de nós. Todavia, não deixa de ser uma constatação generalizada que este tempo último foi um tempo turbulento e imprevisível. Depois de um tempo imprevisivelmente “parado e confinado”, em que estar em silêncio e sem movimento, em casa e acantonado, parecia receita comum a todos nós, passamos para um tempo em que a guerra de uns contra outros faz-nos sentir a guerra, em guerra e ser parte da guerra. E faz-nos sentir o quanto somos frágeis, abertos e tão sujeito a tanto e a tanto…

No balanço deste tempo, é comum procurar uma palavra síntese ou palavra dominante, palavra raínha do nosso pulsar e capacidade transformadora (para o bem e para o mal) registada nos 365 dias passados.
Este ano balançamos entre as incontornáveis guerra e inflação, clima e alterações, catástrofes, acrescentando poucas palavras de sentido e carácter positivos.
Às palavras acrescentamos figuras e personagens públicas que admiramos ou criticamos em função da coragem revelada, atitude demonstrada, trabalho desenvolvido, ficando para cada um de nós aquelas palavras, actos e figuras mais circunscritas à nossa vida intrínseca, sejam conquistas pessoais, momentos sociais, pessoas partilhadas, perdidas e ganhas.

Entre uns e outros, ficará seguramente uma ideia de vida, seja individual ou comunitária, desejando-se que seja motivo e oportunidade para fazer, dos próximos 365 dias, dias melhores, simplesmente melhores.
Na verdade, é convicção de que precisamos de paz. E de pacificação: Paz para nos suportar enquanto comunidade e garantir os princípios de justiça e equidade tão necessários. Pacificação para cada um serenar e acalmar, ganhando assim qualidade para melhor viver e decidir.
Ao nível da Cidade, também precisamos de paz e pacificação: Paz entre aqueles que vivem as cidades e o seu espaço urbano e aqueles que gerem e decidem sobre essas cidades e esse espaço público. Paz que permita eliminar o “ruído”, a falsa polémica, a opaca transparência e, em oposição, permita brilhar a real e eficaz comunicação, possibilitando entendimento e concertação, construção e conquista partilhada. Pacificação entre os agentes urbanos, favorecendo a troca de explicações e informação, partilha de conhecimento e experiências para servir o bem comum…

O balanço urbano português é baçamente triste e parco em conquistas. Muito se falou de habitação e mobilidade, acessibilidade e coesão; muito se projectou e regulamentou ao nível da habitação acessível e indignidade habitacional, ciclovias e ecopistas, pedonalidade e mobilidade eléctrica; muito se adiou no que reporta ao “novo aeroporto” e mais ainda se tergiversou sobre a ferrovia; muito se discutiu sobre o “efeito de estufa”, a “pegada carbónica”, a mitigação e a superação das ditas alterações climáticas; muito se anunciou e prometeu, acenando-se com estudos, planos, intenções, promessas, relatórios… e, proporcionalmente, pouco se concretizou; muito se assistiu à mudança silenciosa da paisagem (com o Alentejo como exemplo mor) e da reconfiguração lenta do tecido social; muito se incentivou ao crescimento e movimento turístico e pouco se inverteu relativamente à litoralização do território nacional; muito se criticou e expôs as debilidades do acto de governar e de concertar | conjugar os seus vários níveis de decisão, na prática obrigatória de transparência e partilha.

Dir-se-á que muito se herda. Outro tanto se assume como inevitável corrigir. Outro tanto se abre como possibilidade, enfim, oportunidades perdidas ou adiadas, conquistadas ou abertas, energia desperdiçada ou desviada, novas necessidades e novos problemas, novas possibilidades e outras correcções. Dir-se-á que muito fica por fazer, abrindo expectativa sobre o próximo ciclo temporal.
Não se espera milagre, nem a realidade mudará por acaso ou magia. Mas, acreditemos e trabalharemos para que, por mais infíma que seja a melhoria, os próximos 365 possam ser melhores, renovamente melhores. Para o bem de todos!
Bom 2023!

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