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O ódio ameaça a democracia

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O ódio ameaça  a democracia

Ideias

2020-02-03 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

No momento em que se assinalam os 75 anos da libertação de Auschwitz, o mundo ocidental confronta-se com o estranho ressurgimento dos discursos populistas identitários e nacionalistas. Se vivêssemos em 1922 e ouvíssemos Adolf Hilter defender que a salvação dos arianos implicava a aniquilação dos judeus é possível que também não soubéssemos como reagir. Como Martin Niemoller assinala, quando vieram buscar os judeus quase todos os alemães (e europeus) se calaram “porque não eram judeus”. O mesmo aconteceu quando vieram buscar os ciganos, os homossexuais, os sindicalistas, os emigrantes e os brancos de tez mais escura. Quase todos se calaram até se depararem com a captura de uma sociedade inteira pelo desvario nazi que dizimou meio mundo.

Tal como em 1922, também em 2020 os discursos populistas e nacionalistas estão a deixar os democratas liberais sem saber como reagir. Estranhamente (confesso-me verdadeiramente surpreendido), há espaços político-partidários anteriormente ocupados por ideias liberais e democratas que estão a resvalar para lá do muro da decência, radicalizando o discurso e as práticas políticas sem medo de assumir que os fins justificam todos os meios.
O movimento de radicalização começou com a transformação dos agressores em vítimas: a guerra contra o “politicamente correto” não é mais do uma normalização de discursos radicais que pretendem agredir os outros em função da sua origem, da sua cor de pele, do seu género, da sua orientação sexual, da sua religião, da sua cultura ou das suas ideias políticas. Para os promotores da guerra contra o “politicamente correto”, as vítimas são os agressores odiosos que querem expressar as suas ideias hediondas sem estar sujeitos à normal e saudável censura social que essas ideias merecem.

O movimento de radicalização prossegue com a disseminação de mentiras que reforçam os ódios e estereótipos enraizados na sociedade. Membros de um partido político da extrema-direita radical estiveram na origem de boatos que apontavam um grupo de ciganos como responsável pelo homicídio de Luís Giovani em Bragança. A notícia circulou durante dias e motivou graves acusações xenófobas contra os ciganos. Quando se soube da verdade acerca da mentira que ajudaram a espalhar, disseram-nos simplesmente que não tinham afirmado, apenas insinuado. O que diria o leitor se essa mentira fosse acerca dos seus pais ou dos seus filhos? Teria a mesma tolerância que teve porque os alvos da desinformação são ciganos?

O movimento de radicalização prossegue com a usurpação do descontentamento de determinados grupos profissionais. Através de um discurso simplista que faz crer que é possível dar tudo a todos, os populistas prometem mais força aos polícias e, ao mesmo tempo, proteger das polícias os agressores que atuam na defesa dos seus ideais; prometem dar mais poder aos professores da escola pública e, ao mesmo tempo, lutar contra um sistema que favorece os “privilegiados” funcionários públicos; prometem dar melhores condições aos médicos e enfermeiros do Serviço Nacional de Saúde e, ao mesmo tempo, lutar contra o sistema público de saúde; prometem apoio aos nacionalistas que governam o Brasil e, ao mesmo tempo, prometem proteger os portugueses dos “malvados brasileiros que invadem a nossa terra”. Seduzem os membros mais incautos através da suposta proteção contra agressores imaginários que não são mais do que reforços de preconceitos demasiado enraizados na sociedade.

O trágico é que não há nada de novo nesta nova radicalização. Chega a ser irónico, se não fosse triste, ver profissionais que partilham generalizações falsas sobre ciganos, sobre negros e sobre homossexuais queixarem-se, logo a seguir, das injustas generalizações acerca da sua classe profissional. O problema da generalização, do preconceito e, nas suas versões mais extremadas, do ódio é exatamente esse: todos os que atacam serão, mais tarde ou mais cedo, vítimas de outras generalizações ou preconceitos. E isto sucede, porque todas as generalização e preconceitos acerca de pessoas estão, em regra, profundamente erradas.
Questiono-me frequentemente sobre as razões que levam as pessoas a serem seduzidas por discursos de ódio preconceituoso. Apesar de vivermos mais tempo e melhor do nunca, não temos conseguido assegurar esperança no futuro para todos. Vivemos cada vez mais submersos na nossa realidade pessoal, cada vez mais entrincheirados no nosso grupo profissional, cada vez mais iludidos por um mundo disforme que nos é servido como verosímil e que não passa de uma extensão dos nossos medos e desejos mais profundos.

É tempo de recuperar a capacidade de olhar para o outro e entender o seu sofrimento. É nos momentos de crise que precisamos de ser mais claros e incisivos: a decência (e não a divergência política) é o que nos separa daqueles que não vêm racismo em mandar uma negra portuguesa para “a sua terra”, daqueles que não vêm anti-semitismo em chamar Aristides Sousa Mendes um agiota de judeus, daqueles que não vêm homofobia em propor “terapias” de conversão homossexual, daqueles que não vêm mal em confundir ciganos com criminosos.
Todos sabemos como começou e como acabou o Holocausto. Se calhar, nem todos se lembram.

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