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O ovo da serpente. Bolsonaro e nós

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

O ovo da serpente. Bolsonaro e nós

Ideias

2018-11-19 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

Quando em dezembro de 2015, num momento solene do Brasil, Bolsonaro irrompeu pelo Congresso em grande exaltação e dedicou o voto pela destituição da Presidente Dilma ao Coronel Brilhante Ustra, um esbirro torcionário do tempo da ditadura militar, quem imaginaria vê-lo agora eleito Presidente da República? Ustra tinha sido “o pavor de Dilma Rousseff”, rejubilava Bolsonaro. Por essa razão o homenageava.
Um episódio daqueles identifica um homem: estávamos perante um desclassificado, tanto em termos pessoais como em termos políticos. Aliás, os cerca de trinta anos que Bolsonaro leva de vida pública confirmam-no. Não se lhe conhece nenhuma audácia, a não ser a de querer combater o banditismo a tiro. E a única coisa que parece tê-lo distinguido no debate político foi a linguagem desordeira. O homem foi sempre um marginal na política. E como tal se comportou, sendo que a solução política que agora propôs, servindo os grandes interesses económicos, é um nacionalismo autoritário e messiânico, tingido de racismo, xenofobia e sexismo. Esperemos, entretanto, para ver o que acontece com a floresta amazónica.
A reunião do Congresso em que foi votada a destituição de Dilma Rousseff permitiu verificar o seguinte: saída das profundezas da vida pública, por onde até então tinha rastejado, uma raça de gente “louca, fraca, vil, desprezível, sem valor”, todavia ungida nestes termos pelos Malafaias, pastores deste reino, chegava à boca de cena para fazer história. A partir daí, do pesadelo ao abismo foi um passo, se bem que pelo meio tenha havido Michel Temer, como um pio soturno, a declinar pela noite dentro a agonia do Brasil.
É de 1977 o filme Ovo de Serpente, de Ingmar Bergman, com Liv Ullman e David Carradine. Trata-se de uma metáfora sobre o lento envenenamento, que levou a Alemanha ao nazismo. Tal como acontece com o ovo da serpente, em que é possível ver, através da fina membrana, o reptil já inteiramente formado, assim também foi possível observar o monstro, quando a vida democrática brasileira entrava em colapso.
Na reunião do Congresso que votou a destituição de Dilma Rousseff, o reptil já tinha forma acabada. Não se tratava ali de uma assembleia democrática, que se reunia para repetir o gesto de cidadania, que refunda no debate a democracia. Não, tratava-se apenas do grito de tribos ululantes, que se atropelavam numa vozearia em tropel.
Podemos perguntar, mas de onde saía aquela miserável tropa fandanga a impor o golpe constitucional? A verdade é que saía do interior da sociedade brasileira e exprimia-a. O monstro, viscoso e repulsivo, era já visível debaixo daquela casca. Mas há muito que a sociedade brasileira o chocava.
Lembrei-me de A psicologia de massas do fascismo (1933), de Wilhelm Reich. O fascismo tem a estrutura irracional do homem de massas, reprimido milenarmente nos seus impulsos e desejos. O homem normal, trabalhador, sério e cumpridor, enfim, o homem feito massa, partilha em multidão uma ordem emocional, que dá vazão, num regime autoritário, aos seus recalcamentos, frustrações e inseguranças. Gilles Deleuze não dirá, aliás, coisa diferente: são as massas que querem o fascismo. E com Félix Guattari, no Anti-Édipo (1972), Deleuze acrescentou um outro elemento importante para a explicação dos regimes autoritários. Oprimido pela mística tecnológica e pelo automatismo das máquinas, o homem contemporâneo tem no autoritarismo a atitude emocional básica.
Há muito tempo que pela Europa fora (na Hungria, na Polónia, na Áustria, na Itália, em França…), e também na América, com Trump, se vê o monstro na sua forma acabada, por baixo da fina membrana do ovo.
E também em Portugal há muito que o monstro anda a ser chocado.
Só por essa razão foi possível que um personagem com terríveis aleijões de personalidade, como Bruno de Carvalho, abocanhasse o Sporting, impondo-lhe uma entorse autoritária, sem que no Clube, durante cinco anos, alguém se tenha mostrado incomodado. A verdade é que os sócios do Sporting, desde notáveis, como Daniel Sampaio, Eduardo Barroso e Marta Soares, a menos notáveis e a sócios comuns, seguiram Bruno de Carvalho, de olhos fechados, até demasiado tarde, chegando a votar a seu favor, quase por unanimidade.
E como é possível que as televisões ensaiem, hoje, todos os dias, um exercício de guerra tribal, por terra, mar e ar, entre Benfica, Porto e Sporting, fazendo descer aos infernos a convivialidade normal entre pessoas decentes?
Por outro lado, lembro-me de que há anos, Mariano Gago, então Ministro do Ensino Superior, vituperou a praxe universitária como “prática fascista”. Mas então como agora, ninguém se importou. O ano inteiro, a praxe percorre a Universidade em devastação. E são meses e meses de cultura de caserna e de sarjeta. Meses e meses a parir abaixo de zero.
O imaginário boçal e imbecil de que é feita a praxe universitária está de boa saúde na Universidade, correndo todos os dias em roda livre e a bom galope. Em cortejo de rebanho humano, de verme a remexer a terra, de manada conduzida pela arreata, o campus encena, o ano inteiro, esta habitualidade de caserna, esta pedagogia boçal, de aprender a dobrar a cerviz, com hordas de sargentos lateiros, fardados à urubu, a reativar em permanência o jogo dos tiranos. Dei apenas alguns exemplos. Mas vemo-lo bem, o monstro está no ovo. Foi assim com Jaime Nogueira Pinto e Luís Nobre Guedes, confessos apoiantes de Bolsonaro. E ainda que mais tibiamente, foi também assim com Assunção Cristas e Paulo Portas. Cristas preferiu dar música aos eleitores, e não tomou partido. Por sua vez, Paulo Portas pôde olhar para “os 27 anos de vida pública do capitão Bolsonaro”, sem que aí tenha encontrado “um indicador que fosse eticamente reprovável em termos pessoais”.
Com efeito, de tanto andar a ser chocado, o monstro da solução autoritária já anda por aí, à luz do dia. E nalguns casos até se manifesta de forma surpreendente. Vendo bem, todavia, por que razão a Direita democrática portuguesa, que tão bem conviveu com o salazarismo/marcelismo, não haveria de conviver, agora, com o monstro? Fazendo o balanço das eleições brasileiras, Miguel Relvas diz apenas aquilo que já sabíamos: “Bolsonaro não tem lepra”.
É minha opinião que não fora a integração europeia, a Direita civilizada portuguesa não desdenharia uma solução autoritária e nacionalista para Portugal.

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