Correio do Minho

Braga, terça-feira

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O País da Raspadinha

Regionalização e representação territorial

Ideias

2015-09-18 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Quem viajar por esse país fora facilmente repara que em certos dias da semana há filas junto dos quiosques. São os dias da raspadinha. As pessoas deixaram de acreditar no futuro, e como deixaram de ter fé em Nossa Senhora de Fátima, acreditam que desta forma podem antecipar o futuro, ganhando algumas centenas ou milhares de euros.

Falo da raspadinha, mas podia falar doutros fenómenos que manifestam a descrença e a falta de horizontes. Podia falar das feiras medievais, dos festivais de gastronomia regional, dos certames de artesanato. O país está transformar-se numa reserva de índios para divertimento e bem-estar do turismo low cost. O progresso económico tem consistido na venda das grandes empresas a grupos internacionais e no aparecimento de formas de desenrascanço à portuguesa que os nossos governantes denominam de empreendedorismo.

Como chegamos a isto? Em ‘O Que Fazer Com Este País’, livro da autoria de Ricardo Paes Mamede dá-se uma resposta a esta pergunta. Segundo o autor, a narrativa da coligação que nos governa atribui a culpa a José Sócrates que levou o país à bancarrota e aos portugueses que viviam acima das suas possibilidades. E por isso é necessário exorcizar o diabo (Sócrates) e empobrecer os portugueses. Ora nem os portugueses são culpados, pois se limitaram a responder a incentivos económicos e Sócrates foi o resultado duma política iniciada por Cavaco. E valha a verdade que por muitos defeitos que tenha a criatura, procurou libertar o país desta sina. Deixem-no em paz.

Segundo o autor citado, a chamada bancarrota foi o resultado dos processos de privatização e desregulamentação do sistema financeiro português nos finais dos anos 80 e a sua inserção no sistema financeiro internacional. Esta política permitiu acesso fácil ao crédito pelos particulares e a generalização das Parcerias Público-Privadas. A juntar a esta política que provocou o aumento da dívida dos portugueses, das empresas e do Estado deve sublinhar-se o peso para o erário público e para os cidadãos das rendas asseguradas a empresas de energia, telecomunicações e redes viárias.

Em segundo lugar, a manutenção de um escudo sobreavaliado durante a década de 90e depois de 2001, o aumento do valor do euro face ao dólar afectaram negativamente as exportações portuguesas. Na verdade, a adesão à moeda única foi um erro nas circunstâncias em que foi efectuada, já que a economia portuguesa não estava preparada. A crise de 2008 fez o resto; e a austeridade imposta à Europa a partir de 2010 não veio resolver os problemas dos países periféricos e mais frágeis da EU. Por este caminho basta um abanão para que tudo volte a 2011, ou pior, já que o país está mais frágil e mais céptico quanto ao seu futuro. E por isso ou emigra, ou se dedica ao artesanato. Por outro lado, a estrutura económica deteriorou-se nestes 4 anos.

E Ricardo Paes Mamede conclui que os portugueses, no seu conjunto, são responsáveis por ao longo destes 40 anos validarem através do voto ou abstenção as escolhas que foram sendo feitas pelos sucessivos governos. Esta é uma responsabilidade à qual não podemos fugir em 4 de Outubro próximo.

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