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O país de abril e a nossa época

Parecer (técnico)

O país de abril e a nossa época

Ideias

2019-04-29 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

Para um país que saía do salazarismo, o 25 de abril foi, sem dúvida, “o dia inicial inteiro e limpo”, cantado por Sophia. Todos os sonhos de comunidade, mesmo que atabalhoadamente expressos, tornaram-se possíveis. E um sentido de humanidade, nem sempre muito esclarecido, passou a habitar-nos, como sempre acontece a quem emerge “da noite e do silêncio”.
Decorreram, entretanto, 45 anos. E pensar a comunidade humana hoje, em Portugal e no mundo inteiro, requer que prestemos uma particular atenção à condição tecnológica da época. As tecnologias da informação e da comunicação fizeram o mercado global, reunindo num único mercado todas as bolsas, de Nova Iorque a Xangai, Tóquio, Francoforte, Londres, Paris... E a globalização do mercado apanhou no vórtice da mobilização tecnológica todas as coisas deste mundo, bens, corpos e almas, que se converteram em mercadoria. E tudo ficou sujeito à competição, ao empeendedorismo, à estatística e ao ranking, e alimentado por startups, websummits e spinoffs.
A própria cultura não pode ser pensada fora deste movimento de mobilização tecnológica. Em todas as suas práticas, o mundo é hoje mobilizado por tecnologias, sobretudo por plataformas móveis de comunicação, informação e lazer (iPads, tablets e smartphones), e também por novas formas de interação social (entre as quais, as redes sociais), e ainda por modelos emergentes de interação (como é o caso das aplicações e dos videojogos). Neste contexto, tem sentido falarmos de identidades híbridas. Ser europeu, ou ibero-americano, africano, latino-americano, lusófono… assinala a condição transnacional e transcultural da cultura, que torna possível não apenas o desenvolvimento de imaginários comuns, ao nível planetário, como, de igual maneira, uma partilha de sonhos coletivos.
Acolher e enfrentar o desafio, que hoje nos é colocado pelas tecnologias da informação e da comunicação, convoca-nos a fazer uma navegação através do ciberespaço: sites, portais, blogues, jogos eletrónicos, repositórios digitais e museus virtuais. Mas, na realidade, o homem contemporâneo está desafiado a enfrentar a hibridez de todos os espaços. Porque os espaços do quotidiano se tornaram híbridos, ao constituírem-se hoje como objetos técnicos. Produzidos tecnologicamente, os espaços do quotidiano, sejam eles centros comerciais, cinemas e outras salas de espetáculo, sejam estações de comboio, aeroportos, museus e bibliotecas, misturam a técnica com a vida, o orgânico com o inorgânico.
Navegar por este novo território é um desafio deveras aliciante, porque da resposta que lhe dermos depende o futuro do humano. “Lá onde está o perigo, também cresce o que salva”, dizia o poeta alemão Hölderlin. E é esse o desafio que enfrentamos. Estendendo-se da cultura às artes, o desafio a dar à condição tecnológica da nossa época convoca, por exemplo, as práticas dos profissionais do novo contexto digital, particularmente dos web designers, curadores online, gestores de museus virtuais, ativistas da web, youtubers, influencers.
Qualquer atividade humana produz cultura. E como a prática quotidiana dos indivíduos de hoje passa por uma filiação tecnológica, a cultura, ela própria, torna-se digital. Estes novos ambientes têm a ver com uma espécie de sensibilidade da época, com as nossas emoções e sensações. Porque aconteceu com a nossa época aquilo a que Mario Perniola chamou de sex appeal do inorgânico. O inorgânico é aqui o tecnológico. E os objetos técnicos estabelecem uma ligação sensorial connosco, uma ligação com a nossa pele, o que quer dizer, com as nossas emoções.
E também os média passam por este processo e exprimem esta sensibilidade. Os média nasceram como uma promessa de cidadania, ao serviço da sociedade democrática, exercendo a vigilância sobre os poderes públicos e as instituições, e instruindo os cidadãos sobre as decisões a tomar no espaço público. No entanto, como a experiência contemporânea é uma experiência tecnológica, os média estão sujeitos a este mesmo movimento. O que quer dizer que os média refletem as condições da época, que são tecnológicas, e as contradições que a própria época tem, por razões que são também tecnológicas. Nestas circunstâncias, os média passaram a constituir um instrumento da ordem do espetáculo, tendo um compromisso apenas com a emoção, o que corresponde, na realidade, a uma retração do pensamento e do espírito crítico.
A mobilização tecnológica da época tornou manifesto um mal-estar na cultura e no humano, que se tem generalizado pelo facto de o mal-estar ser concomitante ao sentimento de impotência, relativamente ao atual estado do mundo. A este respeito, lembro as alterações climáticas, de que são um gritante exemplo, tanto os recentes incêndios florestais, em Portugal e na Califórnia, como o ciclone Idai, em Moçambique. No fundo, a nossa relação com as tecnologias diz muito sobre a nossa identidade, assim como sobre a relação que mantemos com o planeta, cujas capacidades se vão exaurindo, por responsabilidade nossa.
Mas um outro mal-estar cultural, que é também um mal-estar político, são os nacionalismos, assim como as convocações ao patriotismo. O nacionalismo e o patriotismo significam hoje meros tribalismos, o que quer dizer, egoísmos, que desenvolvem sentimentos racistas, propagam a intolerância ao outro e destilam ódio àquele que é estrangeiro.
Nas atuais circunstâncias do mundo, a única pedagogia, política e cultural, que me parece fazer sentido, é a que nos coloca do lado da comunidade humana como um todo, mantendo e alimentando sempre um sentido de humanidade.
Mas nos últimos tempos, temos visto aproximarem-se da boca de cena da história, a multidão, o populismo e o nacionalismo, que fomentam toda a espécie de egoísmo, promovem a xenofobia e a intolerância, e colocam em risco a comunidade humana.
Nestas condições, o humano passou a viver em sobressalto e em desassossego, assim como todas as instituições, que até então o garantiam, pois que também elas entraram em crise. E os média exprimem esta condição da época, pelo que manifestam cada vez maiores dificuldades na promoção da cidadania e na proteção e aprofundamento da democracia.

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