Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O país de Passos

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2014-12-09 às 06h00

Jorge Cruz

Na sua mais recente visita a Braga, no final da passada semana, o Primeiro-ministro não se coibiu de, uma vez mais, fazer um discurso repleto de demagogia, falacioso e com escassa correspondência com a realidade. Aparentemente, e a acreditar nas suas palavras, Passos Coelho vive num país distinto, provavelmente um país virtual muito diferente daquele em que os seus concidadãos se vêm obrigados a (sobre)viver.

Ao afirmar que o seu Governo contrariou o adágio popular de que “quem se lixa é o mexilhão” porque, segundo garantiu, o maior peso das contribuições para superar a crise foi de “quem tinha mais”, o Primeiro-ministro tentou transmitir uma concepção simpática para a maioria dos portugueses mas que, de facto, se mostra assaz fantasiosa já que pouca ou nenhuma correspondência tem com a realidade.

Passos Coelho assegurou, na circunstância, que “ao contrário do que era o jargão popular de que quem se lixa é o mexilhão, de que são sempre os mesmos (…), desta vez todos contribuíram e contribuiu mais quem tinha mais”, concluindo ainda de uma forma peremptória que “disso não há dúvida”.

Se estas palavras do Chefe do executivo correspondem de facto ao seu pensamento, se na verdade é esse entendimento que ele tem sobre a matéria em causa, então teremos de concluir que estamos a ser governados por gente que não conhece a realidade do país, por pessoas que desconhecem os níveis de miséria para a qual uma parte da população portuguesa foi lançada. E se assim é, como parece, estamos perante gente perigosa, gente que vive encerrada em qualquer redoma sem qualquer contacto com o mundo real.

Dizer que “a crise económica não agravou as desigualdades”, que “houve até uma tendência para corrigir algumas delas”, é dar mostras de um absoluto e gritante desconhecimento das realidades, absolutamente indesculpável para uma pessoa com as responsabilidades de um Primeiro-ministro. E isto já nada tem a ver com as heranças, pesadas ou ligeiras, que invariavelmente são invocadas por alguns governantes como desculpa para determinadas situações.

Aos responsáveis políticos exige-se uma série de qualidades e de competências que, como é público e notório, nem todos possuem. Mas, que diabo, falar verdade, respeitar os concidadãos, ter honestidade intelectual são atributos que estão ao alcance de qualquer um.

Os portugueses não são parvos, sabem perfeitamente distinguir a verdade da mentira, diferenciam a realidade da demagogia, separam com facilidade a boa da má governança e já vão conhecendo as técnicas de propaganda. E estão cada vez mais a envolver-se no processo de aperfeiçoamento da democracia, um procedimento que conduzirá a um aumento da participação cívica, mas também política, e, consequentemente, a um maior escrutínio dos eleitos.

Desenganem-se aqueles que pensam que o povo exerce a democracia apenas nas urnas eleitorais - o mundo mudou e, sob esse ponto de vista, hoje a realidade é diferente. Felizmente.
Mas voltando às controversas afirmações de Passos Coelho, talvez seja interessante lembrar, a propósito, as palavras de um seu companheiro de partido, proferidas de igual modo nestes últimos dias.

“Tivemos aqui uma visita muito especial do Primeiro-ministro, que diz que fez justiça social”, recordou Alberto João Jardim, antes de responder, ele próprio, conclusivamente: “Não fez coisa nenhuma. Destruiu a classe média portuguesa, agravou a diferença entre ricos e pobres e pôs os pobres dos funcionários públicos e os pobres dos reformados a pagar os erros dos socialistas”.
Com efeito, e eventualmente por uma vez, Jardim tem razão. A classe média praticamente foi extinta e o drama do desemprego e da emigração forçada e, aliás, aconselhada, contrasta com o crescimento dos milionários, o que contribuiu para ampliar consideravelmente o fosso da desigualdade. E esta situação dramática é tanto mais grave quanto é certo que Passos Coelho sabe perfeitamente que a pobreza caminha em sentido inverso ao da diminuição, atingindo agora largas franjas inclusivamente da extinta classe média, sendo certo que a chamada pobreza infantil já assumiu uma dimensão como não se via há largas décadas.

Até a demagogia e, de uma forma geral, a manipulação da realidade e a consequente falseação da verdade têm que ter limites. Não pode valer tudo neste pobre país. Se assobiar para o lado fazendo de conta que não existe desigualdade e pobreza já é condenável, então utilizar um discurso tipo Calimero para tentar esconder os erros das políticas governativas e capitalizar sucessos inexistentes é inqualificável.

A propósito: o chamado “processo de racionalização de efectivos” que prevê a “redução de 697 postos de trabalho” na Segurança Social, também é parte da justiça social ou é mais um contributo governamental para o aumento do desemprego? Em última análise será a dispensa de pessoal técnico necessário ao apoio dos mais frágeis e carenciados, medida que, naturalmente, os privados aplaudirão e agradecerão.

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