Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O Parlamento que temos

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2018-04-23 às 06h00

Carlos Pires

No Parlamento que temos, existem esquemas destinados a servirem como reforço dos salários dos senhores deputados.
No Parlamento que temos, esses esquemas são do conhecimento de todos, seja em partidos da esquerda, seja em partidos da direita política. É um mal disseminado, como um cancro. Ninguém denuncia. Porque há um pacto, silencioso.
No Parlamento que temos, há deputados apanhados no trama de insuflar as ajudas de custo com deslocações, dando uma morada mais distante de Lisboa, sendo certo que vivem na capital (veja-se o caso de Feliciano Barreiras Duarte, PSD, mas há mais)
No Parlamento que temos, soube-se há 1 semana, vários deputados dos Açores e da Madeira, de diversos quadrantes políticos (PS, PSD, BE), recebem apoios públicos a duplicar para as suas viagens a Lisboa. Assim: por um lado, o parlamento subsidia as deslocações desses deputados com uma soma de 500 euros semanais (2.000 euros em cada mês) para cobrir as despesas com os voos, paga antecipadamente e sem que aqueles tenham obrigação de apresentar comprovativo do voo, ou seja, podem ou não viajar de facto. Por outro lado, por serem residentes nos arquipélagos, e tal como qualquer cidadão português insular, os senhores deputados entenderam que deveriam reclamar a devolução do valor das viagens na Madeira, as viagens acima de 86 euros, ou 65 para estudantes, são reembolsadas até ao limite máximo de 400; nos Açores tal reembolso ocorre no custo superior a 134 euros, ou 99 euros para estudantes, sem limite máximo -, recebendo pois o reembolso de uma quantia que não pagaram porque fora coberta pelo subsídio parlamentar.
No Parlamento que temos, não houve ninguém a censurar abertamente os senhores deputados autores de tais práticas, nem a exigir-lhes que devolvam as quantias recebidas a mais.
No Parlamento que temos, os próprios visados comunicaram que o seu comportamento carecia de qualquer ilegalidade.
No Parlamento que temos, o deputado insular (Açores) e também Presidente do PS, Carlos César, um dos que recebeu o citado apoio em duplicado, e depois de alegar tratar-se de um assunto do foro pessoal, garantiu que tudo é legal.
No Parlamento que temos, o respetivo Presidente, Ferro Rodrigues, curiosamente também do partido de Carlos César, insurgiu-se contra a veiculação da notícia, alegando que não só as práticas dos deputados insulares são legais, como também moralmente admissíveis. Sim, isso mesmo que acabou de ler: não existe sequer qualquer imoralidade nesta questão.
No Parlamento que temos, este assunto tornou-se um não assunto, porque não há qualquer ilegalidade, nem tão pouco os comportamentos visados são atacáveis moralmente.
No Parlamento que temos, a casa da democracia, continua a pedir-se ao povo que aperte o cinto, continua a lançar-se sobre individuais e empresas impostos estranguladores, mas, repete-se, valida-se a prática dos deputados insulares, merecedora de todo o respeito e impoluta de qualquer censura. Há mesmo uma proposta do Governo para cessar o corte salarial de 5% mas apenas nos gabinetes políticos. A prioridade são os políticos e não os cidadãos.
No Parlamento que temos, a dita casa da democracia, ainda se acredita afinal que nós, o povo, somos parvos. E sim, seremos parvos sempre que nos calarmos perante factos como estes. E sim, seremos parvos se não nos insurgirmos sempre que nos atiram com areia para os olhos.

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