Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O pecado original

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Conta o Leitor

2018-08-25 às 06h00

Escritor

Autor: Álvaro Pontes

No processo de Criação do Mundo que se encontra narrado na Bíblia encontramos três personagens importantes: Adão, Eva e uma serpente. Diz a Bíblia que Adão foi o primeiro homem e Eva a primeira mulher. Logo, Adão e Eva são filhos primogénitos do Criador. Já a serpente é suposto que tenha sido também a primeira da espécie. Por razões que todos os católicos devem conhecer, o Criador aplicou, de forma inapelável, aos três personagens uma pesada e terrível punição. Começando pela serpente, o Criador sentenciou-a: “por teres feito isto, serás maldita entre todos os animais domésticos e entre os animais ferozes dos campos. Rastejarás sobre o teu ventre, alimentar-te-ás de terra todos os dias da tua vida…”

A primeira mulher, Eva, foi assim sentenciada: “Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos hão-de nascer entre dores. Procurarás com paixão a quem serás sujeita, o teu marido.” Por sua vez, a Adão, o primeiro homem, o Criador começou por dizer: “maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida (…) Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado, porque tu és pó e em pó te hás-de tornar”. Como facilmente se subentende este “até que voltes à terra de onde foste tirado, porque tu és pó e em pó te hás-de tornar” outra coisa não é senão a condenação à morte, não apenas de Adão, mas de Eva também, e da própria serpente. Se a pena aplicada pelo Criador a Adão, a Eva e à serpente, foi pesada, como devemos classificá-la sabendo que ela abrange todas as gerações de seres vivos até ao final dos tempos? Terrível! Sem querer ser advogado de defesa de ninguém, pode perguntar-se: O que fizeram de tão grave Adão e Eva para merecer a condenação à morte? Pouco, muito pouco. Da acusação constava apenas uma simples desobediência ao Criador, materializada no facto de terem colhido e comido o fruto da árvore da ciência do bem e do mal (vulgo fruto proibido).

É certo que o Criador terá deixado aos autos denominados seres racionais — a medida não abrange os classificados de irracionais —, uma fórmula de vencer a morte terrena e alcançar a imortalidade, senão do corpo pelo menos da alma. O texto bíblico a isso se refere profusamente. Mas mesmo assim, convenhamos, que o Criador foi implacável com Adão e Eva, e profundamente injusto ao estender a medida da pena a todas as gerações futuras.
Nem o facto de Adão e Eva serem Seus filhos primogénitos, nem o facto de Eva ter sido insidiada pela venenosa serpente, nem mesmo a circunstância de ambos serem delinquentes primários, serviram de atenuantes para o Criador deitar mão da Sua tão propalada infinita misericórdia e compaixão.

Parece ser um facto que tanto Adão como Eva, e a própria serpente que falava, não apresentaram ao seu Criador, seu pai, um pedido de desculpas acompanhado da veemente promessa de não voltarem a desobedecer às suas ordens ou determinações. Esquecendo um pouco a serpente, como não se sabe se naquele tempo já o valor da palavra dos autos denominados seres racionais valia o que vale hoje, nada, o Criador até lhes podia exigir um documento escrito assinado onde eles se comprometiam a não reincidir na falta de obediência. O Criador estava no seu direito, como diz o povo. Mas então, também Adão e Eva deveriam ter tido o direito de, não o de reclamar a sua inocência mas o de pedir a redução da pena, pelos motivos acima aduzidos. E como é suposto que naquele tempo e naquele lugar não existiam tribunais comuns, e muito menos superiores, onde certamente julgariam juízes que embora fossem meritíssimos, estariam sempre maculados pela máxima popular que diz que errar é humano, e muito menos existiria algum tribunal divino presidido por personagem santa de auréola na cabeça, portanto pura, iluminada, isenta e livre de qualquer contágio de fraqueza humana, Adão e Eva, a sua auxiliar (assim lhe chamou o Criador) não puderam tugir nem mugir que é a mesma coisa que dizer que não puderam recorrer da mais que cruel sentença. E se o desígnio do Criador foi esse e não outro, se tudo foi assim porque de outra forma não podia ter sido, então, o dever do bom e fiel servo é a humilde aceitação, sem reservas e sem amuos, porque a mais ténue e recôndita divergência, por apenas mental que fosse, não escaparia do conhecimento da omnisciência do Criador. Porém, seguindo um raciocínio lógico na análise destes supostos factos ocorridos há mais de dois mil anos, temos de admitir que são, no mínimo, intrigantes. Porquê? Pela simples circunstância da divina mas cruel sentença resultar de uma mera desobediência de Adão e Eva, dois seres a quem, embora em sentido metafórico, podemos afirmar, ainda mal havia sido cortado o cordão umbilical (Deus tê-los-á criado já adultos); dois seres naturalmente desconhecedores da maldade humana e das mil e uma maneiras de enganar o próximo, e o longínquo. E ainda mais, sendo o Criador omnisciente, teve certamente conhecimento na hora da ação pérfida da serpente ao aliciar Eva a colher e comer o fruto proibido. Porque não o evitou? Causa ou perplexidade o suposto facto de o Criador não ter feito nada para evitar que o pecado original se concretizasse e viesse a causar tanto mal, tanto sofrimento a todos os seres viventes? É claro que tudo se poderá ter passado da forma como a Bíblia o descreve como de outra qualquer forma.

A fé é simultaneamente uma fonte de extinção de perplexidades mas é também uma fonte de restrições ao pensamento humano.
O bem e o mal são opostos…sem opostos, reinaria o marasmo…
A morte é um fermento das religiões…

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