Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O Plínio Sineiro

Da falta que as tentações nos fazem

Conta o Leitor

2012-08-24 às 06h00

Escritor

Por Albino Gonçalves

Os tempos já lá vão, eventualmente a tradição poderá ser nunca retomada. A igreja de S. Vicente detinha uma mais-valia que invejava as freguesias congéneres na periferia. Subir à torre e dar à corda para puxar os sinos a rebate, estrondoso e ouvido a léguas, era arrojado e potencialmente de risco.
Plínio, com escola feita proveniente do seu mestre Luís sineiro e aluno brilhante nestas “coisas” de tocar o sino pelas próprias mãos, retomou o lugar do seu professor e deu largas à sua imaginação, quando a saúde do mestre o fragilizou na continuidade da arte de saber reproduzir a bom e alto som e estridente, magníficas melodias populares e religiosas através do vasto leque de sinos. Julgo que a torre da Igreja de S. Vicente compunha-se por um conjunto 28 sinos estrategicamente pregados às paredes ou no tecto da torre, todos eles centralizados num maranhado de cordas.
O jovem sineiro, que no passado já tivera uma queda grave do alto da torre, meticulosamente cumpria a preceito todos os cerimoniais que envolvessem a presença o sino para chamar os fiéis à igreja paroquial. Adorava o mês de Maria, e todos os dias tocava o “a 13 de maio” ou a “Avé Maria”. Consta-se que fazia parar as pessoas para emocionalmente delirarem com a beleza acústica surtida do sino a duas ou três “vozes”. O pai do Plínio repreendeu-o, mas a sua determinação contrariou os avisos do seu progenitor. Ele queria mesmo ser sineiro. Nas horas de maior tristeza e a hora do luto, Plínio dava o sinal através do sino, do fim das cerimónias fúnebres na igreja e o começo do trajecto para o cemitério. Era um adeus e uma homenagem a pessoa que transitava para o “outro lado da vida” e o descanso eterno na boa paz.
Aos domingos, implacável, a missa central e protagonista em relação às outras durante o dia, o rebate era forte e consistente, era imperdoável que alguém ousasse que não ouviu o sino a chamá-lo para cumprir os seus deveres de bom cristão praticante. Plínio tinha sérias responsabilidades na moldura humana dentro do espaço físico da igreja. O pároco, um excelente pastor de todas as ovelhas, incluindo mesmo as “ranhosas”, dava largas de satisfação ao desempenho do sineiro da freguesia e convidava-o mesmo para dimensionar a sua habilidade noutros cânticos, pois sabia do sucesso que a torre da sua igreja tinha junto da sua comunidade paroquiana e fazia (talvez com uma pontinha de “mauzinho da silva”), um roer de unhas às freguesias mais próximas que não conseguiam encontrar, também elas, uma espécie de Plínio Sineiro.
Pai de 10 filhos, metalúrgico de profissão, polivalente no grupo folclórico Dr. Gonçalo Sampaio, todos os dias marcava presença para matar o “bichinho” de tocar ao sino, procurava cantar sozinho para correlacionar a orquestração pela via do ferro maciço. Não era um especialista em notas musicais, valendo-lhe a força da sonata para conseguir executá-la pelos sinos da torre da freguesia de S. Vicente. Ouvia-se a “populaça” mais próxima com um sorrisinho de satisfação: - lá está o Plínio a tocar o malhão, os sinos da Sé de Braga ou, à época; outros cânticos religiosos. Formidável, espantados e rendidos às maravilhas das mãos humanas como conseguia a articular em simultâneo a funcionalidade mecânica de quase três dezenas de pequeno e grande porte de sinos em ferro bruto. Uma autêntica orquestra manejada apenas por um homem que “amava” integralmente aquilo que fazia e já vindo das veias, desde o tempo de criança.
Plínio Sineiro, será sempre recordado enquanto a sua geração permanecer activamente neste planeta.

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