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O preço de se falar errado

Decisões que marcam

O preço de se falar errado

Ideias

2020-06-22 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

Em março obrigaram-nos a confinar, a encerrar a atividade de restaurantes, hotéis, hospedagens, ginásios, centros comerciais, etc. O isolamento social impunha-se. Tudo em nome do combate a uma pandemia. Mortífera. Assustados, obedecemos.

Primeiro, disseram-nos para não usar máscaras, porque davam a falsa sensação de segurança. Depois, perante a evidência que um “tapume” na boca ajudaria a evitar que expelíssemos partículas contagiosas, obrigaram-nos (tardiamente) ao uso das mesmas.

A partir de maio a economia do país falou mais alto. E bem, devo dizer. Em boa verdade, se não morrêssemos da doença, certamente morreríamos da cura, uma vez que o país sem produzir, sem recursos, não poderia custear a sobrevivência e saúde dos seus nacionais. E assim iniciamos a operação de desconfinamento. Os restaurantes e as esplanadas voltaram a ter pessoas. E aos portugueses começou a ser dada a mensagem de que a epidemia estaria controlada.

Isto apesar do país continuar a contabilizar mortos (são mais de 1.500) e a assistir a uma subida dos novos casos de infeção, com Lisboa e Vale do Tejo a ser a região que reúne quase 75% dos novos casos. E até aquele recanto que parecia imaculadamente avesso a qualquer vírus, o Alentejo, de repente viu-se a braços com um surto num lar de idosos, em Reguengos de Monsaraz, que já registou 56 casos positivos.

Entretanto, países como a Grécia anunciaram que não autorizam a chegada de voos provenientes de Portugal, relegados somos para estatuto de “personae non gratae”, numa lista que ostenta os viajantes que os gregos consideram “seguros”. E logo veio o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em defesa da coroa, considerar “legítimo pensar-se” que a imposição de restrições aos voos entre países da União Europeia se deva a uma concorrência por mercados turísticos, dada a grave crise do setor em toda a EU, insistindo que essas restrições se baseiam em dados que não refletem a complexidade da situação epidemiológica.

Ora, se afinal a dita da epidemia não é complexa, então não há razões para não fazermos umas grandes festanças. E foi nesta linha de pensamento que surgiu o evento de Odiáxere, em Lagos, Algarve, do qual resultou a infeção de nove dezenas de pessoas, incluindo crianças. E mais recentemente foram perto de mil as pessoas retiradas de uma festa na praia de Carcavelos. E “aqui-d’el-rei”, lá veio o Estado, desta vez na pessoa da ministra da Justiça, pedir à Procuradoria-Geral da República para avançar com ações indemnizatórias contra os promotores do dito evento.

Mas quando todos achavam que o Estado ia ser implacável com os ajuntamentos festivos de pessoas, eis que é conhecida a decisão de realizar os quartos-de-final, meias-finais e final da Liga dos Campeões em Lisboa, e o Presidente Marcelo até agradeceu aos portugueses pelo seu comportamento durante a pandemia, que, segundo ele, ajudou a que a UEFA olhasse para Portugal como um país seguro. “A marca Portugal vai afirmar-se durante mais de 8 dias e isso não tem preço".

Como é? Será que ouvi bem? Afinal vêm aí enxurradas de ingleses, espanhóis e outros, prontos a invadir praças solarengas com cerveja na mão e um prato de tremoços? No final, veremos se o prato da balança tombará mais para o lado da receita económica ou se, ao invés, a fatura a pagar pelo sistema de saúde será afinal maior do que os ganhos que a TAP ou a hotelaria e restauração obtiveram. Confesso que estou apreensivo.

Muito me engano, mas a partir do momento em que tudo é permitido a uns, mas a outros nada, o governo perde a legitimidade de exigir seja o que for. Já houve 1º de maio, já houve 25 de Abril, já houve manifestações contra o racismo. E vai haver a festa do Avante, que sempre juntou (e vai juntar!) milhares de pessoas. E agora a champions League…

(Mas entretanto vamos mas é pedir uma indemnização a uma festa de particulares, só para mostrarmos que somos duros e implacáveis…)

Afinal, permite-se a uns aquilo que se proíbe a outros? Há uma epidemia descontrolada em Lisboa, e que se pode estender a outras regiões? Ou tudo isto foi um exagero e vamos assistir a comportamentos da população que refletem esta sensação de segurança?

Falta nesta fase, e de uma forma muito clara, que o poder político assuma o problema e evite as mensagens dúbias. A comunicação tem de ser assertiva e responsável, sob pena de conduzir-nos a um desastre de saúde pública. E, consequentemente, a uma (maior) destruição da nossa economia.

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