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O pároco de Adaúfe

50 anos de 25 de Abril! 50 anos de liberdade!

O pároco de Adaúfe

Ideias

2024-03-03 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A uma semana das eleições legislativas, os partidos políticos preparam-se para apresentar os últimos argumentos na tentativa de con- vencer o maior número de eleitores.
Independentemente da vocação política de cada um, não restam dúvidas de que o nosso país constitui, a nível político, um exemplo de democracia e de liberdade, sendo neste âmbito uma referência positiva para a maioria dos outros países.
Partidos políticos que governam depois de perder eleições ou governos com maioria absoluta que veem interrompido o seu mandato, dando origem a novas eleições, são apenas dois exemplos da maturidade política que todos conseguimos, nestes 50 anos de Democracia.

A realização de eleições com esta elevação cívica e democrática, em nada tem a ver com outras eleições, que se realizaram no nosso país, e que foram marcadas pela agitação social, por influências pessoais e por jogos de interesses que muitas vezes acabavam mal. E o exemplo que aqui quero apresentar ocorreu na freguesia de Adaúfe, concelho de Braga, já lá vão 136 anos.
A região minhota é conhecida pela sua religiosidade. Tornaram-se célebres as manifestações de católicos, no séc. XIX e até nas primeiras duas décadas do século XX, contra o enterramento de pessoas fora das igrejas. São dezenas os casos de conflitos neste âmbito ocorridos em várias freguesias de Braga, de Cabeceiras de Basto, de Monção, de Melgaço ou de Vila Verde.

Os párocos das freguesias eram o centro da formação das mentalidades, devido à influência que exerciam nas populações, fazendo-o não só a nível religioso, mas também político. Em alturas de eleições, um dos principais centros políticos eram, precisamente, as igrejas, estando os párocos das freguesias da diocese de Braga quase sempre no centro das atenções.
Uma crítica violenta a um padre de Braga aconteceu em 1888 e envolveu o pároco de Adaúfe.
O padre Menezes, pároco desta freguesia, em 1887/1888, era frequentemente criticado por não se dedicar convenientemente ao seu labor sacerdotal, passando muito do seu tempo a pensar na política.

A maior parte das tarefas religiosas que ocorriam na freguesia não eram realizadas pelo padre Menezes. A sua única tarefa limitava-se à realização de umas missas dominicais, ou então missas correspondentes a dias santificados, mas sempre realizadas à pressa. Nesta freguesia “não há novenas, mez de Maria, do Rosario, Clamores, Benção do Santissimo aos domingos e nem ao menos se leram os sacramentos de noute a quem não pode esperar pelo dia seguinte…”. (1)
Esta situação preocupava, e de que maneira, os paroquianos de Adaúfe, uma vez que numa altura tinham morrido três pessoas, de noite, sem que o pároco lá fosse ministrar os últimos sacramentos!
O problema é que o padre Menezes era de uma grande vaidade e de uma “petulância inaudita, chegando a dizer mal de todos os párochos das freguezias circum visinhas, a quem chama de parachácos, não se lembrando que qualquer deles lhe poderia servir de modelo” (Id.).

Muitos habitantes de Adaúfe queixavam-se desta situação, afirmando que o seu pároco deveria seguir o exemplo dos seus colegas vizinhos, que faziam o seu trabalho pastoral com dedicação e simplicidade. Mais grave era verificarem que o padre Menezes, a quem rotulavam de “um refinado galopim”, apenas se lembrava que era padre para receber as benesses a que tinha direito, e mesmo assim aproveitava-as para criticar a freguesia e os seus habitantes.
Em momentos de aflição, e eram muitos na época, os paroquianos raramente podiam confiar no seu pároco. Numa ocasião, um seu paroquiano chegou a ir “bater á porta da residência parochial, demorando-se ahi por muito tempo, para afinal ter de ir dizer á familia do enfermo que o abbade não abria a porta da egreja” (Id.).

Houve um caso em que um representante de uma família foi chamar o padre Menezes para “acudir” a um seu familiar, que se encontrava a morrer, e este não lhe abriu a porta da residência paroquial nem sequer a porta da igreja! Por isso, com frequência as pessoas concluíam que um “parocho d’esta laia, longe de fazer bem à freguesia está a fazer mal”! (Id.).
Os paroquianos de Adaúfe desconfiavam do seu pároco, uma vez que ele se dedicava mais à política do que à religião. Aliás, as estantes da sua casa praticamente não tinham livros religiosos, tendo apenas “uns códigos administrativos e uns folhetos das posturas camarárias” (Id.).

As atenções do padre Menezes estavam quase sempre viradas para a política. Até na doutrina, o padre aproveitava o momento para fazer campanhas político-partidárias. Mais grave era incumbir as mulheres para exercerem influência política sobre os seus próprios maridos!
As constantes infiltrações que o padre fazia na política causavam perturbações, como se vê, na freguesia e até nas famílias, pois este aproveitava o cargo que ocupava para “manejar a arma política levando assim ao lar domestico o fermento da descordia” (Id.).

Perante esta situação, os paroquianos de Adaúfe pediam com frequência às entidades eclesiásticas de Braga para que estas fizessem justiça ao seu pároco!
Atualmente a influência dos párocos, ou de outros agentes, na decisão política dos eleitores não é tão acentuada, até porque os portugueses revelam já enorme maturidade política.
Há, no entanto, a lamentar os novos métodos de perturbação política, centrados nas notícias falsas e nas influências através dos canais digitais, tal como o demonstra o recente estudo do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e a Empresa (ISCTE-IUL).
Esse estudo revela que há indícios de interferência exterior nas eleições em Portugal, com incidência nas redes sociais e ainda nos processos de desinformação no período de pré-campanha, como aquele que estamos a viver.
– Jornal “O Regenerador”, de 1 de Janeiro de 1888.

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