Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O programa eleitoral (parte II)

Escrever e falar bem Português

Ideias

2017-04-24 às 06h00

Filipe Fontes

Sendo um momento decisivo e incontornavelmente importante para a(s) cidade(s) - afinal momento em que, de forma democrática, ou seja livre e regrada, escolhemos aqueles que nos irão representar e tomar decisões por nós sobre o palco territorial mais próximo da nossa actuação humana - as eleições locais são também um momento indiscutivelmente difícil e exigente, quer para aqueles que se apresentam a votos, quer para aqueles que escolhem.
Para os primeiros, é um momento de exposição de um pensamento estruturado. E de visibilização das suas qualidades. E história de vida.

Para os segundos, é um momento de imparcialidade de raciocínio abstracto e não egoísta. E de envolvimento num projecto comunitário (como será sempre a construção da cidade).
Como tal, e como mencionado no último texto, o programa eleitoral é documento fundamental e estruturante. Porque, e de forma simplificada, materializa “ao que vêm” (candidatos), o que se aceita (eleitores) num compromisso tácito que, mais uma vez, se afirma entender não ser despiciendo: porque legitima a actuação dos primeiros, porque legitima a exigência dos segundos.

É convicção de que o programa eleitoral deve responder a três verbos: enunciar, explicar e explicitar - de modo a favorecer o entendimento dos eleitores sobre o pensamento dos candidatos respeitante ao “porquê e para quê”, ao “como e o quê”, perguntas que, tantas vezes, se banalizam e relativizam mas que, na essência, fixam o que de mais importante tem a mensagem.
Enunciar um pensamento sobre a cidade numa lógica analítica, racionalizando o seu contexto e actualidade para projectar uma perspectiva de futuro, materializando uma “ideia de cidade”, um objectivo claro e perceptível e um caminho para lá chegar. Ou seja, enunciando a estratégia.

Explicar as razões e causas dessa estratégia, a crítica construtiva sobre a realidade passada e actual, a leitura das tendências e das potencialidades, a articulação da visão com a coerência, formulando um juízo prospectivo e afirmativo da estratégia a seguir.
Explicitar no sentido da materialização efectiva de como proceder e actuar, que medidas abraçar ou concretizações perseguir de modo a alcançar a meta. Porventura, a parte mais visível e mais táctil.

Talvez porque assim é, mais física e táctil, mais objectiva e observável, tendencialmente esta última componente é aquela (exageradamente) mais valorizada, muitas vezes, quase exclusivamente tida em conta. São as chamadas “promessas” que, sendo importantes, não podem deixar de ser relativizadas e conjugadas com a estratégia, a meta e o caminho a percorrer.
Porque sendo importantes, só reverterão a favor da comunidade se realmente coerentes e ajustadas, equilibradas e na justa medida da “ideia de cidade” que se procura atingir.

Tendencialmente, valoriza-se a especificidade do projecto, a sua forma e imagem - quase como ainda antes de eleitos e designados representantes, esse mesmo projecto tivesse que estar concluído - mas esquece-se que o tempo que precede as eleições é , sobretudo, de reflexão e debate de ideias “de cidade e para a cidade”. Depois, haverá tempo de desenvolver e concretizar. E envolver a população, afirmando (aqui sim) a participação pública como parte do processo e como valor inquestionável na construção da(s) cidade(s).

Construir um programa eleitoral que enuncie, explique e explicite é desafio exigente que legitimará os eleitos e os eleitores a melhor se relacionarem no futuro. E a melhor saberem exigir. E ser exigentes. Permitindo aos primeiros uma previsibilidade e constância na gestão municipal que só favorecerá a racionalidade e a coerência. Possibilitando aos segundos uma aceitação e um envolvimento que evitará a emoção sem critério e a participação | envolvimento na gestão da cidade de forma contextualizada. E criteriosa.

Porque, na verdade, acredita-se que este momento eleitoral é oportunidade de criar bases de trabalho comuns para o futuro. Que a todos diz respeito. Que a todos aproveita. Em favor de uma cidade, em favor da Cidade - palco da vida de todos nós!

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