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O que as notícias não contam

Viagem a Viena

Ideias

2010-05-09 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

As técnicas de escrita jornalística orientam-se por uma lógica de dizer muito em poucas palavras. Por uma economia de tempo e de espaço. Esta tendência vertiginosa tem traços perversos. Muitas vezes sabemos pouco acerca daquilo que acontece. Mesmo em processos hipermediatizados.

Olho os jornais deste fim-de-semana. O “Expresso” tem como manchete o seguinte título: “Comissão não pediu registos de entradas em S. Bento”. O caso PT/TVI, novamente. Já se publicaram tantas notícias sobre isto e continuamos a ignorar o que, realmente, se passou neste processo. Os depoimentos multiplicam-se e a confusão também. Não será por acaso… O “Público” destaca este título: “Sócrates admite adiar aeroporto de Alcochete e terceira ponte sobre o Tejo”. As obras públicas continuam a fazer “agenda-setting” e a serem um palco favorável para a luta partidária. No fundo, interessa pouco o essencial. O que importa aqui é multiplicar visões e fazer permanecer tudo em lume brando até estourar. Neste contexto, os media desempenham um papel fulcral. Muitas vezes, de grande irresponsabilidade.

Para tornar tudo ainda mais entrópico ao nível da produção noticiosa, um conjunto de pessoas ocupa-se, “off the record”, em fazer chegar aos jornalistas determinadas versões dos acontecimentos para criar factos, testar reacções, aumentar a confusão… São os chamados “spin doctors”, verdadeiros especialistas na técnica do engano, em relação aos quais os jornalistas adoptam, por vezes, um papel de enorme crença. Estas “prestáveis” fontes de informação proporcionam atractivas “cachas informativas” (notícias que mais ninguém tem), fornecem sedutores ângulos de noticiabilidade, facilitam outro entendimento da actualidade… No fundo, são um perigo. Que a maioria de nós não consegue calcular, nem afrontar. Estes interesseiros interlocutores movimentam-se bem nas redacções. Têm os contactos certos, telefonam nos momentos críticos… Enfim, conhecem a fundo os ritmos de um jornalismo cada vez mais tributário de uma informação que chega pelo telefone e dispensa um trabalho de investigação pessoal.
 
O mundo é um lugar perigoso, já o sabemos, mas o mundo olhado através dos media pode também ser uma referência enganadora. Não quer isto dizer que eu tenha deixado de considerar o jornalismo como um bem essencial ao bom funcionamento das sociedades. Nada disso. Na acepção imaterial do espaço público, a informação jornalística é, decerto, um vector estruturante. Num livro em que aborda o lugar dos jornalistas no espaço público, o investigador espanhol José Luis Dader considera que “a administração que os jornalistas fazem do espaço público é mais decisiva do que a administração social tradicional, embora seja esta quem dá as respostas definitivas”. Partilho esse ponto de vista, acrescentando que dele resultam maiores responsabilidades para o jornalismo, que tem, assim, de encontrar um ponto de equilíbrio entre as forças de mercado que lhe exigem audiências e a opinião pública a quem deve ser proporcionada uma informação que potencie um espaço público mais diversificado, mais participativo, mais imune ao voyeurismo e mais preocupado com as questões relevantes dos vários campos sociais. Entre os desiludidos e os optimistas, talvez valha a pena procurar um ponto de equilíbrio que exija um noticiário de mais qualidade: mais rigoroso no apuramento dos factos, mais isento de boatos, mais interessado em apurar aquilo que se passa.

Talvez o título desta crónica possa parecer exagerado àqueles que acreditam que “o mundo cabe nas notícias”. Não cabe. Nem o campo informativo é capaz de integrar a verdade daquilo que acontece. Apresenta visões. Que se querem isentas. Mas nem sempre o são. Porque há fontes de informação perversas. Porque há jornalistas impreparados. Porque há redacções sub-financiadas. Porque há uma opinião pública anestesiada.

Olho as notícias e penso muitas vezes que não é bem aquilo que eu preciso de saber. Não quero títulos de probabilidades, que abrem para acontecimento algum; não quero versões, sem verdadeiro contraditório; não quero mundos que não existem; não quero desenhos de pseudo-acontecimentos ao serviço de interesses de cortes ociosas. É certo que os jornalistas têm uma enorme responsabilidade social, mas eu, enquanto hipotética fonte de informação ou enquanto consumidora de notícias, também tenho um papel importante: de dizer e pugnar pela verdade, por um lado, e de exigir uma informação de qualidade, por outro.

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