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O que há em nós é um supremíssimo cansaço

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O que há em nós é um supremíssimo cansaço

Escreve quem sabe

2021-01-23 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

No documento “Fadiga pandémica: remotivando o público para prevenir a COVID-19”, publicado em finais do ano passado, contendo um conjunto de recomendações para os governos em matéria de política de prevenção e gestão de pandemia, a Organização Mundial de Saúde definiu a “fadiga pandémica” como desmotivação para manter os comportamentos de cuidado higiénico e proteção sanitária aconselhados pelas autoridades nacionais para enfrentar a crise covídica, resultante, em boa medida, do seu prolongamento no tempo e de emoções, experiências e perceções negativas a ela associadas.

Fadiga pandémica é, pois, uma noção de natureza mais psicológica que fisiológica e que se impõe de modo gradual. Na primeira vaga da pandemia, em março, lembram-se, bastava repetir, aqui e ali, “vamos todos ficar bem!” para nos tranquilizarmos. Na segunda, em outubro, começámos a ficar em desassossego, a sentir-nos en- casulados, claustrofóbicos, descoroçoados. Na terceira, aquela em que estamos mergulhados, a desorientação e o desânimo tomam conta do país, consternação que nem o “irritante otimista” Primeiro-Ministro consegue somaticamente disfarçar, como o seu desalentado semblante em intervenções públicas recentes deixou evidenciar. Boas intenções e grande empenho já não chegam. É cada vez mais óbvio que se perdeu o controlo da crise pandémica e estamos inteiramente à mercê da sorte.
Tornou-se difícil reagir. Para muitos, por se estarem a consumir num sentimento de injustiça. Usaram as máscaras, desinfetaram as mãos, mantiveram o distanciamento social, tal como parentes, amigos e conhecidos seus, mas acabaram num insuportável suplício hospitalar ou simplesmente foram derrotados pelo vírus.

Para outros, por terem visto as suas convicções religiosas, onde aprenderam a buscar conforto, ficar profundamente abaladas. Raciocinaram simplesmen- te assim: se Deus é o criador de todas as coisas – existem 52 passagens vetero e neotestamentárias a atestá-lo, desde Génesis 1:1, “No princípio, Deus criou os céus e a terra”, até Apocalipse 4:11, “Digno és tu, nosso Senhor e Deus, de receber glória e honra e poder, porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade elas existiram e foram criadas” – incluindo da Natureza, então também é o autor deste vírus, e desta pandemia e de toda este sofrimento e mortandade. E perguntaram-se dolorosamente: não podia Ele ter evitado este mal todo? E perguntaram-se também: porque não o fez/faz? Porque não pode? Nesse caso não é Deus ou, pelo menos, o deus que se julgava que era. Porque não quer? Seria desse modo um sádico. Porque não existe tal entidade? Aí sentiram quebranto.

Para outros ainda, por invejarem ser Aurora, a princesa imaginada pelos irmãos Grimm, que picou um dedo num narcoléptico fuso e adormeceu por cem anos ou, quiçá mais realisticamente, a jovem estadunidense Nicole Delien, uma das quase mil pessoas em todo o mundo, que padece de uma perturbação do sono rara, a síndrome Kleine-Levin, que a fez dormir em 2012 durante 64 dias seguidos. São todos aqueles que se sentem extenuados e que desejam ardentemente fechar os olhos, adormecer profundamente e só voltar a acordar quando tudo tiver acabado. É claro que estes correm o risco de se encontrarem, quando despertarem, na situação descrita por George Stewart, em 1949, no seu romance pós-apocalíptico Só a Terra permanece: Isherwood Williams, o protagonista, é mordido por uma cascavel quando deambula por uma floresta na zona de São Francisco, desmaia e quando recobra os sentidos descobre que a quase totalidade da humanidade e da civilização desapareceu.
Descansem, pois!

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