Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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O racista poeta, o soldado olhos-de-lince, e uma igreja em caravana.

A lampreia na Escola, uma aluna especial!

Ideias

2010-04-08 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Três perplexidades me assaltam na semana em curso.
Primeira perplexidade: ursinhos de peluche, ramos de flores, corações vermelhos, e velas, muitas velas, para Eugène Terre’Blanche, um homem que acreditava na supremacia branca a qualquer preço. Ninguém merece morrer como morreu, mas nem toda a violência do seu assassinato chega para tornar moralmente aceitáveis os seus valores, a sua prepotência colonialista, o seu profundo desprezo pelos negros, a sua arrogância contra a própria vida humana que não se conformasse à visão estrita que dela tinha.

Fundador nos anos setenta do Movimento de Resistência Afrikaner (AWB), Terre’Blanche defendia a criação na África do Sul de uma sociedade branca, a república Boer-Afrikaner, nem que para isso todo o país tivesse de mergulhar no lodaçal de uma guerra civil. Ursinhos de peluche, ramos de flores, corações vermelhos, e velas, muitas velas, para o homem que até era poeta, sensível portanto, mas que nada fez pelo sucesso da reconciliação (ainda e sempre ténue) da sociedade sul-africana, e cuja acção em vida se pautou pela negação sistemática dos Direitos Humanos e pelo perpetuar de rancores.

Segunda perplexidade: onze civis iraquianos mortos, entre eles um jornalista da Reuters, duas crianças feridas. Danos colaterais resultantes de um erro técnico, de um erro de percepção por parte de soldados norte-americanos. Dito assim, quase que se pode encolher os ombros e dizer: “o que fazer? É a vida. Acontece a qualquer um. A guerra é tramada.” Pois. Mas é impossível ficar indiferente ao ‘ups, passei por cima de um corpo’.

Yá meu, pois passaste. Deixa estar que toda a comunidade militar no mundo está contigo. Afinal, estás em cenário de guerra e isso supostamente desperta o teu lado instintivo. A culpa não é tua, é das ‘lavagens cerebrais’ que necessariamente tens de aguentar durante o treino, a bem da tua própria sobrevivência e da luta pelos Direitos Humanos em defesa dos quais és posto no terreno. Os jornalistas e os civis lamechas que pagam quotas para a Amnistia Internacional que protestem. A culpa não é tua, soldado, mas desses iraquianos malandros. Todos uns terroristas, a fazer de conta que andam com câmaras de filmar. Mas tu, soldado, tu viste logo a quilómetros de distância que eram Kalashnikov, modelo de 1947, as eternas AK-47. Olhos de lince. Até cheiras as granadas sem as veres, e ouves os disparos antes mesmo dos ‘terroristas’ se lembrarem que carregam ao ombro armas e não câmaras de filmar.

Terceira perplexidade: acusações de pedofilia contra membros do Clero católico tornam-se num assunto jornalístico quente; os casos de denúncias aumentam de dia para dia; os inimigos da Igreja não resistem a ver aí uma oportunidade de enfraquecer a sua capacidade de influência sobre o seu rebanho e de conquista de novos fiéis.

Enquanto isso, a Igreja comporta-se como a sua principal inimiga, somando gaffes e silêncios supostamente estratégicos que só fazem sentido para si mesma e para aqueles crentes que teimam em defender a instituição a todo o custo, como se o criticar a instituição pudesse algum dia equivaler-se a pôr em causa a sua fé. A Igreja tenta aplicar o velho provérbio ‘os cães ladram e a caravana passa’, acreditando que depois de todo o buliço, prevalecerá uma vez mais a força da Cidade de Deus, e se revelará o que não passam de intrincadas conspirações de judeus, ateus e afins espalhados pelo mundo.

Enquanto isso, fala-se cada vez menos nas vítimas. Aliás, para além do risco do esquecimento, as vítimas correm ainda o risco da desacreditação. Basta para tanto que surja um caso falso, um padre injustamente acusado, um mártir.

Aceitemos por instantes que o número de vítimas não seja tão elevado como alguns apontam; aceitemos também que poderá haver um número considerável de casos fictícios - uns ocultando vinganças contra padres, outros ocultando rancores contra a Igreja no seu todo. Aceitemos tudo isso já que afinal estamos a falar da natureza humana e dela tudo se pode esperar. Nada todavia diminui a dimensão do horror que temos diante dos nossos olhos.

Os noticiários desta semana falam em mais de 300 acusações de pedofilia que terão chegado ao Vaticano entre 2001 e 2010, correspondendo a cerca de 10% do total de casos apresentados nesse período. Saber que pelo mundo há muitas outras igrejas, seitas e movimentos, e muitas instituições não-confessionais em que abundam casos graves de abuso de crianças, jovens, e mulheres, em nada me consola relativamente ao que acontece na Igreja que eu sigo. Trezentos casos de abuso de menores por parte de membros da Igreja Católica são um número avassalador, mas o número nem importa, porque é toda a Humanidade que em cada uma dessas crianças, é ou foi espezinhada. Cada criança é santuário de inocência e de pureza, e por isso em cada criança está Jesus Menino. Então, profanar uma que seja é cuspir no rosto de Cristo.

É essa a essência da questão. A essência do que temos diante dos olhos não é o número de abusos, se mais cem ou menos cem; nem é saber como e quando a Igreja tem respondido, e se tem respondido, aos casos que lhe são reportados; nem é saber quantos casos serão verdadeiros e quantos falsos. A essência está no modo como, sem nos darmos conta, consentimos em nos desviarmos da vítima e em nos aproximarmos do escárnio sobre Cristo.

Assim, por estes dias, não posso deixar de pensar em como a nossa espécie é pródiga na contínua invenção de formas de se negar e auto-destruir. Nenhuma outra espécie consegue ir tão longe na concepção engenhosa da sua própria aniquilação, pela via da negação rebuscada do que a deveria distinguir e sublimar entre todas as espécies: a moral.

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