Correio do Minho

Braga,

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O rapaz e a bicicleta

O plano de recuperação e resiliência e “a nova normalidade”

O rapaz e a bicicleta

Voz aos Escritores

2021-04-09 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Um rapaz e a sua bicicleta. Um rapaz na sua bicicleta. Os dois como um corpo, só a rodopiar o espaço que a avenida larga, com passeio pedestre ambicioso, permite. O movimento circular, aparentemente aleatório, só fecundado pela vontade, aqui e ali, de contrariar o andar em frente. O corpo curva-se ligeiramente, inclina-se para um lado e para o outro, para não perder o misterioso equilíbrio decifrado por Newton.
Acima da sua cabeça um bando de pequenos corpos com asas voam em pequenos círculos, aparentemente aleatórios também. Parecem querer desenhar ideias indecifráveis para os mais racionais ou rotas novas, numa espécie de descobrimento dos céus. Poderia dizer que são andorinhas, mas a esta distância já pouco consigo decifrar e a luminosidade do dia está cada vez mais intensa.
O rapaz continua a rodopiar a sua infância, alheio a todos os males do mundo. Neste momento, neste pequeno instante, não há guerras, nem fomes, nem sedes. Não há violência doméstica, nem sexual, nem física, nem verbal. Não há pandemias, nem desemprego, nem pessoas sem tecto ou paredes para albergar a solidão. Não há pretensas crises políticas, mais criadas pela comunicação social do que pelos intervenientes, que procuram legitimar as suas perspectivas e responsabilizar uns e outros pelos seus votos distraídos auferindo de salários chorudos e representativos de uma nação em agonia. Que agonia em silêncio, numa descrença generalizada numa classe política que se esqueceu deles, oportunamente. Mas não se esquece deles na hora de recolher os impostos e não se esquece deles quando ficam bem por companhia numa fotografia. Espero que estes também não se esqueçam na hora de votar.
E o rapaz continua a circular o tempo que lhe permite ser simplesmente um rapaz a andar na sua bicicleta. Sem mais pruridos ou desejos. Aproximo-me num andar mais lento que me permite observar. O cabelo castanho com alguns caracóis a fugirem ao garote do capacete numa cara absolutamente comum, sem elementos dignos de destaque ou reparo. Dou por mim a fazer algo que faço desde sempre, imaginar realidades para este rapaz. Que família terá? Monoparental? Serena ou conflituosa? De bem com os consumos ou consumida por demónios? Terá irmãs ou irmãos?
Fixo mais o olhar, mas os seus traços não me permitem leituras. Apenas imaginar. Muitas vezes este gesto quase inconsciente criou situações menos agradáveis com as pessoas alvo deste passatempo, desconfortáveis com a observação mais prolongada do que aquilo que conscientemente contabilizava.
- Desculpe, pareceu-me ser alguém que conheço, mas já não vejo há muito tempo. Agora que falou vejo que não é.
Ando às voltas com as palavras como o rapaz com a bicicleta. Às voltas por um tempo sem maleitas nem desfeitas, sem malabarismos ou acrobacias, sem agruras ou malignidade. Sem violência. Sem mesquinhez.
Um tempo em que seja possível sentir um vento quente e justo, de alcance e conquista, de serenidade e plenitude. Onde todos possam circular rotas de descoberta e de encantamento.

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