Correio do Minho

Braga,

O Rapaz e o Crocodilo

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2012-08-11 às 06h00

Escritor

Por Hercus Pereira dos Santos

Certo dia um rapaz saiu de casa às 6 horas da manhã para ir buscar lenhas, como habitualmente, pois no local onde ele morava havia um costume. Esse costume consistia em os rapazes irem buscar as lenhas e as raparigas as águas para cozinhar, preparando assim as comidas para quando os pais voltassem das hortas. Cada um tinha a sua responsabilidade.
Nessa aldeia tão pequenita onde o rapaz vivia, a vida era simples e sem nenhuma complicação. Não havia competição, disputas, guerras nem qualquer conflito. Era uma aldeia pacífica, harmoniosa, unida e próspera onde os habitantes se entendiam todos bem, pois eram todos da mesma descendência. Assim, toda a gente se conhecia e respeitava, sendo que o pai do rapaz era o ancião mais velho, importante e também o líder desta aldeia.
Nesse dia, o rapaz quando foi buscar as lenhas, não voltou mais cedo para casa. Ele devia estar em casa antes das 11h da manhã. Como estava o dia tão lindo, apeteceu-lhe dar uns mergulhos nas águas cristalinas do mar que ficava perto, mais ou menos uma hora a pé da sua casa. Neste sítio as pessoas medem a distância não por metros ou quilómetros mas por minutos ou horas. Para chegar ao mar era preciso atravessar as florestas, subindo um pouco e depois era só descer as montanhas. As montanhas tapadas de capim.
Já eram 9 horas de manha. O rapaz pensava qua só ia passar uma hora nas águas e depois ia voltar para casa. Era só para molhar o corpo neste dia de tanto calor. Mas ele precisava de levar as lenhas para a sua irmã cozinhar o almoço para a família.
Quando ele chegou à praia, deixou as lenhas num bosque que ficava ali perto enquanto apreciava à sua frente as paisagens da natureza e o brilho das águas do oceano. Levantou a cabeça e tentou ver mais longe, mas o oceano não tinha fim. À sua frente não havia mais nada a não ser as águas do mar.
Enquanto apreciava o magnífico mar do oceano, repentinamente os seus olhos capturaram uma coisa que se mexia num outro bosque um pouco distante, mas era possível ver que algo se mexia ali. Curioso, ele aproximou-se para verificar o que era, mas ficou muito espantado e com medo pois tratava-se de um crocodilo. Um crocodilo gordo, longo e jovem.
Os seus olhos fixaram-se no crocodilo. Ele observou com muito cuidado e notou que o crocodilo estava a tentar andar de volta para o mar, mas infelizmente não conseguia por causa do sol e do cansaço. O sol batia forte nas areias fazendo com que estas se tornassem quentes, e dessa forma, o crocodilo já não tinha força para andar. Era difícil ele sair dali.
O rapaz estava com dúvidas sobre se ajudava ou não o crocodilo, mas tinha vontade de ajudar. Mesmo assim, tinha medo que o crocodilo lhe pudesse fazer mal e por isso estava a pensar não dar a mão ao crocodilo. Por outro lado, a sua consciência fazia com que não tivesse coragem de voltar as costas ao crocodilo perante tal situação.
O crocodilo estava entre a vida e a morte e o rapaz também não sabia como ajudá-lo. Mas ele sabia muito bem que se não o ajudasse, o crocodilo ia morrer de calor e de fome de certeza.
Parou um pouco para pensar pois estava de consciência pesada, tinha de ajudar o crocodilo. Assim, foi buscar uma planta que servisse de fio para atar à boca do crocodilo e passado alguns minutos foi ajudá-lo.
Com todo o cuidado o rapaz levou o crocodilo e deixou-o no mar desatando-lhe depois a boca. Quando ele lhe desatou a boca, o crocodilo olhou para o rapaz com um olhar de contente e de agradecimento.
- “Maromak selu!(1)” - disse o crocodilo.
O rapaz ficou muito espantado e com medo. Como é que um crocodilo podia falar, pensou o rapaz.
Enquanto o rapaz estava na sua dúvida o crocodilo continuava a falar:
- “ Sei que tu me estás salvar. Se eu não encontrasse alguém que tivesse essa coragem como tu, eu ia morrer. Por isso, para agradecer a tua bondade eu ofereço-me, se quiseres, para te levar às costas e dar um passeio no oceano”.
O rapaz não dizia nada. Ele ficou mesmo espantado e sem palavras por ter encontrado um crocodilo no mundo que falava.
Ele, por ver que o crocodilo fazia essa proposta com toda a sua honestidade, não pensou duas vezes e aceitou logo. Pois, para ele, era uma oportunidade muito rara e certamente não voltaria a ter a possibilidade de dar um passeio no oceano.
Não havia outra palavra para dizer se não um sim a esta proposta do seu novo “belun(2)”.
O rapaz saltou para cima do crocodilo e este já estava preparado para levar o seu amigo a conhecer o seu mundo. O crocodilo levou o rapaz mar a fora nadando minuto a minuto para cada vez mais longe da ilha do rapaz, até que chegou uma altura em que já não conseguia ver mais a sua terra natal. À sua volta era só mar, não havia mais nada para além do mar e do céu azul. Não tinha medo nem se preocupava com nada, estava tão contente que até já se tinha esquecido do seu trabalho, ir buscar as lenhas para casa.
Ele sentiu uma sensação muito agradável por andar nas costas do crocodilo a passear pelo oceano, era um dia inesquecível na sua vida, como se fosse um sonho. Era uma coisa mesmo inacreditável, não havia mais ninguém que pudesse fazer isso. Ele era o único no mundo a passear nas costas de um crocodilo e a dar-se bem com este.
Passadas algumas horas, enquanto o rapaz estava a apreciar admiravelmente este novo mundo do oceano, o crocodilo sentiu fome. Muita fome. Mas, infelizmente, não tinha nada para comer. Assim, ele começou a pensar em comer o rapaz. No entanto, a sua consciência começou a pesar-lhe, pois queria comer o rapaz que o tinha ajudado.
Desta forma, o crocodilo pensou que era melhor ir perguntar aos outros seus amigos do mar se ele podia comer o rapaz ou não.
- “Amigo tartaruga, achas que eu posso comer o rapaz?”
- “O quê?”
- “Como é que tu podes pensar em comer alguém que já te ajudou?”
- “Pois, mas estou com muita fome”. Respondeu o crocodilo.
- “Que vergonha essa tua ideia!”. Afirmou o velho tartaruga.
Passados alguns minutos a nadar mais a frente lá para o oriente, o crocodilo encontrou-se com um tubarão.
- “Então amigo tubarão, o que é tu achas se eu comer o rapaz?”
- “Não, amigo crocodilo!” O tubarão respondeu.
- “Porque não? Exigiu o crocodilo.
- “Eu sou conhecido como feroz pelos homens pois eles costumam atacar-nos. Os nossos antepassados ensinam-nos a ter cuidado com os homens e quando os encontrarmos, é melhor não lhes dar oportunidade para nos atacarem. Por isso é melhor atacarmos do que sermos atacados”. Explica o tubarão.
- “Mas, para este rapaz de bom coração, digo-te não!” Disse o tubarão com uma voz muito forte.
Não satisfeito com as respostas encontradas, ele continuou a nadar em direcção ao extremo oriente, mas já com poucas forças. Pelo caminho perguntou a quase todos os animais com que se cruzou, mas nenhum deles concordou com a sua ideia. Quando lhe apareceu uma baleia, ele achou que esta ia concordar com a sua ideia de comer o rapaz. Assim, aproximando-se da baleia perguntou:
- “Então amiga boleia, vou pedir-te um conselho. Tu estás a ver-me, estou muito fraco agora e vou ficar cada vez mais fraco, pois tenho fome. Muita fome. Todos os nossos amigos do mar não concordaram que eu comesse o rapaz, qual é a tua opinião?” - Perguntou o crocodilo à boleia.
- “Eu acho que a tua ideia é um horror. Eu já ouvi isso”. A baleia respondeu com toda a sua franqueza.
- “Mas, estou com…”
- “Vou-te dizer uma coisa. A baleia cortou a conversa do crocodilo. -“Se pensares assim, és um animal que não sabe agradecer o favor do rapaz que já te ajudou”.
- “Imagina, se ele não te ajudasse, tu já terias morrido”. Argumentou a baleia.
- “ Tu sabes uma coisa? A baleia ainda acrescentou. - “O homem é um ser de bom coração. Se soubermos viver com eles, eles nos tratarão bem”.
O crocodilo não respondia e estava em silêncio profundo. Se calhar ele estava a reflectir sobre tudo que a baleia lhe dizia.
Enquanto o crocodilo reflectia a baleia também observava a sua atitude.
- “ Garanto-te” depois de alguns segundos a baleia começou a falar. - “eu costumo brincar com eles, por isso eu sei muito bem que os homens são seres de bom coração. Tu também já podes ser um testemunho disso. Porque esse rapaz já te ajudou. Por isso acho que vais cometer um grande erro em pensar comer o rapaz.
Continuava a baleia a falar. - “Qualquer dia vamos todos morrer. É melhor morreres de fome e com dignidade e o teu nome permanecerá em toda a eternidade como um grande “belun” do rapaz. Todas as gerações do rapaz irão considerar-te com os teus descendentes como o “avô” para relembrar essa amizade entre ti e o rapaz. A vossa amizade durará até o fim deste mundo”. Por outro lado, se comeres o rapaz serás considerado ingrato para sempre.
As palavras da baleia eram forte demais para o crocodilo. Essas palavras penetravam até à sua alma. Quebravam o coração frio e feroz do crocodilo. O crocodilo arrependeu-se da sua má-intenção e ficou muito triste. Como é que ele chegou a pensar fazer mal ao rapaz que lhe tinha salvado a sua vida. Assim, caíram duas gotas de lágrimas dos seus olhos, que ao caírem sobre o mar logo se tornaram em duas ilhas pequenitas.
O crocodilo aceitou as ideias dos seus amigos. Ele estava arrependido por ter pensado comer o rapaz e assim decidiu que não ia comer o rapaz. Ele sabia que não ia ter muito mais tempo para viver. Ele ia morrer. Mas agora sim, ele ia morrer com dignidade e em paz. Mas antes de morrer, ele rezava ao Deus-Supremo para que quando ele morresse o seu corpo se tornasse numa ilha fértil para o bem do rapaz e de todos os seus descendentes. Ele pediu que essa ilha se chamasse Tímur que significava Lorosae, o mais oriente do oriente. Séculos mais tarde Tímur ficou conhecido como Timor segundo a pronúncia dos ocidentais.
O seu pedido foi aceite. Quando ele morreu, de repente, o seu corpo tornou-se numa ilha muito bonita, cheia de árvores perfumadas, que depois, séculos depois, um dos grandes poetas do mundo haveria de escrever “Ali também Timor, que o lenho manda Sândalo, salutífero e cheiroso.”
E não só porque o crocodilo sacrificou a sua vida para o bem do rapaz e para toda a sua descendência, então o Deus-Supremo que podia fazer de tudo, tornou as gorduras do crocodilo como potências para os poços de petróleo nesta ilha tão pequenita.
O rapaz casou-se com uma princesa de uma ilha vizinha e vivia feliz com a sua família. Ele ensinava sempre aos filhos que não podiam comer a carne do crocodilo e mais do que isso, os crocodilos deviam ser respeitados em qualquer lugar e em qualquer momento. Respeitar e honrar o crocodilo é uma palavra de ordem. Este ensinamento passava de geração em geração até o fim deste mundo.
É por isso que a ilha é chamada Timor e tem formato de um crocodilo. Ficaram ainda na sua posse mais duas ilhas pequenitas. Uma chamada Ataúro e outra chamada Jacó.

1- Forma antiga de dizer obrigado na região onde se fala idate. Literalmente se traduz como Deus paga. Ou seja, se uma pessoa faz um favor espera-se que esse favor seja pago um dia, qualquer que sejam as circunstâncias da vida. Pode ser pela salvação de um acidente ou uma pessoa qualquer que faça algo de bom por nós.
2- Belun: amigo, colega, pessoa conhecida.

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