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O regresso ao passado

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O regresso ao passado

Ideias

2023-06-19 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva Álvaro Moreira da Silva

Há muito que se vem promovendo a necessidade de mais e melhor literacia informática e que a transformação digital é etapa essencial para a evolução das nossas sociedades, empresas e até escolas. Vi sempre com agrado essa ambição. Desde cedo me apercebi que para sermos altamente competitivos teríamos de seguir a esteira de inovação e digitalização. Sinto, no entanto, que não obstante a necessária intenção de nos fazer crescer e a importância do digital, a tecnologia não deveria apoderar-se por completo da aprendizagem natural das nossas crianças e jovens, ou seja, sem qualquer auxílio da máquina. Tal como no passado não muito longínquo, ler um livro físico e escrever um texto à mão deveriam continuar a ser etapas essenciais no processo de aprendizagem individual.
Tenho lido e assistido a algumas notícias sobre a Suécia, país que, tal como os vizinhos Dinamarca, Finlândia, Islândia e Noruega costuma promover iniciativas interessantes e ambiciosas, focadas no desenvolvimento de hábitos saudáveis e inovadores na sua sociedade. Recentemente, assisti a uma notícia televisiva respeitante ao modelo de educação nórdico, iniciado depois da segunda guerra mundial. A notícia explanava questões pertinentes relacionadas com a escola inclusiva e a igualdade de oportunidades, motores essenciais para a potenciação de elevados níveis de capacidade de leitura e escrita. O tema era fraturante, se por um lado realçava o importante papel do computador, por outro alertava para a necessidade de crianças e pais se desconectarem dos écrans, de se moverem, de interagirem mais e melhor com a natureza aprendendo a denominar os seus elementos, de escreverem com caneta e lápis e de lerem livros físicos. Considero que a digitalização nos continua a trazer variados benefícios, que as ideias de transição e transformação são positivas e necessárias e que a literacia informática deve continuar a ser um parâmetro importante no nosso modelo escolar. Contudo, parece-me, também, que o atual modelo se encontra acorrentado à ideia universal de que o mundo continuará a ser pintado apenas de preto e branco, de zeros e uns, e que as crianças e jovens devem caminhar nessa avenida digital.
Sempre fui um verdadeiro apaixonado pelas tecnologias, desde os tempos do velhinho Sinclair ZX Spectrum 128K, computador suadamente oferecido pelos meus pais quando era miúdo. Ainda o preservo numa caixa dentro do armário, não tivesse sido ele um objeto desencadeador de memórias sensacionais com os fiéis amigos e família. Atualmente, o acesso às tecnologias de informação e comunicação está bastante mais facilitado. Veja-se, por exemplo, a iniciativa governamental de 2008, polémica, mas aparentemente bem-intencionada, relacionada com a disponibilização de computadores portáteis às crianças. Esta iniciativa apresentava como objetivos a promoção da igualdade de oportunidades e o colmatar das dificuldades de algumas famílias em adquirir um computador com acesso à Internet para os seus filhos. Na minha opinião, a ideia de investir no Magalhães e na promoção tecnológica, estava alinhada com a transição digital, muito embora a sua execução não tenha sido conseguida na plenitude.
Estou atento à proposta de regresso ao passado dos suecos, assente na transição reversa do ecrã para o livro físico. Esta orientação procura recuperar o conhecimento das crianças e jovens, aparentemente diminuído pelo crescente auxílio prestado pelas máquinas. Paralelamente, parece querer enaltecer o papel do livro na sociedade, salvaguardando a importância das editoras e do retalho livreiro.
Já dizia o poeta que uma casa sem livros é uma casa despida, insípida, limitada de conhecimento e ideias. É curioso que à medida que a idade avança, procuro seguir mais a visão do poeta! Na minha opinião, acredito que a aposta no digital é uma avenida importante, mas não se devem descurar as estreitas ruelas anexas à mesma, onde o conhecimento sobeja. Se o nosso governo facilitar o acesso a livros físicos e os pais incentivarem a sua leitura, mais crianças e jovens terão a oportunidade de desenvolver o gosto natural pela leitura e escrita em papel, potenciando as suas capacidades analíticas, interpretativas e de escrita.

*com JMS

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