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O regresso às aulas impele-nos a refletir sobre a importância da educação

A cor é Rosa!

O regresso às aulas impele-nos a refletir sobre a importância da educação

Voz aos Escritores

2021-09-10 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

No país mais ocidental da Europa,
neste lusitano torrão,
tu, criança, podes regressar à escola, em segurança,
rever os teus professores e os teus companheiros,
podes entrar na biblioteca, escolher um livro e aprender a lição.
Enquanto és livre para dizeres sim ou não,
para estudar, acreditar e sonhar,
pensa que, algures noutra parte do mundo, há crianças vítimas de exploração e outras que moram no silêncio do desvão.

É neste limbo de incerteza e de medo que há meses e meses coabitamos.
Há quem finja que vai tudo bem. Outros ensarilham-se no drama. Há os que se acobertam no silêncio, e os que explodem no grito ensurdecedor.
Estanciar na praia ao ritmo das ondas; saborear os ares do campo, a escutar a melodia dos pássaros, ou simplesmente a ler um livro, ao entardecer, são coisas simples, mas escolhas nossas. É ser livre e poder ter voz. É saber escutar o silêncio, os engaiolados na indiferença e o palco dos que são, há demasiado tempo, vítimas indefesas de um cenário de guerra.
Só se percebe a importância da voz quando se é silenciado.
E é na escola que essa consciência deve ser tomada logo de pequenino.
Agora que o regresso às aulas está iminente, lembremos a imensidão de crianças a quem o direito à educação é negado. Para além disso, o trabalho infantil continua a ser uma lamentável realidade.
Sim, estimada criança com direito ao regresso à escola, estou a falar contigo. E não estou a falar de quando tu fazes a tua cama, guardas os teus brinquedos e arrumas o teu quarto. Estou a falar de escravidão, de trabalhos de longa duração com finalidade lucrativa, que roubam a infância e impedem de estudar. Trata-se de trabalhos pesados, insalubres, perigosos e, por vezes, de atividades ilícitas que também utilizam as crianças, para o tráfico de drogas e para a exploração sexual.
Sabias que a Organização Internacional do Trabalho estima que cerca de 215 milhões de crianças no mundo trabalhem na indústria têxtil, em minas de carvão, na agricultura de cacau, em plantações de algodão, entre outros trabalhos pesados? Sabias que as multinacionais de renome ainda utilizam mão de obra infantil? Sabias que em países desenvolvidos as crianças de famílias de baixos rendimentos, principalmente filhos de imigrantes, são as mais vulneráveis? Com efeito, são os próprios pais que empurram as crianças para o trabalho infantil a fim de contribuírem para o rendimento familiar. Já pensaste que quando exibes uma certa marca de roupa ou comes um mero chocolate, algumas dessas multinacionais, donas dessas marcas famosas, já foram denunciadas por uso do trabalho escravo e infantil?
Depois da indústria têxtil, a indústria do chocolate é um dos setores que mais empregam crianças no cultivo e colheita do cacau.
Se é possível explicar a exploração da mão de obra infantil pela facilidade propiciada em setores informais da economia, como explicar que o mesmo tipo de crime ocorra em grandes companhias, com grandes marcas? Não deveriam fiscalizar os seus fornecedores? A verdade é que a mão de obra barata pressupõe aumento nos lucros. É isso que, no final, importa e, ao se aproveitarem da fragilidade social dessas crianças, contribuem para um ciclo perverso de pobreza que passa de geração em geração, intensificando-se com a situação atual em que vivemos.
E agora, a pergunta que paira: o que podemos fazer?
A solução está na educação, na escola. Temos de amplificar as nossas vozes! Estudar o porquê da situação atual, as suas implicações e garantir a mudança de mentalidades de que o mundo precisa.
Vale-nos como exemplo a ativista paquistanesa e mais nova vencedora do Prémio Nobel da Paz,
Malala Yousafzai, que quase perdeu a vida por querer ir para a escola.
Certamente, já ouviste falar dela, mas eu vou recordá-la aqui.
Malala cresceu entre os corredores da escola de seu pai. Era uma aluna brilhante. Quando tinha dez anos, viu a sua cidade ser controlada por um grupo extremista. Armados, eles vigiavam o vale noite e dia, e impuseram muitas regras. Proibiram a música e a dança, baniram as mulheres das ruas e determinaram que somente os meninos poderiam estudar. Todavia, Malala foi ensinada desde pequena a defender aquilo em que acreditava e lutou pelo direito de continuar a estudar. Fez das palavras a sua arma. Um dia, em 2012, no regresso da escola, sofreu um atentado a tiro.
Poucos acreditaram que ela sobreviveria, mas aconteceu.
Hoje é uma grande referência que demonstra como uma pessoa com educação escolar, com conhecimento e portadora de um sonho pode contribuir para mudar o mundo.

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