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O risco da dispersão educativa

A lampreia na Escola, uma aluna especial!

O risco da dispersão educativa

Voz às Escolas

2020-03-06 às 06h00

Jones Maciel Jones Maciel

À escola e aos professores é hoje pedido que, para além dos conhecimentos e capacidades a explorar no âmbito dos extensos currículos das diferentes disciplinas, sejam trabalhadas muitas mais dimensões, desenvolvidas com a boa vontade e esforço suplementar intenso dos docentes, que os conduzirá ao “burnout”, colocando em causa o desenvolvimento sustentado do próprio modelo formativo.
Já referenciei, aqui neste espaço e há uns meses atrás, a necessidade de trabalhar de forma diferente com os alunos de modo a contribuir assertivamente para a sua formação, em conformidade com o esperado no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO - homologado pelo Despacho 6478/2017). Reforçando a importância desse trabalho, gostaria hoje de partilhar convosco a preocupação de que não haja energias suficientes para levar a cabo essa missão, na sequência do “burnout” dos professores, não por causa desse trabalho em particular, ou melhor não apenas por causa desse trabalho, mas em função da obrigatoriedade dos professores responderem a muitos outros desafios.

Lembro que, associado ao esforço de inovar nas estratégias de trabalho, valorizando mais o papel do aluno, o professor deve também iniciar uma forma diferente de avaliar, aumentando o número e a diversidade dos instrumentos de avaliação, fazendo desta mais uma forma de promoção da aprendizagem, com feedback mas permanente aos alunos e encarregados de educação. Por outro lado, e conjugando essas duas componentes do processo de ensino-aprendizagem, deve responder de forma personalizada a cada um dos seus alunos, ajustando as estratégias e o processo de avaliação, de modo a contribuir para a superação das dificuldades específicas de cada um deles, para que todos tenham oportunidade de alcançar o sucesso. Isto, só por si e no contexto de abordagem do currículo disciplinar, área em que os docentes receberam formação especializada, já é uma missão complicada e exigente, a explorar num próximo artigo. No entanto, o professor é ainda desafiado a trabalhar com os alunos muitas outras áreas que vão para além da sua área pedagógica específica, desmultiplicando as suas áreas de intervenção.

A verdade é que à escola e aos professores é hoje pedido que, para além dos conhecimentos e capacidades a explorar no âmbito dos extensos currículos das diferentes disciplinas, sejam trabalhadas muitas mais dimensões, como por exemplo: Dimensão europeia da educação; Educação ambiental para a sustentabilidade; Educação do consumidor; Educação Financeira; Educação Intercultural; Educação para a segurança, a defesa e a paz; Educação para a igualdade de género; Educação para o risco; Educação para o desenvolvimento; Educação para o empreendedorismo; Educação para os direitos humanos; Educação para os media; Educação rodoviária; Educação para a saúde e sexualidade; entre outras.
Estamos a falar, como já perceberam, de educação para a cidadania.

Segundo Jorge Sampaio, citado por José Palma Ramos, “a cidadania é a responsabilidade perante nós e perante os outros, a consciência de deveres e de direitos, o impulso para a solidariedade e para a participação, o sentido de comunidade e de partilha, a insatisfação perante o que é injusto ou o que está errado, a vontade de aperfeiçoar e de servir, o espírito de inovação, de audácia e de risco, o pensamento que age e a ação que se pensa.”
Ora, se antigamente muitas destas áreas eram exploradas e desenvolvidas, naturalmente, em contexto familiar, num contexto de educação informal, hoje essa missão recai sobre a escola, que tem o dever de assegurar que “o sistema educativo responde às necessidades resultantes da realidade social, contribuindo para o desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos, incentivando a formação de cidadãos livres, responsáveis, autónomos e solidários…” (lei de bases do sistema educativo).

Analisando as necessidades identificadas e atrás enunciadas, pode questionar-se se haverá alguma a dispensar. Não me parece. Mas isso implica que, ao longo da escolaridade obrigatória, para além do muito curto tempo reservado para a “disciplina” de Cidadania e Desenvolvimento, as escolas e os docentes, em conjunto com os seus alunos, tenham que dedicar o tempo que não têm para “mobilizar contributos das diferentes componentes do currículo, cruzando conteúdos com temas da Estratégia de Educação para a Cidadania de Escola, dinamizando, Ações, Campanhas, Projetos, Programas e Parcerias com entidades da comunidade” (orientações para operacionalização da Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania), trabalhando as áreas de competência previstas no PASEO: Linguagens e Textos; Informação e Comunicação; Raciocínio e Resolução de Problemas; Pensamento Crítico e Pensamento Criativo; Relacionamento Interpessoal; Desenvolvimento Pessoal e Autonomia; Bem?Estar, Saúde e Ambiente; Sensibilidade Estética e Artística; Saber Científico, Técnico e Tecnológico; Consciência e Domínio do Corpo.

Assim sendo, muito trabalho nas escolas acaba por ser feito com a boa vontade e esforço suplementar intenso dos docentes, que, na minha perspetiva, os conduzirá, inevitavelmente, ao desgaste físico e mental decorrente da sobrecarga profissional, o que já vem sendo apontado em vários estudos que têm vindo a público.
Para que os professores possam dar um contributo efetivo, equilibrado e sustentado aos múltiplos desafios que lhe são apresentados, esta dispersão educativa não pode continuar e há que, por um lado, definir prioridades, desde logo dentro de cada escola, mas também e acima de tudo a nível nacional, redefinindo e reduzindo o número das aprendizagens essenciais disciplinares e, por outro, recuperando a responsabilização das famílias no trabalho de algumas da dimensões da educação para a cidadania.
Deste modo poderá ser libertado algum tempo para o trabalho de articulação disciplinar que se impõe com esta nova visão educativa, trazendo ao sistema algumas condições de equilíbrio para o desempenho docente.

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