Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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O ruído da Amizade

A recuperação das aprendizagens

Conta o Leitor

2021-08-02 às 06h00

Escritor Escritor

Rosa Pires

Há seres que vêm sem esforço nos nossos pensamentos e ficam ali serenos como folhas nas árvores que o vento afaga, ficam ali sem alarido silenciosos como o voo das aves. Mas num grande ruído que a amizade reconhece, como sons de mar que desaguam aos nossos pés.
Há pessoas assim que não aparecem por aparecer e dão o que têm de melhor dentro de si sem esperar nada em troca, sem exigências nem maltratar os seus semelhantes. E quando surgem vem de mansinho como passos de dança ou uma música suave que se ouve ao de longe. Dão abraços só com o olhar, choram as dores dos outros até mais que as próprias! Compreendem as atitudes sem rancor e não deixam perguntas sem respostas e não fazem do próprio silêncio uma batalha ou uma outra qualquer vingança sem sentido. Porque quando surgem assim silenciosas, na mente dos outros que as estimam, somente são elas próprias e dão as respostas do que se pressente e não lhes toca de tudo que as possam envolver ao seu redor.
Às vezes ficamos descrentes que ainda possam existir seres humanos assim, e corremos logo a compará-los com os nossos amigos de infância que são tanto como se nossos familiares, que nos aceitam e aceitamos, que ouvimos deles o bom e o mau, as alegrias e os momentos de aflição, mesmo que estejamos longos tempos sem os vermos, mas o sentimento está enraizado como os filhos, os pais, os irmãos.
Por vezes paramos uns momentos na azafama diária da nossa vida que pensamos que é perfeita e só a que importa realmente, e damos connosco a reconhecer que nos enganamos redondamente, que para além do nosso círculo restrito existem seres com quem poderemos aprender a ser tolerantes, a ser silenciosos e a refletir no próprio e ainda maior ruido dentro de nós mesmos.
Aquele ruido seja ele de grande felicidade por um filho que venceu um problema de saúde, um familiar que finalmente se sente realizado profissionalmente, ou vamos nós mesmos mudar de local de trabalho e mais alguns até demonstram que ficam contentes por isso, seja por bons sentimentos ou por desejos que finalmente saímos do pé deles.
Mas, há imensos ruídos que todos carregamos dentro de cada um de nós, que contam histórias estrondosas como se de uma orquestra se tratasse, com baixos e trombones que trazem tempestades que inundam tudo e só ela poderá abrir caminho, porque é a nossa.
Mas quando o ruido da amizade chega, costuma vir lento e sem dar nas vistas, prontifica-se à nossa frente de repente e faz nos baixar a guarda e quando damos conta a desconfiança deixa de ser relevante e já estamos de coração aberto, confiando nele cegamente, porque é como um som que relaxa e nos faz sentir bem, ultrapassando o nosso interior demasiado tumultuoso que tem ervas daninhas por aparar nos canteiros.
O ruido da amizade faz nos encher o peito de ar rarefeito e deita- lo fora mais purificado, cimentar pensamentos positivos e afastar os maus, abandonar os juízos que tentamos fazer acerca dos outros como se fossem todos iguais nas atitudes e formas de ser e agir, como os que não nos transmitem esse som, porque também há seres que não têm essa capacidade de nos fazer confiar e se não os podemos simplesmente eliminar das nossas vidas ou do nosso ângulo de visão, pelo menos poderemos sempre tentar que não entrem nos nossos pensamentos de forma arbitrária, ou se entrarem quando menos esperamos também, não lhes dar a importância que pretendem e reconhece-los como tal e fazer lhes ver que nunca serão bem vindos, porque nesta vida ainda temos um espaço livre nos nossos pensamentos e livre escolha de acolher quem neles queremos.
Pela vida fora todos nós deparamos com seres que se apresentam de rajada e que querem à viva força agarrar-nos e obrigar-nos a ficar a pensar neles como amigos.
Mas esses são as tais ervas daninhas que realmente importa aparar dos canteiros dos nossos pensamentos, porque os que realmente são nossos amigos são os que chegam sem contarmos, sem tempo nem horas, dão nos um bom dia desinteressado, não cobram o tempo que não lhe damos atenção só porque nos enviaram noticias deles, porque sabem aguardar por dias melhores ou o tempo certo para obterem respostas nossas.
Mas também há os que não nos respondem às nossas próprias solicitações, mas o ruido da amizade sabe reconhecer quem tem o som verdadeiro de uma música original, não precisa de se impor nem se confunde com outros sons.
Pela vida fora acabamos de saber e reconhecer os sinais e os sons de quem é realmente nosso amigo, sem máscara a encobrir-lhes os movimentos e as atitudes e, as palavras nem sempre serão necessárias, porque outras formas se manifestam para os reconhecer e que o tempo se encarrega de nos dar a verdadeira intenção ou estima escondida nos atos visíveis ou invisíveis que poderão ter para connosco.
Os verdadeiros amigos, não se impõe quando surgem de mansinho nos nossos pensamentos, são seres que chegam às vezes escondidos e tímidos, por vezes, até onde menos esperamos que eles estejam nos jeitos e formas que no início até parecem indiferentes à nossa presença e nem daríamos muito por eles.
Mas chegam e quando damos conta deles parecem que trazem tanto para nos dar ainda.

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