Correio do Minho

Braga,

O sapateiro... e a velha guitarra

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2014-07-01 às 06h00

Escritor

Félix Soares

Éa história de um sapateiro do tempo dos nossos avós. Homem divertido e bom tocador de guitarra. Logo na sua juventude, o Zé sapateiro destacava-se pelo seu bom carácter, mas também pelo seu lado boémio, estava presente sempre que havia uma concertina, na sua aldeia, mas também nas aldeias circunvizinhas. Já quarentão, casou com uma linda jovem da sua aldeia, que em poucos anos lhe deu muitos filhinhos, que vieram povoar aquela casa e dar alegria aquele lar.

O Zé, mesmo nos momentos difíceis continuava a ser uma pessoa divertida, a sua guitarra já velhinha, continuava pendurada no seu local de trabalho. Nos fins-de-semana, os clientes pediam que tocasse para eles. E durante muitos anos, veio sendo tradição ouvir música na casa do sapateiro, ao sábado à noite.

Os filhos foram crescendo e todos eles já ajudavam o pai na oficina, pois nesse tempo o calçado era feito artesanalmente sobre encomenda e o Zé era Mestre na sua profissão. A concentração era grande todos os sábados na oficina, pois se alguns iam buscar o calçado concertado, outros iam apenas engraxar os sapatos ou as botas, sendo recebidos em ambiente familiar, pois também a esposa participava nas tarefas da oficina nos fins-de-semana.

Os filhos do sapateiro nasceram e cresceram em ambiente de festa e também eles gostavam de ouvir o seu pai tocar a velha guitarra e sua mãe cantar, a casa do sapateiro era a mais divertida da aldeia e sempre que se ouvia música logo diziam, é na casa do Zé sapateiro e assim foi durante muitos anos. Mas um dia, os clientes foram surpreendidos com uma nova guitarra pendurada no lugar da outra velhinha, que eles estavam habituados a ouvir e ficaram contentes, pensando, que com a nova guitarra, o Zé iria tocar mais vezes.

E logo no fim-de-semana seguinte, todos olhavam para a nova guitarra e pediam ao sapateiro para tocar, mas ele não tinha alegria para tocar, também já não tinha a família reunida à sua volta como era habitual e a sua esposa mostrava-se muito preocupada sem alegria para cantar.

Todos comentavam a onda de tristeza que se abateu sobre aquela casa, mudando o comportamento do Zé sapateiro mas também da família. Se uns compreendiam e respeitavam, outros diziam; Naquela casa entrou grande bruxedo, talvez mal de inveja e a casa do sapateiro começou a ser vista com uma certa desconfiança. Os clientes voltavam sempre, pois o Zé era o único sapateiro na aldeia, mas também um homem bom. Era pois com menos entusiasmo que os clientes voltavam à oficina do Zé. Olhavam a nova guitarra pendurada, mas já não ousavam pedir ao sapateiro para tocar.

Passados alguns meses, os clientes do sapateiro voltaram a ver os seus filhos a trabalhar na oficina e para seu espanto, a nova guitarra tinha desaparecido, dando lugar à velhinha guitarra, que tanta alegria tinha dado aquela gente. A notícia depressa correu a aldeia e no sábado se-guinte, foram muitos os curiosos a irem engraxar os sapatos, só para se certificarem se era a velhinha guitarra que estava lá pendurada.

Foi surpresa para muitos encontrar o sapateiro feliz na sua oficina, rodeado pela sua família, mas havia uma pergunta que todos tinham vontade de fazer. O que se teria passado naquela casa? O sapateiro viu que todos estavam curiosos por saberem a razão de tal comportamento. O Zé sapateiro ao ver todos aqueles olhares interrogativos sorriu e em resposta, foi buscar a velha guitarra vol-tando a tocar e a cantar com a sua família, para admiração de todos.

Mas mesmo se a casa do sapateiro voltou a ser o que era, a curiosidade de muitos continuava intacta, não perdendo uma oportunidade para saber sempre mais alguma coisa, da família do pobre sapateiro. Só mais tarde, se veio a saber a verdadeira razão da tristeza que se abateu sobre aquela família. Foi uma grande surpresa para todos, ao saberem que o Zé sapateiro tinha ganho a Lotaria.

Sim, foi verdade. Era esse o motivo da nova guitarra e da quase desagregação da sua família, o dinheiro mesmo não sendo muito, mudou o comportamento dos seus filhos e o velho sapateiro já não tinha alegria para transmitir, aos amigos que o rodeavam. Mas o dinheiro acabou e os filhos voltaram à casa do pai, trazendo de volta a felicidade aquela casa.

Alguns anos mais tarde, já com os cabelos brancos, o velho sapateiro fazia uso da sua sabedoria dizendo! Podemos ter muito dinheiro, o mundo inteiro ao nosso dispor, mas se não nos sentirmos amados, não somos felizes. E então, não teremos a maior riqueza do mundo. A felicidade.

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