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O Senhor Comendador

As bibliotecas e as leituras no verão

O Senhor Comendador

Escreve quem sabe

2024-01-21 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Fosse o Chega um negócio e o Andrezito um patrão dos que dão emprego a muita gentinha, e um destes dias da Raça teríamos Sua Excelência de serviço a impor-lhe comenda ou colar. Enaltecer-lhe-ia o rasgo, a oportunidade aproveitada, o valor acrescido, o apego às origens, as sem-cerimónias, o linguajar franco e, acima de tudo, a emoção suscitada de alto a baixo em corrido País. Ah! E não falharia a referência ao exemplo perene para as jovens gerações.
Eu teria preferido que o Andrezito fosse o CEO de uma chafarrica de garagem montada a unicórnio, e teria adorado trabalhar nos RH da coisa, porque fosse sempre com alívio que botasse arroto a sardinhas e pimentos nos tramitares de um Conselho de Empresa, e que escândalo hipócrita não suscitasse o escandir de expressão forte apropriada a um impasse ou revés. Gosto puramente académico o meu, entenda-se.

O ramo do Andrezito é outro, como sabemos. No ramo do Andrezito só passam incólumes os desmandos do PS. Contornando resenha exaustiva, bastariam, por exemplo, os pés pelas mãos do PNS nos affaires da TAP para o isentar de mais se preocupar com os destinos da Nação. Bem esticado o argumento, poderíamos arriscar que nem com letreiro de «nova gerência» a Cantina do Rato atrairia sem-abrigo com senha para sopa popular. Mas não, porque sem cicatriz se regenera a Loja da Rosa, isto sem que quem quer que seja se interrogue sobre a natureza do milagre.
Milagre, que o é para eles, em exclusivo, não para o lusito em geral, que pena, que continua a saltar para fora, ou a ver os filhos saltar, porque pingue no casebre mal telhado, porque assobie por frestas, porque nem para três chegue hoje a sardinha. Algo melhoramos, entretanto, porque vai hoje o engenheiro, quando décadas atrás ia o trolha, vai hoje a enfermeira, quando antes marchava a criada, vai hoje o analista financeiro, quando antes ia o porteiro e mestre de sete pequenos ofícios para desenrasque.
Surpreendi nas páginas do Público a incredulidade de um comentador: mas para onde tinham ido as bandeiras fétidas do Andrezito – os ciganos, os emigrantes, a escumalha de múltipla proveniência? O comentador em causa não é adepto da Rosa, embora tenha tomado Costa por babysitter, o que foi bem achado, porque até lhe caia como uma luva o papel de Avô Cantigas. Mas para onde tinham ido, então, os arranques de espalha-brasas do Andrezito? Penso, por mim, que os tenha arrumado por em gaveta muito igual àquela em que o magistral Soares arrumou o Socialismo.
Ora, contas feitas ao tostão, pouco ao de lá ia o socialismo de Soares, do que para erodir a base de apoio do PCP, da mesma forma como por instrumentais podemos tomar as causas patriótico-homo-rácico-xenófobas do Andrezito, que mais não serão que levadas para lhe fazer chegar a água às pás da azenha.
Isto dito, gostava de vincar que não endosso o Andrezito nem lhe faço a apologia. Limito-me a tarear a balança, para que cada um abrace o exercício de conferir com que padrão compra e deita para o saco.
Paralelamente, e pelo grotesco das comparações, quero sublinhar que muito se incomoda com o explodir da direita extrema, quem pouco tem feito para zurzir o arrastar de pés de quem nos vai empurrando para o beco em que nos encontramos.
Assim, e a quem muito se escandaliza com os florires vivazes do lepenismo em França, eu arriscaria sugerir que passassem por lá uma temporada. Se ao abécula do Obama se seguiu o trambolho do Trump, não estou eu certo que por bem não se faça a substituição do Macron pela Le Pen.
Quanto a nós, contudo, estou tranquilo – o Chega não tem substância. Comenda, só de latão.

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