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O sentido da técnica e do humano e a política científica

Criado... não aceita mau destino

O sentido da técnica e do humano e a política científica

Ideias

2020-02-17 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

Na livraria Flâneur no Porto, uma livraria com ressonâncias baudelairianas, sendo Baudelaire o poeta romântico por excelência, que nos desafia ao devaneio e à deambulação, foi apresentado a 14 de fevereiro o livro Fundamento e Imersão, uma publicação com a chancela da Orfeu Negro.
Do que se trata neste livro é de pensar a técnica e as tecnologias da comunicação. Interroga-se a sua materialidade, e não as suas utilizações. A sua natureza, e não as suas aplicações. Enfim, pensa-se o que é a técnica, e não aquilo para que ela serve.
Pensar a técnica e a tecnologia constitui a mais radical interrogação que podemos formular sobre o humano. Porque não existimos sem a técnica. E também porque somos como indivíduos e como comunidade o resultado do nosso confronto com ela.
São autores de Fundamento e Imersão, Bragança de Miranda, José Pinto, Luís Cláudio Ribeiro e João Carrilho, todos professores de Ciências da Comunicação na Universidade Lusófona, além de Jussi Parikka, investigador finlandês da Universidade de Southampton, que escreve sobre estética e cultura da técnica, e ainda Wolfgang Ernst, renomado investigador alemão, de teorias do arquivo e de bases de dados eletrónicas.
A técnica é a forma de exteriorização do humano. É uma resposta instintiva às limitações humanas, um artifício histórico, que assinala a diferença humana específica relativamente ao contínuo da vida biológica. Enquanto artificialidade produzida pelo homem, a técnica projeta órgãos e próteses, extensões humanas, como escreveu em tempos McLuhan. Mas nos nossos dias aconteceu uma outra coisa à tecnologia. Com uma aura de sex-appeal e um prestígio de toque de Midas, que tudo transforma por magia, a tecnologia é hoje um messianismo, que não remete para mais nada. E como nada a limita, apresenta-se-nos como a única esperança.
Os autores de Fundamento e Imersão são todos pensadores. E é admirável que um projeto desta natureza tenha sido acolhido e apoiado por uma Universidade, a Universidade Lusófona. Porque a Universidade é cada vez menos a casa do pensamento. Em 1987, Alain Finkielkraut publicou A derrota do pensamento. Mas tem muito mais sentido convocar o Professor António Coutinho, no contexto nacional de Imersão e Fundamento, que é uma obra sobre o primado do pensamento.
António Coutinho é um médico imunologista. Criou e dirigiu a Unidade de Imunobiologia no Instituto Pasteur em Paris. Dirigiu, também, o Instituto Gulbenkian de Ciência, em Portugal. Durante o XIX Governo constitucional de Portugal (junho de 2011 a outubro de 2015), sendo Passos Coelho o Primeiro-Ministro, coordenou o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, um órgão consultivo de cientistas, que teve como missão aconselhar o Governo em matérias transversais de ciência e tecnologia. Na altura, era preocupação do Primeiro-Ministro estabelecer um plano de ajustamento para a Ciência. E deu conta desse plano à Agência Lusa (09/11/2011), nos seguintes termos: iria fazer alterações ao modelo de financiamento das unidades de investigação, concentrando os apoios financeiros onde eram “cientificamente mais rentáveis”. A consequência imediata foi a de as Ciências Sociais e Humanas passarem a ser financiadas a 15% do total do financiamento público para a Ciência, e não a 22%, como até então.
Passaram anos. A seis de junho de 2018, António Coutinho concedeu uma entrevista à Folha de São Paulo, cujo título sintetiza o seu ponto de vista: “A filosofia não é ciência e está fadada a desaparecer”. E refletindo especificamente sobre o método científico, diz o seguinte à Folha de São Paulo: “a singularidade está totalmente incluída na racionalidade. Em geral, a humanidade tentou de forma predominante perceber as coisas, ou pela mágica, ou pela religião”. E embora o objetivo da filosofia seja o mesmo que o da ciência, “explicar o mundo e a nós próprios”, a filosofia “nunca progride”, porque “nós temos um bom processo” e os filósofos “não têm”. Em conclusão, “O que é o objetivo da filosofia vai ser resolvido pela ciência, e a filosofia vai passar à história”.
Ora, António Coutinho confronta-nos aqui com uma questão deveras inquietante: estão ainda dentro da história e da modernidade aqueles que fazem do primado do pensamento o ponto de partida para uma reflexão sobre a técnica, a tecnologia e a comunicação, ou pelo contrário já passaram à história".
Bem sei que podemos argumentar, contra António Coutinho, que não constitui, passe o paradoxo, pequena metafísica, fazer da ciência uma crença absoluta e do positivismo uma religião. Podemos mesmo dizer que se trata de um pensamento demasiado serôdio, dado que a sua origem se situa nas primeiras décadas do século XIX. O pensamento de que António Coutinho se faz portador foi estabelecido em 1830 por Auguste Comte, ao estabelecer, no Curso de Filosofia Positiva, uma religião positivista. E para que não houvesse dúvidas de que se tratava de uma religião, chamou-lhe Religião da Humanidade e dotou-a, em 1854, de um Catecismo Positivista. Comte explica que o espírito humano emprega sucessivamente, em cada uma de suas investigações, três métodos de filosofar: primeiro, o método teológico; em seguida, o método metafísico; e finalmente, o método positivo. A lei dos três estados conduz, na visão de Comte, ao advento da Era Normal, onde a humanidade alcançará o estádio evolutivo final (o estádio positivo), caraterizado pelo predomínio da Religião da Humanidade.
Pois bem, Fundamento e Imersão, um magnífico livro de filosofia da técnica (e eu acrescentaria da tecnociência) não quer saber da religião da ciência e da tecnologia, nem da sua racionalidade soberana, a qual todavia faz passar à história, tanto o livro como os seus autores.
E, todavia, esta religião da ciência e da tecnologia está cada vez mais implantada no sistema científico português, e particularmente nas Universidades. É nas Universidades que estão instalados os principais laboratórios de investigação. E é sobretudo aí que se vai deixando de ter pensamento, para apenas se exibir números. Gerida como uma empresa, a Universidade passou a estar por conta da tecnologia, não havendo mais mundo de desempenho académico que necessidades de mercado, injunções financeiras, rankings, fundados numa quantofrenia desgraçada, e também agências de rating, que valorizam a produção científica na base de uma religião, que presta culto aos números.
Fundamento e Imersão é um corpo estranho no atual contexto da Universidade e da comunidade científica. Porque nos convoca a um debate soberanamente necessário sobre a natureza da tecnologia. Não deixemos, todavia, de fazer esse debate!

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