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“O silêncio das coisas…”

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“O silêncio das coisas…”

Ideias

2022-10-31 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Num fervilhar constante de actividade, o mundo não pára de nos surpreender e dar razões para produzir reflexão e comentários, críticas e elogios. Sempre foi, assim, talvez nunca com a velocidade e a voracidade com que tal hoje se regista.
Acresce que, pelo menos aparentemente, tudo se vai destacando pelo impacto e presença momentânea em tudo o que é exposição pública, numa hipervalorização “da coisa” que, tantas vezes, não corresponde à sua essência e ao seu valor, ao seu fim (ou seja, para que serve), *a sua riqueza (ou seja, o seu valor intrínseco), num jogo de visibilização e partilha em que o mais importante é a visualização e a quantidade daqueles que vêem e comentam, é o impacto no imediato e o seu egeito… que, tantas vezes, se esfuma na exacta medida do real significado “da coisa”. Talvez por isso, vivamos um dia a comentar, a falar e a reflectir sobre algo que parece absolutamente central e incontornável, fatalmente importante para as nossas vidas e, no dia seguinte, por artes mágicas, acordemos já a ouvir falar “de outra coisa”, esta sim, a mais importante, fazendo omitir e esquecer aquilo que tão importante era na véspera.

Tempos difíceis de entender estes, tempos complexos para escutar, participar, decidir e governar, parecendo que só o que é visível, comentado e exibido é que é importante. Tudo o resto é secundário, de uma maneira ou outra…
Por isso, surge como tão surpreendente quanto afirmativo e relevante alguns sinais de “coisas silenciosas” que vão emergindo (ou se assinalam) tenuemente e que todos aqueles que se preocupam com o bem público devem aproveitar para dar protagonismo, destaque e gerar debate e reflexão, contribuindo para a sua valorização e percepção da importância e impacto na vida de todos nós.
A reorganização dos serviços de saúde, educação e justiça volta a estar em reflexão e novo encerramento de serviços sectoriais volta a ser colocado como forte hipótese em nome da racionalidade económica do serviço e da gestão, fatalmente, em áreas ditas “de interior”, onde a distância é maior que a soma de quilómetros e a qualidade de vida (que o ambiente, a cultura local, a noção de terra e sentido de pertença) não supera a exigência da existência de equipamentos que sirvam as necessidades básicas da população, nomeadamente saúde, educação e justiça.

Não estando em causa “olhar criticamente” para o território, para os meios e possibilidades do país, e, consequentemente, reorganizá-lo em nome da eficácia e eficiência, não se nega que tal só pode (deve) ser feito com justiça espacial e territorial, atendendo à especificidade de cada lugar e das suas gentes. Numa citação livre do geógrafo João Ferrão “não podemos encerrar todos os serviços nos mesmos sítios, as pessoas não podem ser prejudicadas em função do local onde nasceram”.
Este tema é recorrente e, regra geral, resulta sempre igual: depois do ruído e contestação iniciais, em silêncio, os serviços vão fechando nos mesmos sítios, nas mesmas regiões, e vai-se produzindo (ou acentuando) a litoralização silenciosa do pais. E a coesão territorial vai-se afirmando cada vez mais vazia no discurso político, já que, na realidade, só pode existir coesão territorial se existirem pessoas…

Ao nível local, foi notícia forte intervenção em infraestrutura rodoviária estruturante da capital do distrito. E destaca-se a notícia, não pelo seu valor em si mesmo, pela relevância do investimento financeiro ou pela qualidade perspectivada da solução de arquitectura e engenharia, mas “simplesmente” porque, tantas vezes, estas infraestruturas (independentemente de se concordar ou não com a solução adoptada na sua génese, essenciais para a vida quotidiana da cidade) são silenciosas e invisíveis, sendo dadas como adquiridas, estando lá, simplesmente e da mesma forma e desempenho ao longo do tempo, para uns (população) sem necessidade de intervenção (porque existem “porque sim, por artes mágicas, não carecem de investimento, ou melhor, a sua manutenção dá-se sem mais”), para outros (decisores e gestores políticos) implicando um investimento de difícil visibilidade e retorno “imediato”, sem o impacto que outras intervenções geram e tão mais agradam.

Por isso, quando tratamos destas infraestruturas que damos como inatas e perenes, sem nos questionarmos o quanto precisam de ser alimentadas e cuidadas, prestamos serviço público e velamos pela qualidade de vida da cidade, mesmo que pouco visível seja… e assim fazemos política, na verdadeira e real acepção da palavra!
Há quem viva a vida num afã de protagonismo e visibilidade nem sempre na correspondência da sua relevância e mérito. Outros há que optam por se refugiarem num “silêncio visível e audível”, que nos alerta e nos interpela pontualmente, mas que, por sabedoria, em momentos certos e oportunos.
Há também aqueles que vão construíndo o seu conhecimento e saber, expondo-o ao serviço da comunidade, dando o seu contributo, não impondo o seu dogma.

Adriano Moreira foi um desses homens! Não sei se o acompanho na globalidade do seu pensamento, tenho a certeza que o seu percurso de vida não está isento de erros ou desvios, duvido que não tenha caminhado sem coerência ou convicção, sem saber o que queria e para onde ia, independentemente dos resultados alcançados, independentemente do que os “conselhos” apontavam para melhor e mais rápida e facilmente atingir os seus objectivos. Acre- dito que não escolheu o caminhos mais fácil ou mais difícl, simplesmente escolheu o seu.
Foi coerente com tal! E feliz é o tempo em que essa coerência coincide com a qualidade do pensamento. Coerência e qualidade resultam em densidade e sabedoria. Aquilo que encontramos em Adriano Moreira!

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