Correio do Minho

Braga, terça-feira

O Sínodo sobre a Família e o Cidadão

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Escreve quem sabe

2014-11-14 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

O Papa Francisco, no encerramento do sínodo dedicado à família, num texto intitulado «Esta é a Igreja, nossa mãe!», dirigiu-se aos participantes sinodais afirmando: “vivemos verdadeiramente uma experiência de «Sínodo», um percurso solidário, um «caminho conjunto». E, como acontece em todo o caminho - dado que se tratou de um «caminho» -, houve momentos de corrida apressada, como se se quisesse vencer o tempo e chegar quanto antes à meta; momentos de cansaço, como se se quisesse dizer basta; e outros momentos de entusiasmo e ardor.

Houve momentos de profunda consolação, ouvindo o testemunho de autênticos pastores, que trazem sabiamente no coração as alegrias e as lágrimas dos seus fiéis. Momentos de consolação, graça e conforto, ouvindo os testemunhos das famílias que participaram no Sínodo e compartilharam connosco a beleza e a alegria da sua vida matrimonial. Um caminho onde o mais forte se sentiu no dever de ajudar o menos forte, onde o mais perito se prestou para servir os demais, inclusive através de confrontos.“

Esta mensagem do Santo Padre parecer ter sido escrita para qualquer um de nós, no que toca à nossa vivência familiar, profissional e social, quaisquer destes momentos, enunciados de forma simples mas incisiva, estão presentes nas nossas vidas, por vezes sobrepondo-se, criando uma geometria variável quanto à importância que vão assumindo, tal como as “tentações” que o Papa enumera na continuação do referido texto:
“Mas, tratando-se de um caminho de homens, juntamente com as consolações houve também momentos de desolação, de tensão e de tentações, das quais poderíamos mencionar algumas possibilidades:
A tentação do endurecimento hostil, ou seja, o desejo de se fechar dentro daquilo que está escrito (a letra) sem se deixar surpreender por Deus, pelo Deus das surpresas (o espírito); dentro da lei, dentro da certeza daquilo que já conhecemos, e não do que ainda devemos aprender e alcançar. Desde a época de Jesus, é a tentação dos zelantes, dos escrupulosos, dos cautelosos e dos chamados - hoje - «tradicionalistas», e também dos intelectualistas.

A tentação da bonacheirice destrutiva, que em nome de uma misericórdia enganadora liga as feridas sem antes as curar e medicar; que trata os sintomas e não as causas nem as raízes. É a tentação dos «bonacheiristas», dos temerosos e também dos chamados «progressistas e liberalistas».

A tentação de transformar a pedra em pão para interromper um jejum prolongado, pesado e doloroso e também de transformar o pão em pedra e lançá-la contra os pecadores, os frágeis e os doentes , ou seja, de o transformar em «fardos insuportáveis».

A tentação de descer da cruz, para contentar as massas, e não permanecer nela, para cumprir a vontade do Pai; de ceder ao espírito mundano, em vez de o purificar e de o sujeitar ao Espírito de Deus.

A tentação de descuidar o «depositum fidei», considerando-se não guardiões mas proprietários e senhores ou, por outro lado, a tentação de descuidar a realidade, recorrendo a uma terminologia minuciosa e uma linguagem burilada, para falar de muitas coisas sem nada dizer! Acho que a isto se chamava «bizantinismos».”

A pesar deste quadro ser um verdadeiro espelho, Francisco não deixa de concluir esta fase da sua reflexão partilhada com uma nota de esperança e de confiança: Caros irmãos e irmãs, as tentações não nos devem assustar nem desconcertar e menos ainda desanimar (...). Pessoalmente, ficaria muito preocupado e triste, se não tivesse havido estas tentações e estes debates animados (...), se todos tivessem estado de acordo ou ficassem taciturnos numa paz falsa e quietista”.

Cada um de nós, ao longo da sua caminhada de cidadão ativo, convive com estes momentos de «alegria» e de «tentação» - vida é mesmo assim! O importante é que o Amor, colocado na nossa ação quotidiana, contribua para deixarmos o mundo um pouco melhor do que o encontramos e para a felicidade dos outros.

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