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O tasco e a tasca

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O tasco e a tasca

Voz aos Escritores

2021-06-18 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Ainda hoje não sei se era tasca, ou era tasco. Talvez porque a dona Aninhas apimentasse o pernil, a malta efeminava o nome, mas há com certeza particularidades linguísticas capazes de clarear as coisas. Os machistas, já sabemos como é, têm em si o masculino, e jurarão que tasca ou tasco não são bem a mesma coisa. Que isto de feminino e masculino tem muito que se lhe diga. A maioria dos portugueses jurará que o género está marcado no final das palavras, e até tem alguma razão. Com efeito, no geral, se a palavra termina em «o» é masculina, se em «a» é feminina.
Mas acautelem-se, ó distraídos da língua! Quem marca o género são os nossos queridos determinantes, e só assim se compreende que o poema termine em «a», mesmo se determinado com «o». Dizia-me há tempos o Fernando Pessoa que há grandes sombras na horta, e sugeria que retirássemos do «horto mundo os depredandos pomos». Achei estranho o adjetivo «mundo», significando com certeza «imundo» (daí os pomos depredandos), mas mais estranho achei o uso de «horto» e «horta», que o leitor saberá distinguir nos seus subtis significados. Porque estou atento à coisa, admirado fiquei quando a menina do hipermercado se saiu com afirmação equivalente: ó senhor, quer uma saca? Fiquei logo a pensar que sim, que queria um saco. Uma saca, um saco. Que traços semânticos distinguirão uma saca de um simples saco?
O problema ultrapassa esta distinção subtil de significados entre palavras que parecem ser a mesma em todos os contextos. Parece. Há, porém, fenómenos de homofonia e até de paronímia que complexificam e alteram todo o raciocínio másculo-feminista. Por exemplo: se eu estou com o toco, porque me hei de meter numa toca? Não faz sentido, pois não? A não ser que, por causa da tola, eu passe por tolo, o que por vezes acontece. A minha Micas, sempre à espera do meu estiramento camal, bem me diz levanta a peida, faz alguma coisa, por amor de Deus. E eu fico logo a pensar na relação entre a peida e o peido, que a há, certamente, mas não genérica, que um não é masculino de outra. Que querem, a Micas caiu-me no goto, casei com ela, e não foi por causa da gota, que eu de álcool não percebo nada. Eu evito sempre dizer algo que a possa ofender, saio de mansinho (sem saia, claro, que ainda não cheguei a esse ponto), molho os pés nas ondas e apanho a alga costumeira para estrumar a rosa que medra lá no cantinho da varanda. Digo-lhe, alto lá, ó meu amor, ainda não tive alta, estou em baixo, estou de baixa, não é justo que me ponhas a trabalhar nestas condições.
Na sua psicologia difícil de compreender, eu acho que ela acha que deito achas na fogueira com as minhas reações, mas juro que não é nada disso, às vezes é do juro que pago, não em dinheiro, claro, que nisto de relações os juros são de diferentíssimo quilate.
Como veem, caros leitores, há uma diferença bem significativa entre o arco da entrada da minha casa, a abarrotar de buganvílias vermelhinhas, e a arca sem nenhum tesouro que lacrimeja lá no canto. Arco e arca, sendo irmãs homofónicas, não se relacionam em género gramatical. Se assim não fosse, a cavala teria crina e relincharia na ressonância espinal dos profundos oceanos.
Do mesmo modo, a crista altiva do meu galo lembraria, sei lá, um cristo ensanguentado de tanta picadela. Atenção, pois: um bando de gambozinos não é uma banda de música, como diria o nosso grande heterónimo; um barbo, ciprinídeo que gosto de saborear, não é uma barba (essa faço-a todos os dias, porque ela arranha, como a aranha); um bombo não é uma bomba, porque o primeiro ressona e a segunda mata; finalmente, um esquadro não é uma esquadra, e nem preciso de explicar porquê. Donde se conclui serem os sistemas lógico-gramaticais altamente ilógicos, a obrigarem-nos a exercícios de inteligência que nem sempre nos apetece praticar.
Para suavizar, saboreio um figo, enquanto faço, piscando um olho malandro, uma finória figa.

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