Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

O tempo e o legado…

O símbolo internacional (quase universal) do amor

O tempo e o legado…

Escreve quem sabe

2020-09-07 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Neste regresso aos textos e escrita quinzenal para o Correio do Minho, e neste primeiro momento, ocorre escrever sobre o tempo e os seus modos: o tempo que vivemos, o tempo que nos surpreende e nos suspende, o tempo que nos entusiasma e nos motiva, entre tantos outros. Todavia, surpreendentemente, somos apanhados pela capacidade sempre infinita da vida de nos oferecer perplexidade com acontecimentos que precipita e, quantas vezes, porque inesperados e indesejados, antecipa.
A morte de uma pessoa amiga e admirada é sempre um desses momentos. Momento triste porque significa o desaparecimento físico, a impossibilidade de visualizar o seu rosto, de ouvir a sua voz, experimentar o seu tacto, de sentir, abraçar, beijar ou simplesmente partilhar conversa e gargalhada. Mas, em simultâneo, momento grave porque balanço do que essa pessoa, que desaparece fisicamente, significa e nos deixa… afinal, aquilo a que chamamos herança ou legado.

“Há três coisas que não têm volta: a vida vivida, a palavra dada e a pedra lançada”, ouvi eu, por estas ou outras palavras (e li recentemente em texto de Esser Silva), de forma repetida. E, por ser repetida, sentida e praticada, talvez esta frase seja a síntese e condensação de todo o seu legado.
“Vida vivida” no reconhecimento de que o tempo não tem volta e que significa um valor sem retorno. Ou seja, irrecuperável e, como tal, não admissível desperdiçar. Talvez, por isso, sorria de forma sôfrega, quase desbragada, de forma contínua e sincera. Porque todo o momento é oportunidade de espalhar alegria (e a seriedade no desempenho de qualquer actividade, cargo ou papel social resulta sempre do nosso esforço e atitude, nunca do nosso aspecto circunspecto ou “fechado”), porque o sorriso é contagiantemente motivador para fazer do momento seguinte sempre um momento maior. E, ao ser assim, nenhum tempo justifica adiar e acantonar, tantas vezes repetindo “deixemos de estar fechados no nosso castelo e sejamos capazes de sair e descobrir…”.

“Palavra dada” na expressão sincera do pensamento. Mais do que a honra de cumprir a palavra prometida, significa a capacidade de ser fiel ao pensamento e à obrigação que a liberdade nos impõe de lutar por tudo aquilo que acreditamos ser o melhor. E, por isso, tantas vezes, a “crueza” e o desassombro da sua sinceridade, ora cortante ora afectiva, ora inconveniente ora totalmente certeira, mas sempre feita confronto com a sua verdade, se assumia como a sua estrela maior. Poderíamos não concordar – e quantas vezes discordámos – poderíamos preferir outro tom e modo – e ambos reconhecíamos que o valor e importância das palavras depende tanto da maneira como as usamos – poderíamos divergir do caminho escolhido, mas não se duvidava da presença constante da sua sinceridade. E da genuidade das suas palavras ditas e escritas.

“Pedra lançada” na certeza de que há sempre caminho a fazer, há sempre obrigação de ousar, há sempre esperança de alcançar mais e melhor. Não é apenas importante fazer o que tem que se fazer. E fazer bem o que se faz. É fundamental que se seja útil e se sirva algo, que se construa no sentido de ficar sempre melhor! Por isso, “pedra lançada” não admitia desistência. E desânimo tinha sempre cura ou alternativa.
Mas, “pedra lançada” significa também (e, no caso específico da gestão municipal) ter uma “ideia de cidade” e lutar por ela, perseguir a sua construção. Com cedências e compromisso, nunca se demitindo ou abdicando da essência da ideia e do seu essencial.
Mais de vinte anos leva o meu percurso profissional municipal e ainda se encontra, maioritariamente, cruzado com a sua presença enquanto responsável pela educação e cultura vimaranense. Cruzamo-nos muitas vezes, reunimos umas quantas vezes, concordamos e discordamos, esboçamos, debatemos, ponderamos e partilhamos em diferentes papéis, dimensões e responsabilidades, a concretização desse acontecimento maior para Guimarães que foi a capital europeia da cultura.

E, já fora do seu papel político e de gestora municipal, no âmbito de um projecto de voluntariado associado à pastoral penitenciária da arquidiocese de Braga chamado “café com…”, deu corpo a uma sessão com os reclusos do estabelecimento prisional de Guimarães tão animada quanto emotiva, tão livre e descomprometida na abordagem da vida, das raízes, do tempo que nos leva, do tempo que edificamos e deixamos. E onde ficaram duas lágrimas de emoção. Não de tristeza mas pela luta constante por uma vida melhor. E de ter aproveitado a sorte que a vida nos oferece de nunca desistir. E de cumprir a nossa obrigação de sair em busca dessa sorte!
Este é o seu maior legado. Assim saibamos merece-lo. E pratica-lo!

Francisca Abreu, 1954 – 2020, natural de Vilarinho, Santo Tirso, licenciada em filologia germânica, entre outros, professora, deputada à assembleia municipal de Guimarães, presidente da direcção d’ A Oficina e vereadora da educação e cultura da Câmara Municipal de Guimarães entre 1988 e 2013. Figura incontornável de Guimarães, capital europeia da cultura 2012, que classificou como "um dos melhores anos da minha vida, um ano cheio de trabalho mas também da realização de sonhos, que não eram só meus, um trabalho colectivo que mostrou o que esta cidade e as suas gentes eram capazes …".

Deixa o teu comentário

Últimas Escreve quem sabe

21 Abril 2024

Generosidade q.b.

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login Seta perfil

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a Seta menu

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho